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Janeiro 2001
Ano III - nº 29

O REISADO DE VIÇOSA

A célebre viagem do Reisado de Viçosa que foi a São Paulo tomar parte do desfile folclórico do IV Centenário, é uma cousa que ainda não foi contada em todos os seus pormenores. E é bom que não seja... Quase quatro anos são já decorridos e os fatos continuam vivos na minha memória.

Mas deixemos de lado as raivas, as contrariedades, as decepções e os prejuízos e procuremos ver somente o que ficou de menos desagradável.

Evoquemos, portanto, o brilhantismo daquela noite memorável em que os humildes caboclos da Viçosa foram os embaixadores vitoriosos da terra e da tradição das Alagoas nos festejos do IV Centenário de São Paulo.

No desfile alegórico o Reisado Viçosa foi realmente um dos folguedos populares que mais despertou a atenção daquela enorme massa humana que lotava o vastíssimo Parque do Ibirapuera. Não esquecerei jamais o desembaraço e o entusiasmo com que seus figurantes pisaram no grande palanque das apresentações oficiais.

O colorido da sua indumentária, à luz dos refletores, era, em verdade, de grande beleza. Ao lado dos bonitos e vistosos chapéus, artisticamente confeccionados dentro da técnica tradicional, recobertos de espelhos e de fitas policrômicas, surgiam os mantos, os guarda-peitos e os saiotes, encarnados e verdes, bordados de trinas douradas e prateadas. Mas, com esta bela apresentação material, avultava a parte mais interessante que era aquela que brotava da melodia das cantigas e do ritmo da coreografia impressionante.

O Reisado de Viçosa brilhou em São Paulo em virtude dos seus elementos selecionados que o tornaram um dos mais perfeitos que já se conseguiu até hoje.

Luís Góis, o seu mestre, pode ser classificado na mesma categoria de João Félix e Libânio que foram os maiores na arte dificílima de representar o tradicional folguedo alagoano.

Mas a maior consagração do Reisado foi feita no seu regresso à Viçosa.

Pelo Natal, mestre Luís reuniu os seus figurantes e lá se foi todo garboso, de espada em punho, cantar as louvações do Divino na porta da Matriz de Viçosa, de acordo com a tradição. E a matutada que viera para a festa do Natal e para a Missa do Galo, comprimia-se agora na porta da Matriz para ver o Reisado famoso que fora a São Paulo. Como aquele povão do Ibirapuera, este outro, composto dos caboclos da terra, também admirava e aplaudia e acrescentava ainda que nunca vira um Reisado tão bom e tão bem enfeitado. Era o sincero e autorizado julgamento dos nossos homens simples, acostumados a ver inúmeras destas representações porque vivem na Viçosa das Alagoas. Era a vitória definitiva.

O Reisado de mestre Luís dançou, então, tanto no clube elegante da cidade, como nas casas-grandes das usinas, dos engenhos e das fazendas, conforme o costume da época natalina. E em meio ao vasto e belíssimo repertório de suas cantigas, surgem os motivos de sua ida a São Paulo. Mestre Luís recordou as peripécias da viagem e narrou, a seu modo, os acontecimentos em que tomou parte.

Em uma de suas peças, cantou assim:

Fui a São Paulo
Num avião brasileiro
E cheguei muito ligeiro
Lá naquele grande estado
Tirei de limpo
Naquela terra querida
Desfilei na avenida
Na frente do meu Reisado

Lá em São Paulo
Quando o Reisado chegou
O povo se admirou
Da nossa marcha garbosa
Tinha folguedo
De outras terra diferente
Mas ninguém passou na frente
Do Reisado de Viçosa

E com a narrativa da sua viagem, mestre Luís cresceu mais ainda aos olhos daquela gente que lhe aplaudia e lhe proclamava a fama.

