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Janeiro 2001
Ano III - nº 29

O TESTAMENTO DO BOI

A farsa da morte e da ressurreição do boi, mais conhecida como bumba-meu-boi, já se realizou na capital, mas agora só é encontrável em alguns pontos do Recôncavo e do litoral da Bahia. Em 1937, na segunda-feira do Bonfim, na Ribeira, voltou a aparecer o terno do boi, trazendo no estandarte vermelho a inscrição Viva o boi Janeiro! Do auto ficou, na memória popular, na Bahia, a quadra

O meu boi morreu
Que será da vaca?
Cachaça com limão
- Ô maninha!
Tira urucubaca

O número de figurantes é reduzido e a representação se reveste de extrema simplicidade - apenas a morte, a lamentação e o ressurgimento do boi - a que não falta uma peça em versos, o testamento, a divisão do animal por presentes e ausentes.

O boi Estrela, do Mar Grande, pode servir de exemplo.

Compõem o grupo, além do boi, o Vaqueiro, que veste um saiote de folhas secas e fala de modo extravagante, como um negro africano com poucos dias na terra; o Mestre, que dirige o canto; a porta-estandarte e as pastoras, cinco ou seis mulheres que formam o coro. Outras vezes há mais o Dono do Boi.

O rancho pára à porta das casas, cantando:

Ô dono da casa
Abri seu terreiro
Pra meu boi brincá
- Ôlô! ôlô
Com seu Vaqueiro!

Este é o sinal para o início de uma série de canções, durante as quais o boi e o Vaqueiro dançam no círculo formado pelos comparsas. A certa altura da dança, animado pelos gritos de Eh, boi! Eh, boi!, o boi Estrela atira sucessivas marradas no Vaqueiro, que, caindo, volteando, correndo, sempre consegue livrar-se, até atingi-lo com o ferrão. O boi Estrela morre. O canto muda de repente:

Valei-me, Jesus!
- Maravia!
Que de mim será?
- Maravia!
Mataro meu boi
- Maravia!
Não quere me pagá!
- Maravia!

O Mestre faz o solo, enquanto as pastoras respondem, depois de cada verso - Maravia!

O meu boi morreu
Quem foi que matô?
- Foi a carrocinha
Do governadô

Quem matou meu boi
Passô por aqui
Vô mandá ver outro
Lá no Piauí

O meu boi morreu
Que de mim será?
Manda ver o doutô
Par’alenvantá

O Vaqueiro não cessa de dançar, fazendo graças, em torno do boi Estrela. O animal está imóvel. O Mestre inicia o testamento do boi:

Mandêr um bilhete
A seu capitão
Cobrando o dinheiro
Do peso do colchão

O Mestre continua a repartição do boi, sempre do mesmo modo, mandando bilhetes. Para seu Vicente, a chã-de-dentro; para seu coroné, o peso do filé; para seu José, o peso do pé; para os homens da roça, a tripa mais grossa; para "aquelas" meninas, a tripa mais fina; para dona Dodó, o peso do mocotó... Até que nada reste do boi.

O Vaqueiro, sempre a fazer graças, pondo o prefixo des em quase todas as palavras - o desboi, a destrasêra, a descoisa, etc. - descobre, afinal, que o boi se mexe. Espeta-lhe o focinho, puxa-lhe o rabo. O boi está vivo. O Mestre tira do canto, folgazão:

Levanta, meu boi
Pra comê capim...

O boi levanta e dança, para a alegria geral, perseguindo o Vaqueiro.

A farsa tem esta mesma simplicidade em outros pontos do estado. Em Ilhéus faz parte do rancho do boi Treme-Terra uma figura estranha, Turubibita, que a meninada apelida de Cebola Branca,

Minha Turubibita
Veio do Chafariz
Caiu no chão
Quebrô o nariz...

- uma máscara cheia de palha ou pano equilibrada no alto de paus em cruz, recobertos por um camisolão de urucubaca. Esta figura é da mesma espécie do babau do bumba-meu-boi pernambucano e da bernunça do boi-de-mamão catarinense. Ao ouvir os gritos de Cebola Branca!, Turubibita arremete contra a garotada, provocando correrias.

O testamento do boi Maravia, Fulô de Natá, de Santo Amaro, reparte o animal do seguinte modo:

O colchão
É de meu patrão

O filé
É de seu coroné

A carne da rabada
É da rapaziada

A tripa lavada
É da muié casada

A tripa escorrida
É da muié parida

A tripa gaiteira
É das moça sorteira

O peso do bofe
É do véio Teofe

A fuçura
É do véio Ventura

Os dois mocotó
Eu não vendo nem dô:
- É dois de vovó
e dois de vovô

Há, em Belmonte, três ranchos de boi - o boi Duro, o boi Mole e o boi Espácio (isto é, de chifres muito abertos). O testamento do boi Duro, embora semelhante aos outros, tem mais uma introdução e um estribilho:

Pedi um vintém
Iaiá me deu dois
Prá comprá de fita
Prá laçá meu boi

Ô iaiá, meu te dá
Levanta, Janeiro, vamo vadiá


A tripa fina
É das minina

Ô iaiá, meu te dá

A tripa grossa
É da muié da roça

Ô iaiá, meu te dá

A tripa cagaiteira
É da muié sorteira

Ô iaiá, meu te dá

A rabada
É da rapaziada

Ô iaiá, meu te dá

O boi pertence, na Bahia, ao ciclo das janeiras, tendo lugar na véspera dos Reis a primeira apresentação de todos os ranchos.


(CARNEIRO, Edison. Folguedos tradicionais)

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