Janeiro
2001
Ano III - nº 29 |
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Rara é a vez que, percorrendo
as colunas ineditoriais dos nossos cotidianos, não deparamos - encimadas de pombinhas
volantes, corbeilles floridas e outros emblemas alvissareiros, e precedidas dos
chavões de costume - com felicitações ao ilustre senhor Fulano de Tal, por
colher naquele dia mais um caju na árvore de "sua preciosa existência";
freqüentemente, também, ouvimos dizer com relação a uma pessoa avançada em idade que
tem muitos cajus.
Em ambos os casos ressumbra do seu emprego certa dose de chalaça, e é perceptível um
ressábio de jocosidade; ao risinho satisfeito do felicitante ao escrever, corresponde a
gargalhada gostosa do felicitado ao ler as profalças, e a frase do nosso interlocutor,
designando a anciania de alguém, é sempre sublinhada dum sorriso faceto.
Entretanto, bem meditada, a expressão perde o cômico de que parece revestida ao primeiro
aspecto; aqueles cajus devem forçosamente ter um sentido especial e ignorado dos
foliões que os empregam pilheriando.
E assim é. Achamo-nos em presença dum caso típico deste fenômeno cultural - na
inesperiência filosófica da nossa língua ainda inominado - que os etnólogos ingleses
batizaram de survival e os franceses de survivance, - e pode ser definido
como "a sobrevivência de denominações, hábitos e costumes às pessoas, cousas e
circunstâncias que determinaram a sua primitiva instituição."
Exemplifiquemos para melhor compreensão: o toque de Ave Maria, ou de Trindades que ainda
hoje ouvimos todas as tardes das nossas igrejas, é um survival do tapalume
medievo, quando, na aglomeração de edifícios das antigas cidades muradas, o receio de
incêndios impôs a necessidade de um sinal que, à hora certa, determinasse a extinção
dos lumes de todos os lares.
O fato que hoje nos preocupa está nas mesmas condições.
Usando de caju como equivalente de anos os nossos contemporâneos, longe de
inovarem, repetem apenas a designação empregada pelos nossos indígenas, há milênios
talvez, para o mesmo fim.
O calendário dos tupis, os mais progressivos dos nossos aborígenes, era, como o de todos
os povos primitivos, pouco complicado, e a sua divisão do tempo extremamente simples;
além do dia (ára, isto é, claridade, luz), distinguiam os meses pelas lunações
(yacy, significando igualmente lua e mês). Para a contagem dos anos serviam-se de
florações dos cajueiros, cuja frutificação era para eles a época das festas e das
orgias prolongadas, a estação da fartura de víveres e da abundância de prazeres.
Daí responder ao sábio Martius um indiozinho, interrogado sobre a sua idade: Onze
acayu quetebo, isto é, onze cajus inteiros, querendo assim exprimir que já
completara o seu undécimo aniversário.
Verifica-se, portanto, que presumindo fazer espírito inédito, os pândegos acima
mencionados obedecem tão somente às leis do survival, reproduzindo velha usança
dos nossos indígenas.
[1906]
(CARVALHO, Alfredo de. Frases e palavras. Recife, J. W. de Medeiros e Cia., 1906. Em
MAIOR, Mário Souto; VALENTE, Waldemar (org.). Antologia
da pernambucana de folclore.) |
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