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Em cada fim ou começo de ano, nota-se grande afluência, verdadeira corrida dos matutos às farmácias do interior, à procura dos almanaques do ano.

Preferem os tradicionais Bristol e Cabeça de Leão (Almanaque de Ayer). Esse interesse por almanaques não é, porem, em relação à divisão do tempo, isto é, a divisão do ano em meses, dos meses em semanas e das semanas em dias.

Pouco importa que um mês tenha 28, 29. 30 ou 31 dias. O que interessa é saber se o almanaque marca chuva. Sim, porque esta questão de datas, os sertanejos procuram fixar ao seu modo, sem maltratar muito a memória com registro de algarismos ou meses. O tempo é o sol, que continua a girar como nos dias do profeta Josué.

Para dividir o dia, aí está o sol, "de sol a sol"; para dividir o mês, aí está a lua com as suas fases infalíveis.

Para fixar a data de um nascimento, de um casamento ou de um óbito, basta aliar o fato a um acontecimento regional de maior vulto, embora abrangendo um lapso superior a um ano.

É mais prático fixar o tempo, englobadamente, que fragmentá-lo. Por isso, dizemos - Meu avô morreu... na primeira recruta. E quem quiser saber, trocado a miúdo, que procure o dia, o mês e o ano em que a localidade foi visitada pela "tropa de linha" que fez o primeiro recrutamento para a guerra do Paraguai.

Damos, a seguir, uma série de expressões que fixam épocas, tempos e datas:

1. Do preá prá cá
2. Do tempo da "era"
3. Da fome do bolachão prá cá
4. Na seca grande (1860)
5. Na fome do beiço branco (1932)
6. Na fome velha (1860)
7. Quando a porca pariu
8. No tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça
9. Quando o Conselheiro passou (guerra de Canudos)
10. Na passagem do Savaget (guerra de Canudos)
11. Antes do arame farpado
12. Quando fio de barba valia dinheiro
13. Do Paraguai prá cá
14. No tempo dos Afonsinhos
15. Quando Deus andou no mundo
16. Quando havia pouco rastro e muito pasto
17. Na guerra de Canudos
18. Nas guerras de Labatut (Independência da Bahia)
19. Do tempo do dilúvio
20. No ventre livre (escravidão)
21. Na passagem do século
22. Na alforria (abolição)
23. No tempo do cativeiro
24. No tempo dos reis
25. No tempo de Lampião
26. Quando Lampião passou a primeira vez
27. Quando apareceu o gás (Gás-querozene)

28. No cólera (epidemia cólera-morbus)
29. Na gripe grande (epidemia da gripe espanhola)
30. Quando Braz era tesoureiro
31. Na revolta de Fausto Cardoso
32. No tempo das sesmarias
33. Na passagem do "Biela"

34. Na passagem da estrela de rabo (Cometa de Halley)
35. Na outra lua
36. Nestes quinze dias...
37. Nestas três semanas...
38. No escuro passado
39. Ao pendor do sol
40. Na hora do almoço grande
41. Na safra passada
42. Na safra que vem
43. Na quadra do milho
44. Na moagem
45. Quando pejar
46. Quando o galo cantar
47. Quando correr a viração
48. Na quadra das chuvas
49. Nas primeiras águas
50. No chiar dos passarinhos
51. Quando o sol se encobrir na serra
52. De sol-a-sol
53. De sol a pino
54. No cagar dos pintos
55. De-prá-minhã
56. Noite velha
57. Terça noite
58. Na lua nova
59. De sol por lua
60. No minguante que vem
61. No mês de Santana (julho)
62. No mês de São João (junho)
63. Dia de São José
64. Na quaresma
65. Nas plantações
66. Quando o mentrasto enflorar
67. Na descasca (Reunião de vizinhos para descascar a safra de milho)
68. No papagaiar do algodão (papagaio-maçã de algodão fruta)
69. Dia do Nascimento (Natal)

70. Dia de São Nunca
71. Na entrada do ano
72. No tempo do dobrão (moeda colonial feita de cobre)
73. De Floriano prá cá (Governo do Marechal Floriano)
74. Na revolta de Maynard (1924)
75. Na passagem do Zepelim
76. No tempo do tronco (escravidão)
77. No tempo da forca (pena de morte)
78. Na primeira recruta
79. Nas bexigas de Laranjeiras
80. No tempo do dízimo (dízimo-imposto)
81. No tempo dos jesuítas
82. No tempo do peba e cabaú (Peba e cabaú-dois partidos políticos)
83. No tempo do Saquarema
84. No tempo do Liberal e do Conservador
85. Na hora "da" onça beber água
86. Até as corujas voar...
87. Até dizer "abasta"...
88. Em três tempos
89. Quando roncar trovão
90. Num tempão enorme
91. Do tempo da onça
92. Quando Adão era cadete
93. Quando Adão era menino
94. Em riba da hora
95. Num dia enforcado
96. Num abrir e fechar de olhos
97. Velho como o chão
98. Fora de tempo
99. Fora de hora
100. Do meu alcance prá cá
101. No amiudar dos galos
102. Pegando o sol com a mão
103. Até...
104. O tempo decide...
105. Quando faltar reumatismo em velho
106. Quando faltar luz no Evangelho
107. Quando faltar unha em preguiça
108. Quando cachorro enjeitar lingüiça
109. Quando velho enjeitar tabaqueiro
110. Quando faltar piaba nos rios
111. Quando o sol tremer de frio
112. Quando faltar mentira em cigano
113. Quando onça enjeitar bode
114. Quando negro enjeitar samba
115. Quando peixe morrer afogado
116. Quando caranguejo andar para a frente
117. Quando cobra não morder
118. Quando velha não for fuxiqueira
119. Quando mulher não tiver ciúme

Os períodos da vida

Os diversos períodos da vida humana, desde a concepção até a morte, são fixados, para os dois sexos, por expressões curiosas como estas:

1. Já nos dias...
2. Cria
3. Lengo
4. De-mama
5. Nos cueiros
6. De braço
7. Se arrastando
8. Engatinhando
9. Caminhando "dandá"
10. Comendo com a mão
11. Molecote
12. De calça curta
13. De calça comprida
14. Mudando a fala (ele)
15. De pedra nos peitos (ele)
16. Buçando (ele)
17. Chegando terra à bananeira (ele)
18. Capaz de... (ele ou ela)
19. Frangota (ela)
20. Ficando mocinha
21. Se enfeitando (ela)
22. Solteiro
23. Moça
24. Ficando quebrada
25. Pintando (ele)
26. Casada de novo
27. Mãe de filho
28. Pai de filho
29. Vitalina
30. No barricão
31. No tiro da macaca
32. Franzindo (ela)
33. Major (ele)
34. De neto
35. De bisneto
36. Engiando (engelhando)
37. Caducando
38. Virando menino
39. Contando os dias
40. Olhando pra cova
41. Esticando a canela
42. Negro quando pinta tem três vezes trinta...


As três fases do celibato


Da mulher:

Aos 25 anos: primeiro tiro da macaca
Aos 35 anos: segundo tiro da macaca
Aos 45 anos: terceiro e último tiro da macaca

Do homem:

Aos 35 anos: primeiro tiro da macaca
Aos 45 anos : segundo tiro da macaca
Aos 55 anos: terceiro e último tiro da macaca


(Deda, Carvalho. Brefaias e burundangas do folclore sergipano, p.196-201)


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