Janeiro
2001
Ano III - nº 29 |
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O RIO DO MEADO DO
SÉCULO XIX |
Vista do mar a cidade apresenta o atrevido
esplendor de cem anos atrás. A mesma natureza exuberante e teatral. Toda uma flora
desenvolta e ativa, rica de viço e cor, galhuda, desordenada, impetuosa, revestindo de
troncos de folhagens, vales, picos, planuras, nas montanhas em torno. São gussais, são
coqueiros, são muricis, suinhães, sapucaias, ingás, guaripurus, ipês...
O quadro da paisagem portentosa ainda é, como se vê, o mesmo, nada tendo perdido em sua
espetacular grandiosidade. Ainda estarrece, encanta e empolga o viajante chegado de outras
plagas e outros climas.
Espremida entre os montes do Castelo e São Bento, tendo por fundo a serrania azul que
sobe para o céu e vai perder-se além, vê-se a massa pesada, a massa escura e triste dos
telhados do centro da cidade, cobrindo um casario acaliçado e baixo, beirando a linha
branca e irregular das praias e as pedras alinhadas de um encardido e esverdinhado cais.
O Rio de Janeiro desenvolveu-se enormemente depois de proclamada a independência. O
viajante que chega e mal transpõe a garganta da barra, começa, logo, a ver bairros como
os de Botafogo, Catete e Glória, que a uns bons anos atrás eram, apenas, espessos tufos
de folhagem mas que ora já mostram construções de certo porte e de aceitável feitio.
Por toda a linha sinuosa do litoral há um trânsito vivo e numeroso: negros escravos a
conduzir carros de bois, argueiros transportadores de hortaliça e, de quando em quando,
em corrida veloz uma sege-tílburi, caleches, cabs, berlindas; toda uma nova cidade
que se desenterra de um passado de muito esterquilínio e pouquíssima glória.
O movimento pelo mar, outrossim, é bem grande. Chegam proas de todos os recantos do
universo. Naus francesas, alemães, inglesas, espanholas, italianas, portuguesas... Carga
que embarca, carga que desembarca.
No fundeadouro dos navios mercantes, em confusão festiva, velas que ora se fecham ora se
desfraldam. O número de barcos a vapor é notável. Em 1850 possuímos várias empresas
de transporte, todas a vapor. É a Companhia dos Paquetes Britânicos, com casa de
expediente no Cais Pharoux e que garante viagens de longo curso para a Europa. Uma
passagem, do Rio de Janeiro para Falmouth, na Inglaterra, custa entre 30 a 57 libras
esterlinas. Do Rio a Buenos Aires cobram-se, geralmente, de 12 a 20. "Os passageiros
devem trazer colchão, roupa de cama, sendo que a bagagem não pode exceder de
quatrocentas libras." Isso dizem os anúncios da referida empresa. Possuímos a nova
Companhia Brasileira de Paquetes a Vapor, com um escritório à rua Direita, e uma frota
bem nova, de excelentes navios que vão até Belém, no norte do país, e a Porto Alegre,
para as bandas do sul; a Companhia de Navegação para Macaé e Campos, e, ainda, a
Companhia Itaguaiense que possui barcos, todos eles a vapor. Fazem o serviço para Angra
dos Reis, Mangaratiba e Parati. Mais duas companhias, a Itaboense e a Inhomirim, completam
o serviço de cabotagem. Inúmeras embarcações pequenas estão mantendo o tráfego entre
esta cidade, Niterói e ilhas da Guanabara. É o tempo das faluas de largas velas, de alta
mastreação, das canoas pintadas de amarelo, dos botes e escaleres que se movem a remo,
tripulados por negros, numa quantidade prodigiosa, de um lado para outro. O serviço de
barcas para a Praia Grande e São Domingos já funciona, bem como o que faz a rota de
Botafogo, com embarcações que saem do cais do Paço. Para São Cristóvão há um outro
serviço, mas, de escaleres, partindo da Prainha, regularmente, de meia em meia hora.
Todas essas proas agitadas e ativas dão grande vida à Guanabara na parte que medeia
entre Governador e Pão de Açúcar. A impressão que assalta o forasteiro aqui chegado é
a de surpresa por um tão movimentado tráfego. Dir-se-ia um grande porto europeu, uma
grande cidade. Em todo caso, já é o porto maior e mais povoado da América do Sul, o
empório comercial mais importante destas bandas do Atlântico. Buenos Aires ainda não
tem a importância que, dentro de cinqüenta anos, terá.
Se compararmos o comércio que então mantemos com o dos tempos amorrinhados da colônia,
uns quarenta anos atrás, veremos que aquele, espantosamente, triplicou. De resto, o
desenvolvimento da terra autônoma processa-se com rapidez extraordinária, aos saltos.
Passada a fase de agitações políticas, dos motins políticos, dos distúrbios, por
vezes, graves, atentando, não raro, até, contra a unidade do país; consolidado o trono,
acomodados os partidos, num ambiente de agradável concórdia, vamos colhendo os frutos de
uma vida de trabalho e de paz. Os inimigos irreconciliáveis do progresso, velhos, na
terra, como as recordações da governança de Luís Vahia, o Onça, ou mandão
mais antigo, já se vão conformando com as "grandes novidades" que aqui chegam,
embora um tanto de nariz torcido e aceitando a introdução constante de coisas
proveitosas que dia a dia entram no país. E é assim que aceitam o gás de iluminação
(no conceito de certo conselheiro municipal embuste consumado, uma vez que não se pode
acreditar em luz não fornecida por pavio...) Somos o segundo país do mundo a
assimilar o selo do Correio, de invenção inglesa; o terceiro país a inaugurar o caminho
de ferro; dos primeiros a adotar a navegação a vapor, o telégrafo. A criação de uma
junta de Higiene para zelar pela saúde pública é coisa que espanta aos médicos da
Europa que aqui aportam, por acaso. Para alguma coisa havia de servir a independência da
terra.
