Deus vos salve casa santa
Onde Deus fez a morada
Onde mora o bento calix
E a hóstia consagrada
Que sabemos nós da Epifania? Homens de leve erudição e de
fé sem vigor, andamos a sutilizar velhos textos e antigos costumes, e tanto sutilizamos
que a dúvida acomete o nosso espírito e a confusão perturba a viagem dos três Reis com
os vestígios das saturnais e das bodas de Caná. Nem os
sacerdotes nos altares nem os eruditos em livros fartos, ninguém hoje conseguirá
explicar claramente a suave aparição e a festa simples que o povo realiza, fazendo vir
de alta montanha, guiados por uma estrela loira, Gaspar, Melchior e Baltazar com a
oferenda de ouro, incenso e mirra para o menino que Herodes perseguirá
Há os versículos de Mateus: "Jesus nasceu em Belém de Judá, nos tempos do rei
Herodes. Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo"; sabe-se que presepe
significa etimologicamente estrebaria ou jaula. Os gnósticos vêm, com esses dois elementos, simbólicos, confusos;
os sábios indagam de mais e, enquanto estes esterilmente escrevem páginas estéreis, os
povos criam a legenda suave, e a legenda perdura, cresce, aumenta, esplende numa doce
apoteose de perfumes e de bem.
Os presepes são uma criação popular. Antes dos artistas de Paris e Viena, que expõem
nos salões do Campo de Marte e no Kunstlerhaus, o povo criou nos presepes o anacronismo
religioso, o anacronismo que, segundo la Sizerane, é a fé; pôs, como Breughel nos
Peregrinos de Emaús e Beraud na Madalena entre os Fariseus, homens de hoje nas cenas do
Velho Testamento.
Os presepes, como as telas do Renascimento, são as reconstituições religiosas com a cor
local contemporânea. Os psicólogos podem psicologar num reisado a alma nacional e a
intensidade da crença. Cristo para os homens simples está sempre, é a perene luz salvadora. Por isso cada presepe é um mundo onde homens
e animais de todas as épocas renovam anualmente a admiração de um suave milagre.
Fui ver numa das últimas noites de chuva alguns desses mundos de religião e tradição.
É impossível para os que viram o bumba-meu-boi realizado pelo venerável Melo Morais e o
belicoso doutor Sílvio Romero, quase como uma reconstituição de costumes, imaginar o
número de presepes que este ano tem o Rio. Há para mais de quarenta.
Começamos pelo presepe da rua Frei Caneca, o Centro Pastoril, que tem uma diretoria
composta dos senhores Liberato Serra, presidente honorário; Manuel Novela, presidente;
mais dos senhores Pedro Hugo, Faria, Alfredo Belfort, Manuel de Macedo, Francisco de Paula
Azevedo e Raul Machado. Os ensaios do reisado realizaram-se na rua Formosa e os diretores
alugaram a sala e a primeira alcova da casa da rua Frei Caaneca apenas para que a festa
redobrasse de brilho.
A sala está toda enfeitada, com dois pequenos estrados feitos de madeira, onde devem
sentar a polícia e os repórteres, um defronte do outro, sempre juntos e sempre adulados.
Ao fundo ergue-se o presente que toma a alcova. O céu deste ameaça chuva; grossas nuvens
algodoam à sua celestial vastidão. As estrelas, entretanto, mais o sol e mais a lua,
numa doce confraternização, atravessam nuvens e azul com o brilho fulgurante das malacachetas e das velas porque são de malacachetas as
estrelas, e têm por trás uma vela providencial tanto a lua como o sol.
Da montanha a pico, por caminhos aspérrimos, vêm descendo os três reis lendários com
um ar açodado de beduínos em fuga, e nessa descida, os seus olhos pintados vão vendo
chalés suíços, animais no pasto, militares posteriores ao império do Tetrarca,
mulherinhas gordas de avental e a luz da estrela que os guia escorrendo do céu em dois
grossos fios de prata. Embaixo, no primeiro plano, há um grande movimento. De um lado,
ardendo na sombra do milagre e de alguns corpinhos coloridos, está o estábulo, onde se
dá o mistério do nascimento de Deis; de outro, uma fachada de papel de seda, em que eu
imagino ver Jerusalém, cujas portas caíram ao som das trombetas.
