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Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

QUARTINHA DE BARRO

Hoje não se fala mais nela. Foi totalmente esquecida pelo recifense. Também, com o refrigerador para esfriar, gelar a água em poucos minutos, quem irá mais se lembrar da velhas quartinhas de barro?

Era a tradicional bilha em vários modelos, onde o recifense antigo punha a água para esfriar. Na jarra da cozinha guardava-se o precioso líquido para o consumo geral da casa, para o preparo dos alimentos, para dar de beber aos moleques, aos serviçais, aos que na porta pediam:

- Um pouquinho d’água pelo amor de Deus!

E para encher constantemente as quartinhas que serviam ao pessoal da casa:

- Benedito, moleque danado, cadê a quartinha de Cazuza?

O dono da casa tinha sempre a sua quartinha de barro preferida, de cor avermelhada por fora, onde a água era posta na véspera e à noite colocada no sereno, sendo recolhida com cuidado na manhã seguinte, bem cedo, antes do sol aparecer. A água tornava-se leve, gostosa, fresquinha, fresquinha...

O termo é peculiarmente regional, pois nos outros estados do Brasil o vasilhame sempre foi chamado de bilha. Referia-se à quarta parte de uma jarra comum, de um cântaro. Daí o nome: quartinha. Era em vaso de barro para conter a água esfriando-a.

A expressão vem mesmo de muito longe. Em alguns documentos de embarques em navios saídos do Recife para o Reino, no ano de 1741, encontramos referências constantes a "quartinhas de barro de Ipojuca", o que deixa perceber não serem elas no tempo fabricadas em Portugal. O jornal A Província em 1873, durante o clímax da chamada questão religiosa, envolvendo dom Vital e a maçonaria comentava: "Nem a quartinha do padre eles respeitaram... E o Diabo-a-Quatro, em 1870, dizia: "Ela tem o colo alabastrino e da cor de uma quartinha".

Havia quartinhas dágua nos mais variados formatos. Umas compridas, imitando garrafas; outras menores, bojudas, redondas; outras modestas, algumas até individuais pequeninas, dando o conteúdo apenas de um copo, mas graciosas, muito disputadas pelos meninos que as compravam por um vintém nas feiras e nas quitandas, e tinham eles próprios o cuidado de mantê-las sempre cheias de água fresquinha. Algumas eram enfeitadas com panos de crochê, a que as donas de casas chamavam de camisa.

Durante as refeições lá estavam as quartinhas de barro solenes, bem vestidas, importantes no centro da mesa. Antes do almoço, ou da janta, a recomendação da dona da casa era invariável:

- Zefa já botou as quartinhas na mesa?

- Vou já, dona Nanu. Tou acabando de encher.

Hoje elas desapareceram totalmente do lar recifense. Ao ir chegando os meados do nosso século começaram sendo logo hostilizadas pelos filtros de torneira e pelos jarros de louça. Depois foi surgindo, sorrateiro e perigoso, o refrigerador.

Por onde andarão elas em nossos dias? Talvez ainda nos mocambos à beira das marés; talvez nas choupanas do trabalhar do trabalhador rural. Triste fim o da recifense quartinha de barro para água...

[1972]


(Guerra, Flávio. Crônicas do velho Recife, p. 23)

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