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Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

BOI DE MAMÃO
São Francisco do Sul, Santa Catarina

Época: do Natal ao Carnaval

Personagens: o boi – que vem sempre à frente – e outros bichos, tais como: bernúncia, cavalo-marinho, urso, veado, carneiro, onça, tigre, corvo, cachorrinho, sapo, vaqueiro, Mateus, doutor, etc.

Instrumentos: tamborim, pandeiro, gaita (sanfona), tambor e violão.

Circunstâncias: desfile e dança na frente da casa em que vão fazer a visita. O boi dança em primeiro lugar. Antes, porém, eles fazem a "chegança", cantando:

Eu sou aquele boizinho
Que nasci no mês de maio,
Desde o dia em que nasci
Vivo passando trabalho.

Três anos fui terneiro,
Quatro anos fui garrote,
Na idade de sete anos
Conheci a dor da morte.

O moço que me adomava
Era um mulato pimpão.
Me dava com o pé de vara
Me chuchava com o ferrão.

Me dava com o pé da vara
Me chuchava com o ferrão
Eu lhe dei uma chifrada
Certeira no coração.

Meu amo disse logo.
Vou mandar meu boi pro corte,
No meu carro não trabalha
Boi que já fez uma morte.

Olhei pro alto da serra
Enxerguei dois cavaleiros.
Com o laço na garupa
E dois cachorros perdigueiros.

Adeus campina da serra
Distrito de Corumbá.
Os olhos que me vem hoje
Amanhã não me verá.

Quando entrei na mangueira
Procurei enxergar saída.
Mas o único remédio
Era entregar a própria vida.

Quando me botaram o laço
Me puxaram pro argolão,
Quando me botaram a faca
Ai, que dor no coração.

Botei meu joelho em terra
Prá ver meu sangue correr,
O malvado do carniceiro
Ainda parava prá beber.

Prometi uma promessa
Prá quem meu couro tirar,
O mundo dá muita volta,
Sem camisa há de ficar.


Depois de cantados esses versos, os dançadores dirigem-se ao dono da casa:

O sapo

Meu dono de casa
Eu cheguei agora,
De bandeira verde ó maninho
De nossa Senhora.

Meu dono da casa
A licença é sua,
O boi dança em casa, ô maninho,
Ou dança na rua.


Aí o boi dança, enquanto o vaqueiro o atinge com a vara de ferrão. O boi investe e o vaqueiro defende-se. Canta o mestre:

Alevanta dorado
É boi ou relen do sol (coro)

Alevanta de roda
É boi ou relen do sol (coro)

O meu boi tangará

Toma conta do vaqueiro

Este boi é ligeiro

É bom prá pular

Cuidado, vaqueiro

Que ele vai te machucar

O meu boi brinca bem

Não machuca ninguém

Eu comprei enganado

Mas pensei que era manso

Mas fui ver era brabo

Cuidado vaqueiro

Que o boi é danado

Chamas o Mateus

É prá cuidar o teu lado

Cadê o Mateus

Aonde foi que ficou

O boi é danado

E o vaqueiro cansou


Entra a seguir o Mateus. Brinca com o boi e este o derruba. Vem o doutor e pergunta ao vaqueiro o que foi que aconteceu. Este aponta-lhe o Mateus deitado. O Doutor cura-o e depois faz a cobrança, pedindo dinheiro ao dono da casa em que se realizaram a brincadeira. Entram aí dançando os outros personagens: cavalo-marinho, bernúncia, a cabra e o cervo, a onça e o tigre.

Ao cavalo-marinho cantam:

Meu cavalo marinho
É boi ou relen do sol (coro)

Chegou prá laçar
É boi ou relen do sol (coro)

Tu laças este boi

Arretira prá fora

Cuidado cavalo

Tu laças este boi

Que a roça está chegando

Nos vamos se arretirar

Já chegou a hora

Podemos descansar


Entra o urso:

Que dê o meu urso
É urso, é urso (coro)

Que venha pro salão
É urso, é urso (coro)

Fazer sua obrigação

Venha cumprimentar

A dona da casa

Que é um belo cidadão


Entra a bernúncia:

Que de ela aonde está
Bernúncia (coro)

Manda ela prá cá
Bernúncia (coro)

Que venha brincar

A bernúncia é danada

A bernúncia engole gente

E é boa prá pular

Arretira bernúncia

Arretira prá fora

Que nós temos que ir embora


Entram a cabra e o cervo:

Ó minha cabra
Aí vem do mar (coro)

Meu bicho cervo
Vem do mar (coro)

Tão bonitinho

Vem prá saltar

Estou te chamando

Venha depressa

Que as horas estão se passando

Arretira cabrinha

Que nós temos que ir andando


Entram a onça e o tigre:

Quero ver minha onça
É onça, é onça (coro)

Quero ver aonde está
É onça, é onça (coro)

Tu venhas brincar

A onça é danada

E é boa prá pular

Quero ver o meu tigre
É tigre, é tigre (coro)

Venha vindo prá cá
É tigre, é tigre (coro)

Vem os dois agarrados

Vem prontos prá brincar

Arretira minha onça

E o tigre também

Arretira prá fora

Que a hora está chegando


Depois de dançarem todos os bichos, saem cantando:

Ai dá licença cidadão...etc


Dezembro de 1949


(Henriques, Maria de Lourdes. Em Boletim trimestral da Sub-Comissão Catarinense de Folclore)

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