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Janeiro 2001
Ano III - nº 29

EM QUE SE DECLARA O MODO DA GRANJEARIA DOS TUPINAMBÁS

Quando os tupinambás vão às suas roças, não trabalham senão das sete da manhã até ao meio-dia, e os muitos diligentes até horas de véspera; e não comem neste tempo senão depois destas horas, que se vêm para suas casas; os machos costumam a roçar os matos. E os queimam e alimpam a terra deles; e as fêmeas plantam o mantimento e o alimpam; os machos vão buscar a lenha com que se aquenta e se servem, porque não dormem sem fogo, ao longo das redes, que é a sua cama; as fêmeas vão buscar a água à fonte e fazem de comer; e os machos costumam ir lavar as redes aos rios, quando estão sujas.

Não fazem os tupinambás entre si outras obras-primas que balaios de folhas de palma, e outras vasilhas da mesma folha a seu modo, e do seu uso; fazem arco e flechas, e alguns empalhados e lavrados de preto, feitio de muito artifício; fazem cestos de varas a que chamam samburá, e outras vasilhas em lavores, como as de rota da Índia; fazem carapuças e capas de penas de pássaros, e outras obras de pena de seu uso, e sabem dar tinta de vermelho e amarelo às penas brancas; e também contrafazem as penas dos papagaios com sangue de rãs, arrancando-lhes as verdes, e fazem-lhes nascer outras, amarelas; fazem mais estes índios, os que são principais, redes lavradas de lavores de esteiras e de outros laços e umas cordas tecidas, a que chamam muçuranas, de algodão, que tem o feitio dos cabos de cabresto que vem de Fez.

Quando este gentio quer tomar muito peixe nos rios de água doce e nos esteiros de água salgada, os atravessam com uma tapagem de varas, e batem o peixe de cima para baixo; onde lhe lançam muita soma de umas certas ervas pisadas a que chamam timbó, com que se embebeda o peixe de maneira que se vem acima da água como morto; onde tomam às mãos muita soma dele.

As mulheres deste gentio não cozem, nem lavam, somente fiam algodão de que não fazem teias, como puderam, porque não sabem tecer; fazem deste fiado as redes em que dormem, mas não são lavradas e umas fitas com passantes e algumas mais largas, com que enastram os cabelos. As mulheres já de idade têm cuidado de fazerem a farinha de que se mantém, e de trazerem a mandioca das roças às costas para casa; e as que são muito velhas têm cuidado de fazerem vasilhas de barro à mão como são os potes em que fazem os vinhos, e fazem alguns tamanhos que levam tanto como uma pipa, em os quais e em outros, menores, fervem os vinhos que bebem; fazem mais estas velhas, panelas, púcaros e alguidares a seu uso, em que cozem a farinha, e outro em que deitam e em que comem, lavrados de tintas de cores; a qual a louça cozem numa cova que fazem no chão, e põem-lhe a lenha por cima; e têm e crêem estas índias que se cozer esta louça outra pessoa, que não seja a que a fez, que há de arrebentar no fogo; as quais velhas ajudam também a fazer a farinha que se faz no seu lanço. As fêmeas deste gentios são muito afeiçoadas a criar cachorros para os maridos levarem à caça, e quando elas vão fora levam-nos às costas; as quais também folgam de criar galinhas e outros pássaros em suas casas. As quais, quando com seu costume, alimpam-se com um bordão que tem sempre junto de si, que levam na mão quando vão fora de casa; e não se pejam de se alimparem diante de gente, nem de as verem comer piolho, o que fazem quando se catam nas cabeças umas às outras; e como os encontra a que os busca, os dá à que os trazia na cabeça, que logo os trinca entre os dentes, o que não fazem para comê-los, mas em vingança de as morderem.


(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587)

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