Jangada Brasil – janeiro 2002 – nº 41 – Imaginário – Na fuga para o Egito

NA FUGA PARA O EGITO – LENDAS DE PORTUGAL E DO BRASIL

O nosso confrade Felicio Raitani Neto, da Subcomissão Paranaense de Folclore, apresentou à Comissão Nacional de Folclore, segundo consta do documento 160, de 26 de dezembro de 1949, uma comunicação referente à intervenção das aves na viagem da Sagrada Família para o Egito, quando esta fugia à perseguição dos judeus.

E apresenta duas versões: uma, resumida em verso por Pedro Saturnino, que diz:

Quando a Virgem fugiu com José para o Egito
Carregando consigo o divino rebento
Elas foram atrás e prevendo um delito
Apagaram o rasto, os sinais do jumento

(…)

E as rolas nunca mais deixaram as estradas
Taturinando a sós pelos ermos caminhos
Salmos sentimentais e bíblias baladas

E outra, escrita em prosa pelo confrade. Felicio Neto, que diz:

“E a marcha dos caminhantes – Segura pista naquelas vias desertas – Imprimia-se com nitidez no chão arenoso dos caminhos poeirentos…

Mas um corruíra, providencialmente seguia a caravana encobrindo cuidadoso aquelas impressões.

E, eis o que, atrás deste, vinha outro passarinho, que removendo novamente a terra, descobria as pegadas tão amorosamente dissimuladas pelo curruíra.

Por isso abençoado foi o curruíra de Deus e amaldiçoado o perverso pardal, pois que, seguidas as pegadas, puderam os centuriões do Tetrarca descobrir os fugitivos.

Virgem Maria, na aproximação dos perseguidores, conseguiu iludi-los transformando o Menino Deus numa braçada de asas brancas de raro esplendor e de imaculada pureza.”

A primeira versão foi colhida em Minas Gerais e a segunda no Paraná. Pondo em confronto as duas versões “por divergirem não só na tessitura, assim também em relação aos figurantes”, Felicio Neto diz: Pensamos ser de origem portuguesa, embora eu tenha declarado em meu livrinho (Lendas e crendices da infância) ignorar-lhe a origem, aventando a hipótese de ter sido criada pela imaginação infantil”.

Cumpre-me, nesta colaboração que, irmãos e amigos, portugueses e brasileiros, uns a outros devemos, vir a terreiro com a minha quota parte de colaboração útil, dizer o que se passa do lado de cá, em Portugal, neste caso da lenda das aves na fuga para o Egito.

No volume I (1ª edição, p.144-145; 2ª edição, p.80-82) de Etnografia da Beira escrevi:

A condenação da noitibó

Na mesma histórica jornada, acompanhou, durante muito tempo, os santos viajantes uma ave de aspecto triste e canto lúgubre, que voando, voando em pequenos vôos, ia dizendo e repetindo: – cá vai! cá vai! cá vai! cá vai!

E no abominável papel de denunciante, ia indicando a marcha da Sagrada Família.

Depois de a ter ouvido, compreendido e observado por algum tempo, a Virgem Maria disse:

– Eu te condeno, vil e abominável ser, a não mais poderes ver a luz do chão e não mais cruzares o azul dos céus.

Desde então a noitibó não pode suportar a luz do sol, só sai do seu esconderijo à hora do crepúsculo, não entra no convívio das aves e só voa junto ao chão.

Pitinhas de Nossa Senhora

Ainda na fuga para o Egito, a pequena distância de Nossa Senhora e de São José, seguia uma modesta mas interessante avezinha.

Na cabeça uma poupa ou coroa, no seu todo de simplicidade qualquer coisa de insinuante. São José, tocando a burrinha, caminhava acabrunhado e sempre receoso que os perseguidores de Jesus Cristo, guiados pelos rastos que ficavam no caminho, pudessem vir a prendê-lo.

A simpática avezinha, que vinha atrás e jamais deixou de os seguir, ia remexendo com o bico e com os pés os sinais do caminho, e dizendo: – não o vi! não o vi! não o vi! [1]

E respondendo e contradizendo o canto da noitibó, acrescentava: – mentira, mentira, mentira.

Os fariseus, que vinham no encalço, não puderam, pelos rastos, descortinar a marcha da Sagrada Família, e por isso, ainda hoje, o povo de Idanha Nova não só não mata as cotovias, como lhes chama com muito carinho “pitinhas de Nossa Senhoras”.

Como se vê, a lenda deve ter origem portuguesa embora as aves difiram: no Brasil as rolas brancas, a corruíra e o pardal, e em Portugal a noitibó, a cotovia e a cordoniz.

No fundo, na essência e no significado, o povo enquadrou o espírito do bem em aves vistosas e bonitas, e o do mal no atrevido pardal e na antipática noitibó.

Nota

[1]. No Ladoeiro atribuem o mesmo fato à cordoniz.

(Dias, Jaime Lopes. “Na fuga para o Egito – lendas do Brasil e de Portugal”. Comunicação para a Comissão Nacional do Folclore.)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © All rights reserved. | Newsphere by AF themes.