Possuímos uma arte que já se desapega da maminha lusa. Na literatura, José de Alencar e
Gonçalves Dias são dois traços distintos de brasilidade. Dois gênios da pintura já
palpitam para a glória do país: Vítor Meireles e Pedro Américo. Na escultura, Chaves
Pinheiro é um mestre. Na música esplende o gênio musical de Francisco Manuel. E nem nos
falta um grande ator, que é João Caetano, dos maiores que tivemos, até hoje. Possuímos
um teatro oficial como incitamento à cultura da massa popular. E outros melhoramentos
vão chegando, sendo, aqui, logo, introduzidos, antes mesmo de serem conhecidos ou
acreditados em alguns países europeus. É o Grande Paralítico que se ergue, com surpresa
de todos, e que se põe a caminhar.
O orçamento geral equilibra-se. A receita vai nesta consoladora progressão:
1847-1848 24.732:000$000
1848-1849 26.156:000$000
1849-1850 28.000:000$000
1850-1851 31.532:000$000
1851-1852 35.809:000$000
1852-1853 36.394:000$000
Isso se obtém sem a criação de impostos novos, por um gostoso tempo em que ainda não
se conhece a matemática fictícia dos empreiteiros de finanças.
A nossa vida é boa, fácil, calma. É verdade que, em certa altura, o progresso que
fruímos como que emperra, um pouco. Quem lê, porém, a fala imperial do trono de 1854
compreenderá, imediatamente, as razões capitais do inesperado emperramento. São os
sucessos da Europa, da velha e turbulenta Europa, que aqui nos chegam perturbando o
caminho de paz que então trilhamos.
Contudo, temos bom nome em toda parte. E, sobretudo, crédito. Comentário de um homem que
nos visitou por essa época (Charles Reybeaud) e que, sobre o Brasil, escreveu impressões
que, por certo, ainda hão de ficar por muito tempo: "Adquiriu, o país, no mundo das
finanças, um crédito do qual dizer-se pode que é de primeira ordem! Seus títulos vivem
em alta, etc."
E logo depois:
"Cumprir os compromissos contraídos é dever, mas não é tudo. É necessário que o
Estado saiba bem empregar sua fortuna e, no momento de consultar suas necessidades, deve
preocupar-se melhor com as de maior utilidade. Nesses pontos de vista o orçamento do
Brasil é combinado com uma sagacidade que faz honra ao governo que o prepara e às
Câmaras que o discutem e o votam".
Temos, entretanto, apenas vinte e poucos anos de uma vida autônoma! Não damos, como se
vê, má conta do que somos.
E saímos de uma escola política onde os professores não foram lá de grande fama...
Sempre é bom recordar o que do último governo que precedeu à nossa independência
(governo do senhor dom João) escreve o grande Oliveira Lima: " Mercê de uma
crítica sentimental, mais do que de um são discernimento exercido como é o critério a
distância dos acontecimentos históricos analisados e, no geral, sem exame judicioso dos
fatos, e menos ainda dos documentos, tem-se ultimamente criado uma certa lenda, de que foi
impecável a administração brasileira no tempo de dom João VI. Descrevem-na muitos,
até, como totalmente diferente da que precedeu (!) e progressiva, e moralizadora, ao
ponto de servir de modelo às administrações subseqüentes. A verdade está em que -
conforme temos ido verificando - o Brasil lucrou extraordinariamente com a traslação da
Corte, porque adquiriu o que lhe faltava no regime colonial - desafogo para a sua
população, no domínio econômico e político, e consideração por parte dos poderes
públicos, de que não andasse excluída a deferência. O governo, porém, segundo já
ficou igualmente notado, ao ser contada a ação trêfega de Linhares, não se limpara
da mancha original..."
No primeiro volume de sua obra já havia ele escrito essas palavras profundas, numa
síntese admirável do governo de El-Rei:
"A época de dom João VI estava destinada a ser na história brasileira, pelo que
diz respeito à administração, uma era de muita corrupção e peculato, e, quanto aos
costumes privados, uma era de muita depravação e frouxidão."
Chega o navio ao Rio de Janeiro, mas não atraca. Recebe junto a Vilegaignon a visita da
Saúde e da Alfândega. Já o cercaram inúmeras embarcações pequenas. São chalanas,
catraias, escaleres, canoas, botes e pontões - gente de estiva, mercadores de fruta e de
animais, moços de frete, todos a gritar para bordo, enquanto os viajantes, debruçados
por sobre os paus do tombadilho, gozam a barafunda pitoresca e imprevista de um colorido
sem igual.
Mas, já tomamos o escaler que nos conduzirá com brevidade à terra.
- Mineiros ou Pharoux? - indaga o condutor da embarcação.
- Mineiros.
(LUIZ EDMUNDO. Recordações do Rio antigo) |
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