Janeiro
2002
Ano IV - nº 41 |
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DO LEITE, SUA
NATUREZA E EFEITOS NA ECONOMIA |
Chama-se leite certo veneno de
cor branca com que se matam crianças em tenra idade e velhos em idade avançada.
Empregado em alta dose, pode ser de efeito fulminante. Está provado que os alemães,
durante a ofensiva na Bélgica, não empregavam contra crianças e velhos outra arma
senão o leite do Brasil, de que tinham comprado grandes partidas antes da guerra. O
leite, logo que é assimilado pelo organismo, age diretamente sobre todas as vísceras. O
estômago do paciente dissolve-se; os intestinos desaparecem sob a ação corrosiva de
certos ácidos, ainda desconhecidos, que o leite desenvolve no organismo humano; o
coração, os rins, o fígado e o baço liquefazem-se. Algumas vezes, tanto na clínica
hospitalar como na clínica civil, tem-se procurado salvar tais doentes, empregando, quer
por via gástrica, quer em injeções endovenosas, soluções de bicloreto de mercúrio,
ou de cianeto de potássio em água-rás, a 95%; mas, apesar disso, sobre cem casos de
intoxicação pelo leite, noventa e oito são quase sempre fatais.
Na Santa Casa, logo que se tem notícia ou simples suspeitas de que um doente, desiludido
de cura, conseguiu ingerir às escondidas uma colher de leite, aplicam-se-lhe, caso
permita a sua tensão arterial, injeções intramusculares, consecutivas, de uma solução
de sulfato de cobre misturado com cloreto de zinco, ou arseniato de chumbo, na proporção
de 600 por 1000.
Ultimamente quis a Higiene Municipal proibir o comércio desse ativíssimo veneno, ou ao
menos regulamentado como regulamentou o da cocaína, do ópio e da morfina, permitindo o
seu uso clandestino só a adultos de ambos os sexos que não tenham muito interesse em
viver; mas o Juiz da 1ª Vara Federal garantiu por sentença a liberdade desse nefando
comércio. De sorte que o leite continua a ser vendido às escancaras, em plena cidade do
Rio de Janeiro! Não há a menor providência, nem de caráter higiênico nem de caráter
meramente policial, contra a disseminação desse tóxico destruidor, tanto mais perigoso
quanto mais suavemente se faz a sua ingestão, havendo até médicos tão levianos e
ignaros, que chegam a prescrevê-lo como alimento a doentes submetidos a dieta! Dito
perante qualquer sociedade médica de qualquer país medianamente civilizado, não seria
acreditado por ninguém. Houve um professor alemão que, discorrendo sobre as propriedades
da água, declarou a seus alunos pasmados: "Existem povos bárbaros que bebem
protóxido de hidrogênio!" Entretanto isso nada é, embora a água, principalmente
no Rio de Janeiro, tenha propriedades extraordinariamente nocivas. Não sei o que diria
esse homem de ciência, se soubesse que os cariocas não só bebem leite como até o dão
a seus filhos e aos enfermos.
Esse amor do cariocas pelo leite é alguma coisa como a paixão dos chineses pelo ópio,
salvo os efeitos soporíferos, imediatos e deprimentes, do ópio, que são muito menos
nocivos à saúde. Ainda assim o comércio do ópio descresceu muito desde que a
Inglaterra, de comum acordo com outras grandes potências européias, resolveu
persegui-lo, como perseguiu o nosso tráfico de negros escravizados. Quando se disporá
alguma das grandes potências européias a perseguir o comércio de leite entre nós com a
mesma eficiência com que se combateu o consumo do ópio na China?
Necessário, entretanto, se faz dizer que o leite é nocivo em alto grau aqui no Rio de
Janeiro. Em Minas e no Rio Grande do Sul, por exemplo, graças à paradisíaca inocência
do meio, o veneno não tem tanta virulência. Demais, não se podem negar ao leite, desde
que chegue ao Rio, certas propriedades terapêuticas bastante úteis. Por exemplo:
empregado como antídoto do veneno ofídico, não deixa de ter eficácia. O veneno do
urutu, para só citar o mais peçonhento dos nossos ofídios, raramente resiste a uma
injeção endovenosa de leite que tenha quatro horas de permanência no Rio de Janeiro.
Ainda meia hora depois do paciente ter sido picado pela urutu, pode ser salvo com um
ampola de um centímetro cúbico de leite. No caso de picadas de algum inseto venenoso,
como o escorpião, a centopéia, o caranguejo e outros, basta, para pôr a vítima fora de
perigo, uma simples fricção local, sobre a mordedura, tendo, entretanto, o paciente o
cuidado de não levar à boca a parte friccionada, para evitar acidentes dolorosos, como
gengivites e outros semelhantes.
Mas essas propriedades terapêuticas, sem dúvida preciosas, nem por isso deixam de ser
extremamente perigosas, quando mal aplicadas, motivo por que o governo, para evitar a
degenerescência da nossa raça, deve, ou proibir, ou ao menos regulamentar a venda do
leite, como se regulamentou a da morfina.
(Torres, Antônio. Verdades indiscretas. p.321-325) |
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