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Janeiro 2001
Ano III - nº 29

A PESCA DO XARÉU

A definição está no dicionário:

"Xaréu - Peixe abundante, mas ordinário do Brasil". Como se vê, mais uma vez, falha a linguagem dos dicionários. Se o leitor é incauto, nunca mais o nome do xaréu lhe soará bem aos ouvidos. E se alguma vez lhe servirem à mesa a carne escura do peixe, ele repelirá porque já leu na palavra autorizada dos gramáticos que se trata de um "peixe abundante, mas ordinário do Brasil". E recusará para exigir um robalo, uma cavala e, talvez, um salmão do Canadá.

Ignora porém que o xaréu encerra um mundo de sabor, de beleza e de poesia, nas cinco letras do seu nome. De fato, o homem do dicionário deve ter colhido a informação em alguma mesa granfina, mas se soubesse o que se pode fazer com a carne escura, se soubesse o que é uma moqueca ou uma "peixada de coco" de xaréu, ele decerto que definiria melhor. Outro sabor teria a sua definição e aquele "ordinário" seria logo enxotado do dicionário. Mas que sabemos nós da santa ignorância desses pobres homens que têm a ingrata missão de tudo explicar, de tudo definir, de tornar o mundo uma tábua seca, árida, para desbravar a santa ignorância alheia?

A pesca do xaréu é um episódio de trabalho, de canseiras, mas, como todo episódio árduo da vida dos negros baianos é também de beleza, de poesia, de música e de cantos. De outubro a abril, os xaréus vão para o norte em grandes cardumes para a desova, procurando climas mais quentes para os pescadores das praias dos subúrbios de Salvador lançam-se à sua tarefa. Em Chega Negro, em Carimbamba e no Saraiva cumprem os mesmos trabalhos dos seus antepassados, trabalhos que vêm dos tempos da colônia, do império, da república até nossos dias. Frederico Edelweiss nos relembra que o nome de Chega Negro vem dos gritos dos senhores chamando os negros escravos para puxarem as redes do xaréu. E esta tradição não morre, mesmo porque dela depende a subsistência de centenas de famílias, todos os anos se repete, com os mesmos cerimoniais, com os mesmos rituais, podemos dizer, com que se procedia nos tempos passados.

Não se pense porém que tudo seja fácil, uma exibição apenas. É trabalho árduo, trabalho pesado que representa a firme disposição do homem do mar. Comecemos pela rede. Não é uma redezinha qualquer, uma tarrafazinha que se joga, um só homem de cima da jangada para colher alguns peixes. Nada disso. O pescador não pode arcar com a despesa de uma rede de xaréu. A turma de uma puxada compõe-se de nada menos de sessenta e três homens: um chefe, um mestre da terra, um mestre do mar, vinte atadores, vinte homens da terra [sic]. Todos assalariados, ganhando certo por dia, quer a pesca seja compensadora, quer haja greve dos xaréus suicidas. É a rede feita na colônia pelos próprios pescadores, eles, suas mulheres, seus filhos que se empreitam para tecer a grande malha. Custa hoje uma pequena fortuna, indo a mais de cem mil cruzeiros, pois se vai um mundo de matérias primas para a sua execução; tonelada e meia de fio grosso e forte, mil metros de cordas, meia tonelada de chumbo que ainda será derretido e trabalhado. Com este material e com cinco meses de trabalho, paga por braça, a rede está pronta. Uma pequena fortuna - pequena neste mundo de inflação - foi desembolsada para se conquistar nas suas malhas o peixe "abundante, mas ordinário do Brasil"...

Os homens estão prontos para a pescaria do Chega Negro. O chefe já tomou providências, já determinou ordens aos mestres da terra e do mar, que por sua vez transmitiram aos seus homens. Os atadores, que são a turma de prontidão, estão atentos a qualquer estrago que sofra a rede, com a intromissão de algum cação, por exemplo. No horizonte da praia, estao abandonadas as casas de palha, os tão caluniados mocambos, porque, na alvura da areia, aguardam as mulheres e os filhos dos pescadores os resultados do seu trabalho. Participam desta autêntica festa do trabalho, onde se há suor, não há lágrimas nem sangue, porque há canto, o canto forte e coral dos negros baianos.

A grande jangada que conduzirá a rede vai ser lançada n’água e todo cuidado é pouco. Os homens do mar são responsáveis pela sua colocação, terão que a dispor, com engenho e arte de quatro séculos de ciência e sabedoria nos setores da pesca. Porque toneladas pesa a grande rede, o dono está na praia inquieto com os danos que possa a mesma sofrer, com o sucesso ou insucesso da pescaria. Negros fortes, músculos retesos, sobressaindo em sua pele lustrosa. A indumentária é apenas um calção. Um chapéu de abas largas para diminuir o castigar do sol quente de mais tarde.

