Janeiro
2001
Ano III - nº 29 |
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FOLGUEDOS DO
CICLO DO NATAL
Os autos do boi |
Bumba-meu-boi, Boi kalemba, Boi de Reis,
Folguedo do boi, Boi-bumbá no Maranhão, Pará, Amazonas, Três Pedaços em Alagoas
(Porto da Rua, Porto de Pedras), Boi de mamão em Santa Catarina e Paraná, é um dos mais
tradicionais autos, conservados pelo povo do norte e nordeste do Brasil. Está decadente
mas continua ambientado pela assistência mais humilde, competente nos aplausos, seguindo
o grupo para contemplar o espetáculo secular. Irradiou-se das zonas açucareiras e
pastoris para o extremo norte, onde a pastorícia ausente pareceria incompreendê-lo na
primária e sugestiva movimentação temática. Em 1859 Avé-Lallemant encontrava-o em
Manaus, "enorme e leve arcabouço de um boi, com chifres verdadeiros". Baila,
seguido de fantasias indígenas, guiado por um pajé. Morre ao estrondar do batuque e vão
enterrá-lo para que volte a viver e repetir a farsa noutra parte, "morrendo cinco ou
seis vezes na mesma noite", anota o alemão.
Aparece num breve, leve, singelo e grotesco bailado, como começou o boi guaque ou boi
huaco, em Nicarágua.
A mais antiga menção encontro num mal-humorado registro do padre Miguel do Sacramento
Lopes Gama, no Carapuceiro, janeiro de 1840, no Recife: " De quantos recreios,
folganças e desenfados populares há neste nosso Pernambuco, eu não conheço um tão
tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi.
Em tal brinco não se encontra um enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um
agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o Boi; um capadócio,
enfiado pelo fundo dum panacu velho, chama-se o Cavalo-Marinho; outro, alapardado, sob
lençóis, denomina-se Burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo, e
outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama a
Caipora; há além disto um outro capadócio que se chama Pai Mateus. O sujeito do
Cavalo-Marinho é o senhor do Boi, da Burrinha, da Caipora e do Mateus.
Todo o divertimento cifra-se em o dono de toda esta súcia fazer dançar, ao som das
violas, pandeiros e de uma infernal berraria, o tal bêbado Mateus, a Burrinha, a Caipora
e o Boi, que com efeito é o animal muito ligeirinho, trêfego e bailarino. Além disso o
Boi morre sempre, sem quê nem para quê, e ressuscita por virtude de um clister, que o
pespega Mateus, coisa muito agradável e divertida para os iudiciosos espectadores.
Até aqui não passa o tal divertimento de um brinco popular e grandemente desengraçado,
mas de certos anos para cá não há bumba-meu-boi, que preste, se nele não aparece um
sujeito vestido de clérigo, e algumas vezes de roquete e estola, para servir de bobo da
função. Quem faz ordinariamente o papel de sacerdote bufo é um brejeirote despejado e
escolhido para desempenhar a tarefa até o mais nojento ridículo; e para complemento do
escárnio, esse padre ouve de confissão ao Mateus, o qual negro cativo faz cair de pernas
ao ar o seu confessor, e acaba, como é natural, dando muita chicotada no sacerdote!"
Começaria nos engenhos, entre negros, mamelucos, mestiços, na forma inicial boi
canastra, armação de vime, coberta de pano pintado, cabeçorra bovina, ampla cornadura,
unicamente destinado a dispersar e afugentar os curiosos atrapalhantes de uma função
representada ao ar livre. Era assim na Espanha e Portugal, o falso boi chifrando diante
dos cortejos mascarados e mesmo fazendo rir ao monarca. Havia touradas cômicas com esses
touros de junco, as tourinhas. É o que se observa nos velhos autos que Sílvio Romero
coligiu, como o Reisado da borboleta, do Maracujá e do Pica-Pau. É
o boi que Max Schmidt vê em Rosário, Mato Grosso, no derradeiro ano do século XVIII.
