Janeiro
2001
Ano III - nº 29 |
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Melo Morais Filho esclarece que a
"véspera de Reis na Bahia é um corolário da noite de Natal". Daí o interesse
especial que se encontra, ainda, na Bahia, com a véspera de Reis, quando em todas as
partes do Brasil já é um dia comum. Se o visitante estiver na capital baiana a cinco de
janeiro, vá assistir as exibições dos ternos na Lapinha, que é o seu ponto de
concentração há muitos anos.
Que são os ternos? O carioca ou o pernambucano vendo-os, desprevenidos, poderiam julgar
que fossem uma espécie de clube ou de bloco carnavalesco. Ou uma batucada. Nada disso; os
ternos vêm, de há muito, para a glorificação do Deus Menino, como um complemento das
grandes festas natalinas, com os autos pastoris, que hoje desapareceram. Já não há o
mesmo esplendor dos tempos passados, mas os ternos sobrevivem e todos os anos vão se
exibir na Lapinha, na véspera de Reis, no sábado do Bonfim, ou na Penha.
Manuel Querino nos descreve os ternos de seu tempo, em que "as pastoras se
apresentavam com o tradicional vestido de estopinha branca, chapéu de palha fabricado com
palmito de ouricuri enfeitado de fitas, tendo a copa coberta de algodão, com enfeites de
velbutina preta, cajado com fitas, cesta no braço, flores e pequeno pandeiro de folha de
flandres". E adianta: " os pastores trajavam roupa branca, chapéu de ouricuri
enfeitado, ostentando castanholas de jacarandá, com fitas de cores. Compunha-se a
charanga, geralmente, de violão, flauta e, algumas vezes, de viola. Assim dispostos,
dirigia-se o terno à igreja da Lapinha, no distrito de Santo Antônio, em meio de
cantatas alegres, que ouviam durante o trajeto. Aí chegando, dirigiam-se à sacristia do
templo onde estava armado o presépio, ostentando em tamanho natural os reis magos do
Oriente. Faziam a costumada adoração e depois desfilavam com entusiasmo aos lugares
destinados."
Que lugares destinados eram esses?
Decerto que as residências familiares previamente avisadas e dispostas a acolher os
componentes dos ternos, com fartas mesas, onde muito se comia e se bebia. Jamais, porém,
a casa, aparentemente, era encontrada em caráter festivo. Pelo contrário, fechada, como
se nada fosse acontecer. Então o terno parava à frente e entoava versos como estes:
Vinde abrir a porta
Se quereis ouvir cantar
Acordai, se estás dormindo
Que vos viemos festejar
Ou estes outros, recolhidos por Querino e Antônio Viana:
Ó de casa, nobre gente!
Despertai e ouvireis
Que da parte do Oriente
Sao chegados os três Reis
E, aberta a porta, a festança começava entre loas e canções, nas quais o Menino Deus,
os Santos Reis, o dono e a dona da casa eram constantemente louvados. E o desfile dos
ternos, pela Lapinha e à procura dos seus anfitriões, enchia a noite de Reis, da Bahia,
com uma poesia e um entusiasmo que os cronistas da época nos transmitem.
Se, hoje, porém, a tradição sofreu com o ferrete do tempo e do progresso, ainda há
muito que ver à véspera de Reis na Bahia. Na sua noite quente e em que o povoado bairro
de Santo Antônio, com seu largo da Lapinha festejam com tanto calor e entusiasmo. Porque
se ternos desapareceram, outros surgiram para manter a tradição e vêm de vários
bairros para o espetáculo da Lapinha, com seus estandartes, com suas pastoras, seus
cordões, suas orquestras de corda. E depois da noite de 5 de janeiro, vão, no sábado
doBonfim, alegrar a festa do Grande Padroeiro, constituindo uma das atrações para a
multidão que ali se apinha. Pena que não mantenham o rigor da tradição, com suas
danças graciosas características; pena que suas músicas já nem sempre sejam as mesmas,
pois não é raro se verem os ternos se exibindo ao som de rumbas e boleros, ou de sambas
e blues. Músicas de carnaval ou estrangeiras tomando o lugar das velhas e encantadoras
canções dos tempos de Querino ou de Antônio Viana. Porque são ainda os ternos uma bela
tradição das fabulosas festas populares da Bahia. Porém, quando alguém lamenta a
contrafação dos ternos, há sempre um baiano de quatro costados que acentua:
- Mas o Arigofe não!
E quando se encontra, por exemplo, Eulálio Sodré de Matos, conferente de carga e
descarga e um dos fundadores, em 1910, do Terno do Arigofe, ele estará disposto a lhe
provar que o seu terno se mantém puro como no dia da fundação.
- O Arigofe não é nem quer ser batucada nem sociedade de carnaval. Não se faça
confusão.