O Centro Pastoril tem um reisado em três atos, interpretado pelas senhoras Irma Serra,
Georgina do Nascimento, Maria Fernandes, Elvira de Almeida, Elisa, Adelina, Esmeralda,
Constança, Lauriana e outras meninas. Esse reisado é exatamente um auto como os fazia
Gil Vicente. Os personagens são o Guia, o Pastor Mestre, o Pastor, a Cigana, Diana
Pastorinha, Galeguinho, Galego e Galega. O Natal é apenas o motivo da cena. Trepado na
gaiola destinada à imprensa ausente, diante de gaiola policial deserta, apreciei com
sabor a evolução do auto e, batendo palmas, parecia à minha alma que remontáramos
quatrocentos anos, ao tempo em que dom Manuel oferecia ao Papa elefantes brancos ajaezados
doiro e o povo acreditava com temor em Deus.
No primeiro ato trata-se da chegada dos pastores e há o canto do dia:
Salve estrela radiante
Doce infante de alegria
Salve infante, salve aos homens
E a doce Virgem Maria
Depois a Cigana, no segundo ato, tem o papel preponderante: esmola, pede, abre a sacola
para que as oferendas caiam, entre as graçolas do Galeguinho, e no fim ficam os pastores
todos sabendo que Jesus nasceu.
Mas ouço por estes montes
Brandas vozes a cantar
Já daqui não me vou
Sem estes sons escutar
Aí, no Centro Pastoril, a diretoria indica outros presepes. Há muitos: na rua Frei
Caneca mais dois; na rua de Santana três, os números 130 e 27; na rua Bom Jardim mais
dois, em São Diogo três, e ainda em São Clemente, em São Cristóvão, no Estácio, em
Itapagipe, em Catumbi pobres, humildes, cheios de pompa, modestos, numa diversidade
curiosa e estranha. Conto numa noite só mais de quarenta.
O reisado faz-se em geral aos sábados, mas os proprietários, que têm Deus na sala,
conservam as casas abertas e iluminadas.
Dá-me licença?
- É a casa de Deus, pode entrar.
Em alguns, senhoras e crianças olham, sonolentas, o presepe ao fundo, em outros a sala
está inteiramente vazia ou os vigilantes dormem na crepitação das velas. Oh! a
estética dos presepes! Que assombroso charivari de datas,
que fonte de idéias e observações! Em São Clemente vem ao estábulo um batalhão
francês, no da rua de Santana, 130, há um lago com repuxo e peixes do tamanho dos reis
magos, no da rua da Imperatriz alguns caçadores e um padre conversam com São José; em
Itapagipe encontrei uma montanha suíça com uma vaqueira perto do rei Gaspar.
Por que fazem presepes? Indago.
Uns respondem que por promessa, outros sorriem e não dizem palavra. São os mais
numerosos. E a galeria continua a desfilar presepes que parecem pombais, feitos de
arminho e penas de aves; presepes todos de bolas de prata com bonequinhos de biscuit;
presepes armados com folhas de latão, castiçais com velas acesas e fotografias
contemporâneas, tendo por lagos, pedaços de espelho e o burro da Virgem com um selim à
moderna; presepes em que no meio do capim há casas de dois andares com venezianas e caras
de raparigas à janela uma infinidade inacreditável.
O mais interessante, porém, fui encontrar na praia Formosa, centro de um cordão
carnavalesco de negros baianos. Essas criaturas dão-me a honra da sua amizade. O presepe
está armado no quarto da sala de visitas. É inaudito, todo
verde com lantejoulas de prata.
O céu, pintado por um artista espontâneo, tem, entre nuvens, o sol com uma cara raspada
de americano truster, a lua, maior que o sol, com a imagem da Virgem Mãe. Dois
raios de filó prata bambamente pendem do azul sob o estábulo divino, iluminando a giorno.