Que Alceu Maynard Araújo encontra em 1951 afastando os foliões de São Luís de
Paraitinga, São Paulo, resguardando a gravidade hirta da gigantesca Miota. Foi a forma
primária que tivemos da Península Ibérica, o boi amedrontador dos meninos inquietos. É
uma tradição também sertaneja e viva no vocabulário dos cantadores de desafio:
Esse véio Serradô
De apelido João Festino
Quando se vê agastado
E fica no seu destino
Faz mais medo a cantadô
Do que boi faz a menino
Mesmo na segunda metade do século XIX muitos outros autos concorriam na popularidade da
assistência. O cavalo-marinho, que vemos na informação de Lopes Gama, sendo o dono do
folguedo, denominava a função, e Sílvio Romero ainda diz o mais apreciado de
Pernambuco. Ora, o bumba-meu-boi, já em janeiro de 1840, aliás bem conhecido,
na catilinária dO Carapuceiro recifense, dominava o Maranhão, como registou
Celso de Magalhães. Derrotara o Cavalo-Marinho. Fora aglutinando as personagens mais
favoritas dos autos vulgares, criando assunto, determinando episódios. Como o
"rancho" da burrinha era o predileto na Bahia. Em janeiro de 1840 estava
autônomo e o Cavalo-Marinho, embora dono, não batizava o auto que era o bumba-meu-boi.
Seguiu atraindo outros elementos, ampliando a área de função, seduzindo as atenções
populares, alistando-se como uma homenagem à festa da Natividade, habeas corpus do
pagode verbal.
No Dicionário do folclore brasileiro, verbete bumba-meu-boi, está uma exposição
que julgo suficiente de como o auto se formou e veio vivendo, pela assimilação
incessante de temas vitais de outros autos mais permeáveis, incorporando damas e galantes
que bailavam nas procissões do Corpo de Deus em Portugal, fazendo surgir os vaqueiros
negros, Birico ou Fidélis, e Mateus, centros de comicidade plebéia, ficando horas em
cena, improvisando diálogos calorosos, monologando, dizendo disparates, sacudindo o riso
do auditório, inesgotáveis da verve que o povo ama e festeja. Depois, à volta de 1910,
apareceu a negra Catirina, faladeira, destabocada, respondona.
As figuras do bumba-meu-boi variam de província para província e, nas próprias regiões
da exibição, sofrem modificações, desaparecimentos, substituições, acréscimos,
novidades, experiências que duram ou não resistem ao desgaste do contato popular,
eliminando-se por insuficientes. Damas e galantes dizem loas, versos sérios, declamados
monótona e dignamente, sempre na intenção religiosa, indo e vindo numa marcha mecânica
e superior aos companheiros burlões. Mateus e Birico são sempre funcionalmente
divertidos, arremedadores, caricaturando a solenidade das damas e galantes, espavorindo os
monstros que aparecem, enfrentando a longa série humana e zoológica realizadora do
programa do bumba-meu-boi. Nos velhos alagoanos havia Rei e Rainha.
Auto do Natal (exceto no Pará onde o boi-bumbá é pelo São João) preenche para o povo
as horas longas de espera da Missa do Galo, à meia-noite. Dispunha do tempo, não
apreciável para o povo. Os papéis eram estudados, ouvidos ou explicados, mas a dupla
negra, ou pintada de negro, era surpreendente de vivacidade, prontidão nas respostas à
participação anônima do auditório, na graça picante e clara da vulgaridade legítima.
Todos ou quase todos os acontecimentos reapareciam nos diálogos dos dois vaqueiros,
Pasquino e Marfório, nos limites da tolerância policial, fazendo rir sem rancor e
mágoa.
Há bois dançantes por todas as regiões pastoris do mundo, África, Ásia, América
Austral, Central e do Norte, pela Europa inteira. O bumba-meu-boi, na espécie,
auto-formação, intenção, força defensiva e valorizadora popular, anti-demagógica
pela ausência do plano político imediato e útil a uma facção, existe sozinho;
lirismo, sinceridade, arrojo, no mais pobre, simples e natural dos autos brasileiros. No
Maranhão o folguedo tem uma indumentária de alto gosto. É o único made in Brazil
em quase todas as suas peças e no próprio dinamismo lúdico. Só a figura do boi é que
viajou de Portugal, mas no Brasil pastoril desdobrou-se, infinitamente longe da limitada
habilidade de espalhar os curiosos às cornadas, como começara sua existência no
folclore nacional, meados do século XVIII, segundo deduzo. Inútil, para mim, expor o boi
como expressão religiosa, mítica, cultos da força fecundadora, acordando os colegas
egípcios, o Boef Gras francês, o boi processional dos va-nianecas do sul de
Angola, o boi bento de São Marcos, o boi estudado por Gubernatis. Outros desígnios e
destinos diversos na intenção popular, modeladora de suas preferências no plano da
função divertida.