Antes de tudo, porém, antes de a rede ser levada para o mar, em torno do grande círculo, mar a dentro as jangadas levam enormes blocos de cimento. Feitos pelos próprios pescadores, ligados a grandes filames de aço e dispostos em torno do local onde a rede ficará. Depois os filames são presos a uma grande e imensa corda, que, por sua vez, será ligada à rede. Somente assim esta poderia fixar-se, poderia resistir aos embates do mar forte, não sofrer os estragos das ondas. É um trabalho demorado, um trabalho requerendo paciência, perseverança, extraordinária habilidade. Desde que está tudo pronto, desde que o mestre do mar assegura que a sua turma realizou sua tarefa, pela qual ele é responsável, então é esperar que os cardumes dêem o seu passeio procriador, caiam na rede, deliciem a mesa dos pobres e também dos ricos que tenham gosto para sentir as delícias de seu lombo farto. Mas, ninguém se iluda, seja paciente com o pescador. Tudo depende da sorte, os homens estão atentos, tanto os da terra como os do mar, tudo depende do peixe. A pesca pode ser imediatamente depois da rede assentada, mas pode durar horas, pode durar um dia e até dois no máximo. Porque se depois de dois dias o xaréu não aparecer, tem que se puxar a rede que sofreria assim com os efeitos da água. Todos estão atentos e vamos esperar. Compete ao mestre do mar efetuar as sondagens. Ele como que tem o sexto sentido. Logo que percebe que o xaréu está entrando, mergulha profundamente e faz a contagem do peixe. Quantos são? Dez, vinte, cinqüenta, cem? serão mil? Não tenhamos dúvida que em cada mergulho, o chefe do mar perceberá. Emerge da primeira vez, toma do seu apito enfeitado com as cores de Iemanjá, sopra fortemente e levanta o seu chapéu no ar. O chefe da terra está atento. Ao leigo poderá parecer um cumprimento. Nada disso, o mestre da terra sabe muito bem que, com esse gesto, o mestre do mar avisa que no seu primeiro mergulho, "contou" quinhentos peixes. Mergulha novamente, novamente, e de agora em diante, cada vez que levantar o chapéu são mais cem peixes. Acabada a contagem, há o apito característico para que se inicie a puxada da rede. Então o mestre da terra apita também para reunir o seu pessoal, começar o serviço. Já foram cortadas as cordas que prendiam a rede aos filames. Tudo está pronto, todos estão a postos. A máxima atenção, a precaução maior dominam os homens do mar, prontos para qualquer imprevisto. E a corda ao redor da rede, que forma quase um círculo gigantesco, começa a ser puxada de seu lado esquerdo. Os vinte homens da terra iniciam a sua tarefa pesada. Força, poder, vitalidade do corpo humano aí vão apresentar-se com toda pujança. Mas é preciso salientar que não há preocupação pelo peso da tarefa, há alegria do trabalho representado na contribuição mais bela desse conjunto de homens fortes e saudáveis. E eles cantam, porque o canto ajuda o homem. Não é um canto soturno, um canto de gente desgraçada, como as cantigas dos barqueiros dos rios russos. É um canto alegre de uma grave alegria, canto dos negros baianos, porque há sempre música e canto, tanto nas suas festas como nas suas tarefas. E iniciando a puxada da rede, batem os atabaques, quarenta pés, num ritmo rigoroso de bailado, movimentam-se e sob o canto obrigatório para começar:

Salve o Senhor
E’
Salva, Salva
Salve o Senhor
E’
Salvador

É a voz do solista, do tirador de toada, voz clara e forte que se distingüe do rumor das ondas, que ouvimos na praia, nesta cantiga de uma música muito bela, ritmada, como se fosse parte física e integrantes dos músculos destes vinte homens, como se fosse o sangue que lhes dá a força, como se fosse o elemento de ligação destes vinte organismos fazendo deles todos um só, nos seus belos movimentos. Acaba de se levantar a última nota da toada e o coro majestoso responde:

Salve o Senhor
E’
Salva, Salva

E sempre reptido pelo coro, o solista canta:

Salve o Senhor
E’
Salve o mar
Salve o mar
Salve o Senhor
E"
Salve as águas
Salve o Senhor
Salve Ogun de Lé

Os primeiros metros da corda da rede vão caindo na praia. Nas suas jangadas, os homens do mar fiscalizam, evitam qualquer imprevisto. O bailado da puxada prossegue na praia, sob o bater dos atabaques, sob o canto de vinte homens, trazendo para seu trabalho mais do que as cantigas porventura aliviadoras da tarefa, mas sobretudo os cantos de seus deuses e de seu passado:

Quando venho da Aruanda
Eu venho só

Coro:

Só só
Eu venho só

Quando venho de Aruanda
Eu venho só
Eu deixei pai
Eu lá deixei vó

Coro:

Só só
Eu venho só

Quando venho de Aruanda
Eu venho só
Eu lá deixei tia
Eu lá deixei vó

E na canção vai todo o ritmo de ida e de volta da puxada da rede. Há uma atmosfera de nostalgia criada por esta canção tão bela na sua música, expressando na pobreza de suas palavras a grandeza da solidão.

