Janeiro
2001
Ano III - nº 29 |
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O culto a Iemanjá - universal entre os
negros da Bahia - chega a belezas indescritíveis nas várias procissões fetichistas que,
a bordo de saveiros a vela ou a remo, singram "as águas do mar sagrado" para
lhe levarem presentes coletivos. Estes presentes são constituídos por pó-de-arroz,
pentes, sabonetes, frascos de cheiro, espelhos, laços de fita, enfim, todo o material
necessário à maquilagem condizente com a sua fama de mulher fatal, de encantos
irresistíveis. No meio do presente, pode-se "para aumentar", deixar cair
algumas moedas de prata... O presente se leva para o lugar mais fundo do mar ou para onde
as águas se encontrem e aí ele é deixado para que Iemanjá o receba. Outrora, os
devotos eram obrigados a mergulhar para que a Senhora das Águas recebesse as suas
oferendas e os seus ex-votos. O uso acabou, há muitos anos. Ainda hoje, porém, os negros
sabem que, se Iemanjá não quiser o presente, ele não descerá ao fundo limoso do mar.
Por toda a baía de Todos os Santos, Iemanjá merece as homenagens públicas do negros,
pescadores, marinheiros, estivadores, carregadores dos portos, homens simples do litoral.
E as festas organizadas em sua honra deixam na sombra as festas católicas, que, menos na
cidade da Bahia, não têm o mesmo esplendor nem a mesma riqueza de colorido. Tais as
festas de Iemanjá (os "presentes pra mãe-d'água", como dizem os negros) nas
povoações da Gameleira, do Bom Despacho e da Amaralina, no Dique, em Itapoã, nas
Cabeceiras da Ponte, em São Bartolomeu, na Lagoa de Vovó (Fazenda Grande do Retiro), no
Monte-Serrat. E principalmente na Amoreira, no Dique e nas Cabeceiras da Ponte. Estas
festas demostram, com a maior clareza, a profundidade do culto a Iemanjá entre os negros
da Bahia.
(CARNEIRO. Carneiro. Antologia do Negro Brasileiro) |
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