Descendo a montanha, montados em camelos, vêm os três reis magos, vestidos à tirca, e o
rei mais apressado é Baltazar, o preto. Pela encosta do monte as majestades lendárias
encontram, sem pasmo, ânimos imperiais quase atuais: Napoleão na trágica atitude de
Santa Helena, a defunta imperatriz do Brasil, Bismarck com a sua focinheira de molosso
desacorrentado, uma bailarina com a perna no ar, e um boneco de cacete, calças
abombachadas e chapéu ao alto
Iluminando a agradável confusão, velas de estearina
morrem em castiçais de cobre.
O grupo carnavalesco chama-se Rei de Ouros. Logo que eu apareço e das janelas
escancaradas a tropa me vê, entoa a canção da entrada:
Tu-tu-tu quem bate à porta
Menina vai ver quem é
É o triunfo Rei de Ouros
Com a sua pastora ao pé
Dentro move-se, numa alegria carnavalesca, o bando de capoeiras perigosos da rua da
Conceição, de São Jorge e da Saúde. A sala tem cadeiras em roda, ornamentadas de cetim
vermelho, cortinas de renda com laçarotes estridentes. As matronas espapaçam-se nas
cadeiras, suando, e, em movimentos nervosos, agitam-se à sua vista mulatinhas de saiote
vermelho, brutamontes de sapatos de entrada baixa e calção de fantasia de velho e de rei
dos diabos. Há um cheiro impertinente de suor e éter floral.
Uma calamistrança pra seu doutô! brada o Dudo, um negro, magro, conhecido por
inventar nomes engraçados, o Briant da populaça. E a gente do reisado logo batendo
palmas, pandeiros e berimbaus:
Ora venha ver o que temos di dá
Garrafas de vinho, doces de araçá
A manifestação satisfaz. Dudu leva-me quase à força para um lugar de honra e eu vejo
uma mulatinha com o cabelo à Cléo de Merod, enfiada numa confusa roupagem rubra.
Quem é aquela?
- É Etelvina. Tá servindo de porta-bandeira
Não era necessária a explicação. O pessoal, quebrando todo em saracoteios exóticos,
cantava com as veias do pescoço saltadas:
Porta-bandeira deu siná
Deu siná no Humaitá
Porta-bandeira deu siná
Deu siná tulou, tulou!
Aproveito a conseideração do Dudo para compreender o presepe:
- Por que diabo põem vocês o retrato da imperatriz ali?
- Imperatriz era mãe dos brasileiros e está no céu.
Mas Napoleão, homem, Napoleão?
- Então, gente, ele não foi o rei do mundo? Tudo está ali para honrar o menino Deus.
A bailarina também?
- A bailarina é enfeite.
Guardo religiosamente esta profunda resposta.
Os do reisado cantam agora uma certa marcha que faz cócegas. Os versinhos são errados,
mas íntimos e, sibiliados por aquela gente ingenuamente feroz, dão impressões de
carícias:
Sussu sossega
Vai dromi teu sono
Está com medo diga
Quer dinheiro, tome!
Que tem Sussu com a Epifania? Nada. Essas canções, porém, são toda a psicologia de um
povo, e cada uma delas bastaria para lhe contar o servilismo, a carícia temerosa, o
instinto da fatalidade que o amolece, e a ironia, a despreocupada ironia do malandro
nacional.
Mas por que, continuo eu curioso, põem vocês junto do rei Baltazar aquele boneco
de cacete?
- Aquele é o rei da capoeiragem. Está perto do rei Baltazar porque deve estar. Rei preto
também viu a estrela. Deus não esqueceu a gente. Ora não se se V. S.ª conhece que
Baltazar é pai da raça preta. Os negros da Angola quando vieram para a Bahia trouxeram
uma dança chamada cungu, em que se ensinava a brigar. Cungu com o tempo virou mandinga e
São Bento.
Mas que tem tudo isso?
- Isso, gente, são nome antigos da capoeiragem. Jogar capoeira é o mesmo que jogar
mandinga.
Rei da capoeiragem tem seu lugar junto de Baltazar. Capoeiragem tem sua religião.
Abri os olhos pasmados. O negro riu.