E os pescadores prestam homenagens à rainha das águas, não somente nas suas festas, na grande "festa do presente", também no seu trabalho diário. E a voz do solista levanta-se no meio dos homens da terra:

Viva a Rainha do Mar
Inaê
Princesa de Aikoá
Inaê ô

E o coro, quebrando como as ondas na praia:

Princesa do mar...
Sinhá...
Inaê...

E talvez na perspectiva de agradar à Janaína, para que seja farta a pesca, vem a sugestão de um belo presente. Se houver sucesso na pesca que lembrança darão à Iemanjá, que ganhará ela de seus súditos tão fiéis? É o que pergunta o "tirador", numa das mais belas toadas dos pescadores baianos:

Que é que me dão
Para levar
À dona Janaína
No fundo do mar?

O coro responde:

Um buquê de flor
Para levar
À dona Janaína
No fundo do mar

E repete-se a pergunta do solista, para novamente responder o coro:

Um brinco de ouro
Para levar
À dona Janaína
No fundo do mar

E se a pesca inicia-se pela madrugada, também o canto é em homenagem de Iemanjá, louvada em vários nomes:

Ô lembá
Lembá de lé
Ô lembá de canaburá
Ê vem o dia, Iaiá

Ou também a toada alegre, mostrando o sentimento de solidariedade desta grande gente:

Quem me dá o que comer
Também come
Quem me dá o que beber
Também bebe

E mais esta velha cantiga dos tempos dos escravos, talvez a vontade de libertação expressa na primeira estrofe, com força e coragem, já um pouco menos na segunda:

Vou me embora
Vila
Porque já disse que vou
Vila

Coro:

Ê é vila
Ê é vila

Se não for nessa semana
Vila
Vou na outra que passou...

E assim vai vindo a rede, horas inteiras, sob o sol castigando os dorsos nus. Vez ou outra, alguém quebra o ritmo do "balé", então vem a manobra protetora, o pescador deixa por segundo a corda, dá uma graciosa volta em torno de si mesmo e retoma seu lugar, dentro do movimento comum. Sucedem-se as canções e agora vem a saudável insolência, a insolência das noites alegres das farras ao luar, a branquinha campeando:

Eu nasci de sete meses
Fui criado sem mamar
Mamei leite de cem vacas
Na porteira do curral

Açúcar de dez engenhos
Foi pouco para me criar
Santo Antônio estava deitado
Na porteira do curral

Alevante Santo Antônio
Deixa meu gado passar
Santo Antônio quer beber leite
Por que não vai vaquejar?

Já a rede está perto. Já os homens do mar deixam as suas jangadas, pisam o chão firme, caem na água, tendo a cabeça e os ombros de fora, auxiliam agora os da terra. O "cope" que é uma espécie de rede interna, está repleto de xaréus grandes e pequenos. O mundo de fios, chumbos e cordas é cuidadosamente trazido e, por fim, na areia, revelado o resultado da pesca. Podem ser milhares de peixes, centenas de belos xaréus, conforme revelou antecipadamente o mestre do mar. Mas também, pode-se puxar uma rede que se sabe de antemão nada trazer. Um dia, dois, perdidos. O dono da rede terá seu prejuízo, prejuízo total. Os que assistiram a puxada, que maravilhados assistiram o belo espetáculo não estarão a par de suas aperturas. Mas se a pesca foi farta, tudo vai bem. A rede é cuidadosamente refeita pelos atadores, que procuram os menores estragos, abrem-na sobre a areia, enquanto já está pronta para ser lançada no dia seguinte.

Estão cansados os pescadores: o chefe, os mestres, homens do mar, homens da terra, os atadores. Tranquilos, porém, comentam o sucesso ou o insucesso da pesca, recebem a refeição trazida pelas suas mulheres, pelos seus filhos, semi-nus, molhados, integrados numa profissão que futuramente será a deles. Porque primitiva é a sua vida, a vida de quatrocentos anos dos pescadores dos mares de Pituba, de Armação, de Itapoã. Vida dos mocambos, da refeição simples, vida primária, sem escolas, sem conhecer o conforto material, tendo apenas a riqueza de uma paisagem que Deus lhe dá de graça. Um Deus que nem sempre é adorado nas igrejas, mas também é invocado nos seus cantos:

É Miranda, é Miranda
Senhor Ogun
Ele é rei de Miranda

É Miranda, é Miranda
É Miranda, é Miranda
Senhor Oxossi
Senhor Oxossi
Ele é rei de Miranda

E mais uma vez, o mistério das colinas da Bahia desce às praias. E revela-se na própria vida do seu povo, no seu próprio trabalho, nas suas próprias canseiras, revestidas de tanta música pura, de tão nativa e forte poesia.


(TAVARES, Odorico. Bahia; imagens da terra e do povo)

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