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SUPERSTIÇÕES
Não conheço os países da
Europa e não sei se por lá existem tantas superstições como no Brasil. Parece-me que
sim.
Os supersticiosos não são somente os ignorantes, os iletrados, mas, mesmo entre os
intelectuais, os sábios, a superstição impera e muitas vezes com mais força. Os
incrédulos primam como tais.
É vulgar encontrar-se homens tidos por espíritos emancipados, cientistas, não
acreditando em Deus, para eles mera hipótese boa para iludir o povo, sem fé, sem
religião, presos, no entanto, às mais vulgares e estúpidas superstições.
Têm horror ao número 13: não dormem, no hotel, no quarto nº 13; não habitam em casa
nº 13, não se assentam à mesa onde estejam treze pessoas.
Indague-se o porque? Acontece uma desgraça a uma das treze pessoas. Mas, qual a causa que
o leva a assim pensar? Jesus assentou-se à mesa, na última ceia, com os doze apóstolos;
eram, portanto, treze pessoas. Jesus foi crucificado e Judas enforcou-se.
Então, acredita em Jesus Cristo, na instituição do Sacramento da Eucaristia, na paixão
de Cristo?
Ah! não; eu não acredito nessas invenções e crendices, sou racionalista. Penso como
Strauss, como os grandes sábios. Jesus nunca existiu; é uma lenda, uma ficção. E
concedendo mesmo que existisse, não passou de um judeu vulgar, cuja vida foi embelezada
pelos apóstolos e pelos cristãos primitivos.
Aí está: o nosso sábio curva-se humilde diante de um fato que para ele nunca existiu.
Ninguém, porém, o move a assentar-se a uma mesa onde estejam treze pessoas. E eles não
são ignorantes!
E como esta são todas as outras superstições que pululam por aí entre o povo ignaro e
os intelectuais, os sábios incréus.
É comum ouvir-se: não gosto de pombos; é uma ave agoureira. Quando eles fogem do pombal
e abandonam a casa, sempre se dá uma desgraça, quando não a morte de uma pessoa da
família.
O pombo é uma ave gulosa e em geral é tratado com cuidado, com carinho, pelos amadores.
Quando uma grave preocupação perturba o bem estar, a felicidade da família, seja uma
moléstia grave ou qualquer infelicidade, os pombos são esquecidos e sofrem fome; breve
abandonam o pombal e vão buscar pouso onde encontrem alimento. Acontece-lhes o mesmo que
aos níqueis do Padre Corrêa de Almeida:
"Também de meu bolsinho se escoam
Tostões, que, dois a dois, rápido voam,
Como voam as pombas dos pombais.
Aligeros metais o vôo soltam,
Fogem, mas aos pombais as pombas voltam
E eles às minhas mãos não voltam mais."
Um dia, após a morte do doente ou à volta de alguma tranqüilidade, lembram-se dos
pombos. Bom rumo: foram-se.
E logo a exclamação supersticiosa:
- Não digo? É por isso que não gosto de pombos. Que animal agourento. Quando abandonam
a casa é uma desgraça certa que vai acontecer.
Puro e ingênuo engano. É exatamente o contrário. Por causa da desgraça da família
foram eles esquecidos, ficaram com fome e voaram dois a dois ou em bando em busca de
alimento, e ficaram onde encontraram bom tratamento.
Quantas vezes os pombos supersticiosos dirão consigo: estas moças são agourentas;
quando começam a andar correndo de um lado para o outro, a chorar, a gritar, é desgraça
certa: somos obrigados a abandonar nossos pombais.
Cidade das modas, das impressões, o Rio de Janeiro muda de pensar de dia a dia, de hora a
hora, de momento a momento.
Somente o cinema permanece altaneiro e vencedor por causa...; tem uma meia hora de fita. E
esta meia hora compensa o calor, o abafamento, as pulgas e todos os outros incômodos que
dele fariam fugir os seus freqüentadores. Mas assim mesmo há modas nos cinemas: hoje é
esta, amanhã aquela!
Quando as placas de gesso invadiram o Rio, foi um delírio. Não havia moça feia ou
bonita que não trabalhasse em gesso e não oferecesse, em festas, placas de gesso.
Tornou-se uma abominação! Era um presente fácil, barato, mas importuno: as paredes das
casas encheram-se de placas de gesso.
Um dia lembrou-se alguém de avisar as amigas não receber mais nenhuma, porque era certo
haver desgraça em casa onde a parede figurasse tal coisa.
E em poucos dias desapareceram como por encanto. Infelizmente, porém, as desgraças, as
infelicidades continuaram.
Uma distinta senhora que, não prima pela harmonia no casal, vendo uma dessas placas,
disse, horrorizada:
- Não suporto isso: quebrei todas as que tinha em casa. São objetos de mau agouro.
- Diga-me, minha senhora perguntei-lhe antes das placas de gesso não havia
desarmonia entre a senhora e seu marido.
