Janeiro
2002
Ano IV - nº 41 |
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Dentro do chamado "Ciclo
do Natal" - que se estende até começos de janeiro - inclui-se a chamada, por
alguns, Folia de Reis: grupo de homens, mulheres e crianças que, à noite, nas
vésperas do dia 6 de janeiro, de porta em porta, "pedem os Reis".
Câmara Cascudo, em seu volumoso Dicionário do folclore brasileiro - obra que
nasceu clássica - fala, no verbete Reis, nesses grupos de pedintes que
"visitam os amigos ou pessoas conhecidas, na tarde ou noite de 5 de janeiro (véspera
de Reis), cantando e dançando, ou apenas cantando versos alusivos à data e solicitando
alimentos ou dinheiro".
Essa tradição velha de séculos não morreu de todo no Brasil, ainda podendo
encontrar-se, nessas vésperas de Reis, esses grupos de cantadores que, de casa em casa
param a porta de entrada e aí "cantam os Reis". A casa deverá estar às
escuras e porta fechada, até que o grupo peça sejam acesas as luzes e aberta a porta, em
versos como estes, colhidos da tradição oral capixaba:
Porta aberta, lúiz acesa,
Vamo entrá com alegria,
Aqui nos mandô Deus Padre
Filho da Virge Maria...
De nosso arquivo de material folclórico, aqui transcrevemos um desses "cantes de
Reis", que se entoavam no Distrito de São João de Petrópolis, em Santa Teresa.
Neles se verá, desde a chegada do grupo cantante frente a porta da casa escolhida, até o
agradecimento final e a despedida ao dono da casa e sua família, depois de aí receber a
boa acolhida e a "sua esmola":
Ó de casa, nobre gente,
Escutai e ouvireis
Oue da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
Os três Reis lá vão passando
Pela noite de luar,
Procurando Jesus Cristo,
Sem nunca podê-lo achar.
Jesus Cristo foi nascido
Na cidade de Belém,
Numa pobre manjedoura
Desprezada de Belém.
Bem podia Deus nascer
Num lençol de ouro fino,
Para dar exemplo ao mundo
Foi nascido pobrezinho.
Canta o galo, nasce a luz,
Todos os santos levam a cruz.
Viva a casa bem fechada,
Viva o corpo de Jesus.
Meu senhor dono da casa,
Abre a porta e acende a luz,
Venha receber na porta
O coração do bom Jesus.
Meu senhor, me dê licença
De entrar no seu salão,
E cantar os Santos Reis,
Que lhe dão a salvação.
Cheira a cravo, cheira a rosa,
Cheira a flor de laranjeira,
Meu senhor dono da casa,
Põe a mão nesta bandeira.
Meu senhor dono da casa
Generoso como és,
Dê uma esmola aos Santos Reis
Que chegaram aos vossos pés.
Meu senhor dono da casa,
Entregai nossa bandeira,
Os treis Reis já (ou lá) vão embora
Têm que andar a noite inteira.
Deus lhe pague sua esmola,
Dada de bom coração,
Meu senhor dono da casa,
Deus lhe dê a salvação.
Meu senhor, me dê licença,
Que eu agora vou embora,
O senhor fique com Deus,
Que eu vou com Nossa Senhora.
Adeus casa, adeus terreiro,
Adeus ó dono também,
Os três Reis lá vão embora,
Voltarão o ano que vem...
Esses versos - como se vê - falam na Bandeira, ou seja a Bandeira do Divino, que o grupo,
por vezes, porta e que é beijada não só pela gente que se encontra nas ruas, como pelo
pessoal que se acha no interior das casas que são visitadas. Tendo em vista esta
presença, ao grupo ambulante e cantante se dá também o nome de Bandeira de Reis.
Há tempos, numa véspera de Reis, tivemos a surpresa e alegria de receber, em nossa casa,
na praia de Manguinhos, um grupo de Reis, do qual também participavam crianças - o qual,
ao som de cavaquinhos, entoou cânticos.
(Neves, Guilherme Santos. Folclore brasileiro: Espírito Santo, p.59-60) |
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