
O homem de quarenta anos. O homem de vinte e cinco anos. São ambos bem nascidos, bem
vestidos. Pela manhã de ontem.
O homem de quarenta anos: - Mas que rapidez! Sais hoje antes do almoço?
O jovem: - All right. Des affaires, mon cher; business...
O homem de quarenta anos: - Amor?
O jovem: - Qual! Não te recordas, cabeça de vento, que hoje é o dia 24 de dezembro?
O homem de quarenta anos: - É verdade. Nem mais lembrava. Hoje, véspera de Natal!
Também agora não temos mais dessas festas.
O jovem: - Ao contrário. Agora é que elas existem. Olha tu se há dez anos eu teria
ocupações desde antes do almoço na véspera do Natal! Hoje nem sei como hei de me
dividir!
O homem de quarenta anos: - Sim. Talvez não tivesses que fazer futilidades. Há dez anos
no Rio, o Natal ainda era uma grande festa de família, uma formidável comida ingênua e
patriarcal. Era como em Lisboa, antes da escola Berlitz. Juntavam-se as famílias e
trinchavam o peru e comiam castanhas, rabanadas, também chamadas de fatias do céu... De
que te ris?
O jovem: - Do teu ar informativo. Só essas rabanadas, "também chamadas fatias do
céu" demonstram que inveredaste pela história antiga...
O homem de quarenta anos: - Era bom, era simples, era meigo, era familiar. Não imaginas a
impressão de ceiar com toda a família reunida, as avós, as primas, as tias... E os
namoros?
O jovem: - Creio que não vais me aborrecer nesse estilo muito tempo?
O homem de quarenta anos: - Pedante! A festa do Natal é uma prova de que o modernismo
tudo perverteu. Que vais fazer hoje?
O jovem: - Vou daqui ao florista. Tenho que mandar flores a diversas senhoras. Depois vou
a uma "confiserie". "Bonbons", meu caro, para diferentes
damas. Depois, o almoço grande com alguns rapazes em uma certa casa. Passeios à tarde.
Casaca. Um jantar com os condes de Portanogra. Em seguida a corrida aos réveilions. Tenho
de comemorar o nascimento de Jesus com champanhe em vários lugares ao mesmo tempo, a
começar pelo Assírio, onde estará a haute-gomme, até os cabarets... Já
mandei guardar uma das mesas da corbeille no Assírio.
O homem de quarenta anos: - Mas, criatura, estás apenas copiando Paris, estás repetindo
Paris na Avenida. É uma lamentável macaqueação, um fingimento...
O jovem: - Não duvido. Mas é a moda. O impossível é fazer-nos voltar à clássica ceia
em família e com rabanadas, "também chamadas fatias do céu" Pode ser que seja
mau. Que fazer, porém?
O homem de quarenta anos: - Estás perdido!
O jovem: - Muito bem. Mas se tu tens tanta vontade de manter a tradição, a vovó
Guilhermina dá hoje aos netos um jantar. Por que não vais a ele?
O homem de quarenta anos: - Jovem Pedro!
O jovem: - Que temos?
O homem de quarenta anos: - Então eu sou mais velho e ainda hei de agüentar com a
tradição? Então tu jantas com a linda condessa de Portanogra, e mandas-me para a vovó
Guilhermina? Então tu tens mesa na corbeille de um reveilon mundano e
atiras-me para um jantar de crianças? Pedro, a tradição é para a mocidade. Eu sou de
meia idade. Anda daí. Vou contigo. Tenho de mandar flores também. As tradições
desaparecem dos nossos costumes miseravelmente! Mas é muito melhor ajudar a destruí-las
do que mantê-las em vão...
João do Rio (01/01/1916)
(João do Rio. Crônicas efêmeras)
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TEMPO DO PADRE INÁCIO
Mentalidade, critério, opiniões, hábitos obsoletos, cediços,
antiquados. "No tempo do padre Inácio... pela cartilha do padre Inácio",
citavam, habitualmente, o doutor Gervásio Fioravanti, meu professor de Direito Penal na
Faculdade do Recife, e o desembargador Luís Tavares de Lira, em Natal, ambos ignorando
quem tivesse sido o personagem evocado. Carlos Olavo (A vida amargurada de Filinto
Elísio, Lisboa, sd 1945?) informa: "O padre Inácio Martins, que foi professor
do quarto curso de filosofia no Colégio das Artes, depois da sua direção ter sido
entregue à Companhia de Jesus. Era o instrutor da infância pelas infiltrações da sua Cartilha,
adoptada obrigatoriamente em todas as escolas, e propagador, de facto, das
doutrinas da Companhia. Saía à rua de pendão alçado e campainha, ensinando às
crianças da plebe o catecismo e pregando. Subia aos palcos, onde se representavam
comédias e autos, expulsava os atores, benzia-se, perorava e proclamava a doutrina. O que
perpetuou o seu nome não foram os seus atos de fanatismo audacioso, mas a tradição
cômica da sua Cartilha. Ainda hoje se diz para caracterizar a ignorância de
qualquer pessoa, que aprendeu pela Cartilha do padre Inácio". O padre Inácio
fora o primeiro noviço português admitido, 1547, na Companhia de Jesus. Doutor em
Teologia na Universidade de Évora. Faleceu em Coimbra, fevereiro de 1598. A famosa Cartilha
do padre Inácio constava de algumas adições à Doutrina Cristã (Lisboa,
1561), do padre Marcos Jorge, também jesuíta (Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário
Bibliográfico Português, III, IV, Lisboa, 1857).
(Cascudo, Luís da Câmara. Locuções
tradicionais no Brasil, p.162)
VELHO COMO A SERRA
A imagem com que se compara a velhice do Tempo não é a mesma para o
povo. Na França, vieux comme Adam, comme Mathusalem, comme Hérodes, comme les rues,
comme les chemins. Como a Sé de Braga, em Portugal, ou como a Sé de Palha, na Bahia,
coberta de folhas de palmeira em 1549, e também dita Sé da Praia. "Velho como
cobra", ouvido por mim, talvez versão do "mais antigo que a serpe", figura
possivelmente literária portuguesa, ocorrendo em Jorge Ferreira de Vasconcelos, Eufrósina
(Coimbra, 1560). Leonardo Mota registra como vulgar, no Ceará, "velho como o
chão", não deparada nas minhas indagações. O modelo mais comum é o "velho
como a Serra", old as his hill ou alt wie die Berg, no mundo inglês e
alemão, e que mestre João Ribeiro dizia corrente "em quase todas as línguas
cultas". É a frase que sempre ouvi nos sertões, a mais vulgar e preferida. A Serra
impõe a presença da antigüidade. O eminente etnógrafo português Jaime Lopes Dias
informa-me, janeiro de 1970, não dizer-se em Portugal "velho como a Serra" e
sim "velho como a Sé de Braga".
(Cascudo, Luís da Câmara. Locuções
tradicionais no Brasil, p.202)
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