- Havia, havia replicou mas essa desarmonia aumentou com elas.
- E, depois que as quebrou, cessou a desarmonia?
- Não; o meu marido está cada vez mais insuportável!
- Então não acuse os pobres objetos inócuos, inofensivos. Queixe-se da senhora, que
não sabe ter a prudência precisa para dar ao seu lar a felicidade e a paz.
Examine calmamente a consciência e verá que somente a senhora é a culpada dos males que
a perseguem; somente a senhora é a causadora dos maus agouros. As placas de gesso não
têm valor algum, mas não fazem mal a ninguém.
Quando o verão se apresenta rígido no Norte e as chuvas falham por completo, certos
pássaros que habitam o centro das florestas buscam as margens dos grandes rios, onde
encontram água em abundância e alimento.
Ouvindo o canto dessas aves desconhecidas ou não comuns, o povo as qualifica de
agoureiras, fatoras de desgraças.
- Aí vem com elas a fome e muitas vezes a peste.
Pobres aves: elas vêm batidas pela fome, pela sede, que invadiu por primeiro o sertão
longínquo.
Se a seca se prolonga, falham as plantações dos roçados, e como conseqüência a fome e
depois a peste, pelos miasmas das margens pantanosas batidas por um sol ardente.
Longe de serem agourentos, esses pássaros deviam ser abençoados, pois os seus cantos, os
seus gritos são brados de alerta: anunciam a seca que se aproxima. E o lavrador
previdente deve tomar precauções contra o mal que o ameaça.
Há, no entanto, superstições que têm um fundo de providencial.
Lembra-me quando, criança, acordando alta noite, pedia água. A minha ama, levantando-se,
tomava o púcaro e punha-se a bater com ele por muito tempo na água do pote, antes de a
tirar.
Impaciente, perguntava: - Para que bate assim, demora tanto!
Para acordar a água que está dormindo. Se ela despertar depois de a beber, lhe fará
mal.
O tempo ocupado nessa operação era o preciso para resfriar o corpo e colocar-me mais ou
menos na mesma temperatura.
A estes e outros fatos idênticos quase não podemos chamar superstição, antes são
experiências da sabedoria popular, o que é comum entre todos os povos e infelizmente mal
apreciado.
Há superstições sacrílegas e algumas mesmo de uma revoltante infâmia, como a que leva
ao crime de se apoderarem de cadáveres de crianças recém-nascidas e pagãs. É um fato
comum e para o qual a policia devia voltar a sua atenção.
Encontram-se vendedores de bugigangas impingindo objetos ditos sagrados, como pedacinhos
de pedra dara usados por pessoas de alto coturno para atrair
felicidade, afugentar malefícios, etc. Se se lhes fala em água benta, tão aconselhada
pela igreja aos fiéis: - Não, isso não, lembra defunto.
Se uma borboleta, à noite, atraída pela luz, penetra na casa, é prenúncio de uma
calamidade. A pobrezinha da bruxa é trucidada sem piedade, para afugentar o mal.
Se uma aranha desce pelo seu fio sobre a mesa, na hora do almoço, é anúncio de males;
se na hora do jantar ou da ceia, de esperanças, de felicidades.
Colocar dinheiro sobre a mesa, prenúncio de pobreza.
O jasmim de Caiena em um quintal traz desgraça para a casa.
O canto da coruja, à noite, o grito estrídulo do rasga-mortalha, por cima do telhado da
casa, anuncia morte certa de pessoa da família.
E seria um nunca acabar referir todas essas tolices, todos esses cúmulos de inépcia que
preocupam continuamente mesmo pessoas de certa cultura.
A morte ferira a mãe de alta patente de nosso exército. Fui ao enterro. Quando o caixão
transpunha a porta da sala de visitas, apesar do grande número de pessoas que iam saindo,
ouviu-se a voz da nora da finada: "- Atira atrás do caixão tudo e apaga as
velas". E ela deu o exemplo, arremessando para o quintal, na direção da porta da
rua, vidros e sobras de água benta, ramos de alecrim, pedaços de cera, enfim, o resto de
tudo quanto servira para a morta.
- Para que fazem isso? perguntei É um desrespeito, uma falta de delicadeza.
- Ah! não respondeu-me a dona da casa é para não ir outra pessoa atrás
dela.
Vã precaução; pouco tempo depois eu acompanhava o enterro dessa mesma pessoa que tomava
as providências para afastar a morte de casa. Mostrara-se tão temerosa da morte, e
seguira de perto a sogra.
No entanto, não vi repetir-se com ela a mesma cena e até hoje, são passados anos,
nenhuma outra pessoa da família faleceu.
A superstição não tem explicação racional alguma. É melhor confiar na Providência
Divina, entregar-se inteiramente à sua santa vontade. Isto dá inteira calma e
felicidade.
(OLIVEIRA, Hosaná, padre. Lendas e fatos de minha terra) |
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