Quando reaparece o Cavalo-Marinho, espécie de centauro, cavalo da cintura para baixo,
tratado por Capitão! e dando ordens, já se sabe que é o velho auto pernambucano ainda
autônomo mas agregado ao bumba-meu-boi.
Ao lado das figuras permanentes passam as novas e morrem as velhas, Capitão de Campo, o
Padre-Vigário, a Caipora, o Arlequim, o Bate-Queixo, o Corpo-Morto, Zé do Abismo, o
Cobrador de Imposto, o Doutor-Médico, antigos ajustes de contas, anônimos e ferozes.
Até certo ponto o bumba-meu-boi, boi kalemba, funciona como as antigas revistas de
costumes, sacudindo o teatro nas gargalhadas comunicantes. Ninguém se revia na
exposição maliciosa. Nenhum outro auto popular possui essa vocação satirizante,
incontida, lógica, realizada no meio da mais pobre das assistências compreensivas. Até
há poucos anos, Birico e Mateus eram profissionalmente analfabetos. Daí a originalidade
das imagens, conclusões psicológicas, o inesperado depoimento coletivo nas vozes
autênticas dos dois vaqueiros, engraçados e rústicos. Curioso é que o boi kalemba
tratado, vestido e limpo, organizado, com um conjunto musical audível, ensaiado,
recomendado, é de uma banalidade automática e roncante. E quando arrastam o elenco aos
microfones, todo o humor esfuziante daqueles atores que representam descalços e pisando
na areia, ao ar livre, pintados, rasgados e sujos, desaparece, e se tornam gagos e
tristes, como malandros iniciantes depondo na polícia. De um desses bumba-meu-boi,
maravilhoso e legítimo, fazendo as alegrias do auditório de todas as categorias, por mim
levado a uma estação emissora, para programa anunciado com ampla "cobertura"
entusiástica e ansiosa, assisti o mais completo desmoronamento das memórias, vivacidade
e graça feiticeira nos remoques e perguntas. O estúdio retirou-lhes a faculdade de
respirar normalmente. Prometi jamais reincidir.
O enredo desse legitimíssimo auto popular gira em torno de um boi, guardado pelos
vaqueiros e por eles sacrificado, por variadas razões. Morto o animal, tendo antes
dançado e espalhado a gente, aplicam remédios e fazem promessas e oferecimentos para
restituir-lhe a vida. Algumas vezes ocorre esse episódio, voltando o boi a viver e
bailar. Noutras regiões, fazem a partilha, original e cômica, das vísceras, peça por
peça, em versos, destinando-as aos figurantes do auto ou pessoas estranhas mas conhecidas
pelo auditório. Esse pormenor existe em autos e festas populares pela Europa e América
Latina, sem nenhuma relação com o enredo do nosso folguedo. São, lá fora, cenas
hilariantes, independentes de sequência temática, partilhas de asnos, galos, pássaros
insignificantes, convergindo no Brasil para o boi kalemba, mas tendo vivido anteriormente
em situação autônoma, como vemos no Reisado de Antônio Geraldo, que Sílvio
Romero registou em Sergipe (Cantos populares do Brasil, I, 347, Rio de Janeiro,
1954). Naturalmente articulam a partilha do bumba-meu-boi com um repasto totêmico,
divagação erudita dispensável para quem recorda o tantas vezes milenar costume da
divisão convencional da peça de caça aos caçadores, conforme a maior ou menor
intervenção no êxito cinegético. Creio, anotando o citado Reisado, ter exposto
suficientemente o assunto. O mito etólio de Meleagro responde, numa antecipação
milenar, a W. Robertson Smith.
Durante o decorrer do auto os compères, variando topograficamente, dialogam e
recepcionam os incontáveis participantes que vão aparecendo, todos cantando e dançando.
Vez por outra, comedidos e graves, vêm as damas e os galantes, entoando loas a lo
divino, imperturbáveis às facécias, vestidos de branco. Birico e Mateus são os
"permanentes". Mateus é mais nacional; do Pará a Santa Catarina e pelo
interior de Pernambuco e Alagoas ambos os vaqueiros são Mateus. Catirina era velha figura
na Bahia e recente no Nordeste. Em Alagoas denominava uma réstia de cebolas com que
Mateus se armava.
O auto finda, como no século XVI, por uma dança geral, em que todos os personagens
voltam ao público para a farândola terminal. Noutras paragens, acabam todos bailando em
forma de carrossel, tear, moenda ou cantando desafios.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Folclore do Brasil) |
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