V. S.ª não conhece a arte? Hoje está por baixo. Valente de verdade só há mesmo
uns dez: João da Sé, Tito da Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manuel Piquira,
Ludgero da Praia, Manuel Tolo, Moisés, Mariano da Piedade, Cândido Baianinho,
outros
Esses cabras sabiam jogar mandinga como homens
- Então so capoeiras estão nos presepes para acabar com as presepadas
- Sim senhor. Capoeiragem é uma arte, cada movimento tem um nome. É mesmo como sorte de
jogo. Eu agacho, prendo V. S.ª pelas pernas e viro V. S.ª virou balão e eu
entrei debaixo. Se eu cair virei boi. Se eu lançar uma tesoura eu sou um porco, porque
tesoura não se usa mais. Mas posso arrastar-lhe uma tarrafa mestra.
Tarrafa?
- É uma rasteira com força. Ou esperar o degas de galho,
assim duro, com os braços para o ar e se for rapaz da luta, passar-lhe o tronco na queda,
ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o baú, pontapé na pança. Ah! V. S.ª não imagina
que porção de nomes tem o jogo. Só rasteira, quando é deitada, chama-se banda, quando
com força tarrafa, quando no ar para bater na cara do cabra meia-lua
- Mas é um jogo bonito! fiz para contentá-lo.
Vai até o auô, salto mortal, que se inventou na Bahia.
Para aquela lição tão intempestiva, já se havia formado um grupo de temperamentos
bélicos. Um rapazola falou.
E a encruzilhada?
- É verdade, não disseste nada de encruzilhada?
E a discussão cresceu. Parecia que iam brigar
Fora, a chuva jorrava torrencial. Um relógio pôs-se a bater preguiçosamente meia-noite.
As mulatinhas cantavam tristes:
Meu rei de Ouros quem te matou?
Foi um pobre caçadô.
Mas Dudu saltou para o meio da sala. Houve um choque de palmas. E diante do quarto, onde
se confundia o mundo em adoração a Deus, o negro cantou, acompanhado pelo coro:
Já deu meia-noite
O sol está pendente
Um quilo de carne
Para tanta gente!
Ih! suave ironia dos malandros! Na baiúca havia alegria,
parati, álcool, fantasia, talvez o amor nascido de todas aquelas danças e do
insuportável cheiro do éter floral
Não havia, porém, com que comer. Diante de Jesus, que só lhes dera o dia de amanhã, a
queixa se desfazia num quase riso. Um quilo de carne para tanta gente!
Talvez nem isso! Saí, deixei o último presepe.
De longe, a casinhola com as suas iluminações tinha um ar de sonho sob a chuva, um ar de
milagre, o milagre da crença, sempre eterna e vivaz, saudando o natal de Deus através da
ingenuidade dos pobres. Como seria bom dar-lhes de comer, ó Deus poderoso!
Como lhes daria eu um farto jantar se, como eles, não tivesse apenas a esperança de
amanhã obter um quilo de carne só para mim!
(RIO, João do. A alma encantadora das ruas) |
 Baiúca
Bodega,pequena taberna.
Charivari Música
discordante;Tumulto,confusão.
Degas Gíria. Pessoa (supostamente)
importante; Eu (maneira de alguém referir-se à própria pessoa: O degas aqui não é
de tirar o corpo fora).
Epifania Manifestação de Cristo aos
gentios, especialmente aos reis magos; Festa da Igreja que lembra esse acontecimento,
chamado também de Dia de Reis (6 de janeiro).
Etimologicamente Relativo à Etimologia,
ciência que investiga a origem das palavras.
Gnósticos Adeptos do gnosticismo, filosofia
religiosa cujos adeptos pretendiam ter um conhecimento completo de Deus.
Inaudito Extraordinário, espentoso.
Malacachetas Mica; Mineral brilhante e
friável, abundante nas rochas eruptivas e metamórficas (Usa-se a mica branca por causa
de sua transparência e de sua infusibilidade).
Perene Que dura muitos anos, eterno.
Saturnais Relativo ao deus Saturno. Festas
nas quais predomina a licenciosidade;orgia. |