Por que o nome Arigofe? Responde-nos que não tem nenhum sentido especial. Nos seus tempos
de moço, antes da primeira guerra, costumava-se chamar de arigofe a um malandro.
- Ora, isto é um arigofe, - dizia-se de um sujeito simpático, boêmio, sem maiores
conseqüências.
Em 1910, ele reuniu-se com mais uns companheiros e resolveram organizar o terno. Um boneco
de celulóide sombolizava o arigofe. Daí o nome do terno. A princípio, após a
exibição, doava-se o boneco a uma das pessoas que o tratavam bem. Depois foi mandado
confeccionar, custou caro e prosseguiu o mesmo todos os anos.
O Terno do Arigofe, constituído somente de homens, caracteriza-se pela sua indumentária,
pela sua orquestra, seu distintivo, sua bandeira, suas canções rigorosamente as mesmas
de quarenta e um anos passados. Saem os componentes vestidos de cartola preta, roupa
branca com gola escura, gravata de rigor. Sua orquestra, composta de trinta figuras,
inclui violões, violinos, banjo, cavaquinho, flauta, pandeiro, castanhola, chocalho e
ganzá e obedece à direção de Eulálio, que é um exímio compositor. Diz-nos ele que
ainda tem as suas canções dos bons tempos. O canto é dirigido por Elias de Oliveira,
antigo linotipita e um dos entusiastas do seu terno.
A vida do Arigofe nem sempre foi de cantos e alegrias. Muitas vezes de tristezas e de
épocas melancólicas. Atravessando um período de esplendor, de sua fundação até 1942,
neste ano houve grande cisão e resolveu-se então fechar a sociedade. Todo o patrimônio
foi entregue à coleção do Instituto Histórico e Geográfico! O estandarte, que,
naquela época, custou sete contos, as quarenta medalhas conquistadas todos os anos em que
se exibiu; o boneco Arigofe, com a cara espantada e preta, sua indumentária, sua cartola.
Que a Casa da Bahia guardasse o precioso material que tantas glórias conquistou nas
vésperas de Reis, nas madrugadas do Bonfim, na Penha e no Rio Vermelho. E lá ficou até
que, em 1949, o governador Mangabeira, preocupado em restaurar as tradições baianas, no
ano do quarto centenário da Bahia, mandou chamar o conferente Eulálio e desejou saber do
Arigofe. Estava disposto a conceder todas as facilidades, contanto que o velho terno
retornasse às ruas, revivesse suas grandes noites. Que não somente naquele ano, mas daí
em diante o querido terno retomasse o comando das festas de Reis. E, refeita a diretoria,
Eulálio assumiu a batuta, conclamou os velhos companheiros e o terno saiu, depois de 26
[sic] anos de ausência. O Instituto Histórico e Geográfico devolveu todo o material e
foi um triunfo a volta do Arigofe. O boneco veio conquistar mais medalhas, a orquestra
tocou as canções dos velhos tempos e uma nota de alegria, de bom gosto popular, de quase
meio século soou alto, no momento em que as rumbas e os boleros tomam conta dos ternos
baianos, como dos pastoris do Nordeste. Nada de sambas e marchas. E a orquestra toca e
todos cantam o cangerê:
Eu ante-ontem
Visitei um candomblé
Para saber o que me fizeram
O pai de santo
Preparou uma grande mesa
Ué!...
Você está ruim
Dona Carlota
Descobriu minha "macaca"
Foi um bozó
Que fez uma mulata
Por não gostar
Do nosso preto Arigofe
Ué!...
Quase que me mata
E a confiança do terno é sem limites, ao cantar sua marcha de chegada ao Bonfim:
O Arigofe
É o rei das conquistas
...
E assim vai vencendo
Os corações das belas
Quer viúvas
Quer donzelas
E volta o Arigofe a se exibir todos os anos, embora sua vida como associação não esteja
ainda regularizada. Diz-nos seu diretor geral:
- Acabadas as festas, recolhemos o precioso material à Casa da Bahia. Precisamos de
dinheiro para termos a nossa sede, a nossa vida em ordem, fazermos o nosso novo
estandarte, bordado em ouro como o atual. Somente assim é que o Arigofe poderá garantir
o seu retorno definitvo. Que o governo e os baianos, amantes de suas legítimas
tradições, das legítimas tradições do povo, tragam suas preciosas colaborações para
que o terno do Arigofe se mantenha firme através dos anos. Domingos Diomedes dos Santos,
Almiro Silva, Manuel Barreto, Elias de Oliveira, que comigo constituem a atual direção,
e todos os demais componentes estão a postos para que o Arigofe seja sempre um terno e
não executor de marchas e sambas de carnaval. Terno é uma coisa e batucada outra, muito
diferente. Pena é que nem todos pensam assim.
(TAVARES, Odorico. Bahia: imagens da terra e do povo) |
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