Outro figurante do Reisado foi o mestre Osório, que na função fez o papel de Rei. Descreveu também episódios da viagem. Teve muito medo quando, em Maceió, embarcou no avião e ainda hoje canta meio assombrado:

Quando eu fui embarcar
Que entrei no avião
Me tremeu o coração
Fiquei sem poder falar
Pra tudo peguei a olhar
Triste sem contentamento
E o avião cortando vento
Na macieza do ar

Vi o avião voar
Em direção de Bahia
Eu fiquei sem alegria
Tristonho ali a pensar
Só via o vento ventar
E as nuvens brancas passando
E o avião balançando
Por cima do alto-mar

Mestre Osório fala também da lembrança da terra querida e não esquece o pesadelo do avião:

Meu pessoal
Em São Paulo onde eu estava
Só me lembrava
Do nosso torrão natal
Vim descansar
Em nossa terra mimosa
Aqui em Viçosa
Onde é meu natural

Meu pessoal
Eu avistei Rio de Janeiro
Passei ligeiro
No avião pelo ar
Peguei a olhar
Pra baixo e fiquei nervoso
Tão pesaroso
Só pensando em me acabar

Sebastião Laurindo, que foi a São Paulo como um dos Mateus do Reisado, é um antigo cantador de coco e de vez em quando ainda toma parte nos torneios da conhecida dança alagoana. Depois da viagem, estava ele cantando certa noite, quando tirou o coco que transcrevo abaixo e que é um documento expressivo, realista, e que bem traduz as emoções do desempenado caboclo da Viçosa. Reportagem magnífica.

Focaliza certos aspectos da viagem: o frio, a comida, a hospedagem no quartel de polícia e até os graves acontecimentos que abalaram a capital paulista na morte do presidente Getúlio Vargas, ocorrida justamente nessa época. Admirável a composição deste velho cantador analfabeto. É um coco cantado no antigo estilo dos balamentos, forma em que Sebastião Laurindo gosta de se expressar:

Em São Paulo eu não vou mais
Com medo do que vi lá {coro}

Fui a São Paulo
No brinquedo do Reisado
E fiquei admirado
Das cousas que vi por lá
Ô minha gente
Eu quase morro de frio
Também me deu um fastio
Das comidas do lugá
Eu me arranchei
No Quarté do Batalhão
Era soldado como cão
Coroné e generá
À meia-noite
Gritou a rapaziada:
- Cuidado meu camarada
Que a guerra vai pegá
Vi os soldados
Ligeiro calçá botina
Vi pegar na carabina
Vi a corneta tocá
Eu tive medo
De vê aquele alvoroço
Fui e perguntei a um moço:
- Seu tenente, o que é que há?
Ele me disse:
- A cousa agora está quente
Pois morreu o presidente
E a bala vai cantá
Deu um pinote
E subiu no caminhão
Com a força de prontidão
Já no ponto de atirá
Achei bonito
A tropa da cavalaria
Que na hora também ia
Tudo certo, tudo iguá
Cada cavalo
Do tamanho de um sobrado
Com os casco tudo ferrado
Batendo no chão prá, prá
Só via gente
Uns correndo, outros gritando
E os desordeiros quebrando
As lojas da capitá
Quando eu vi isso
Me aveixei pra vir embora
E o avião com demora
Sem saber quando chegar
Graças a Deus
Finalmente ele chegou
E o Reisado embarcou
Com todo seu figurá
Meu povo todo
Eu não digo pabulagem
Já contei minha viagem
Quem quiser pode notá
Lá é bonito
Mas eu digo seu rapaz:
Em São Paulo eu não vou mais
Com medo do que vi lá

De forma que a viagem do Reisado de Viçosa a São Paulo foi e continua sendo cantada e decantada. Com o grande poder de penetração que possui a poesia popular, ela é hoje um dos motivos do cancioneiro da terra. É a manifestação viva do folclore nativo, permancendo, evoluindo e incorporando ao seu vasto patrimônio novos pontos de referência que ficarão como marcos indeléveis no tempo e no espaço.

E as futuras gerações de caboclos de Viçosa repetirão ainda pelos pátios dos engenhos e das fazendas as belas cantigas que evocam a viagem do Reisado famoso que esteve em São Paulo nas comemorações de seu IV Centenário.

E se por acaso o professor Rossini Tavares de Lima passar a visa por estas linhas, há de repetir, comigo, esta melodia maravilhosa do Reisado da minha terra, que muito folclorista ilustre decorou e cantou em São Paulo:

Ô minha gente
Reisado só de Viçosa
Fazenda só cor de rosa
Baiana só do Faró
Ô minha gente
Dinheiro, só de papé
Carinho, só de muié
Capitá, só Maceió


(VILELA, Aloísio. Boletim alagoano de folclore, nº 3, maio de 1958)

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