Ir para a página principal

fiomenu.gif (223 bytes)
Festança
Cancioneiro
Imaginário
Oficina
Colher de Pau
Panacéia
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente

fiomenu.gif (223 bytes)
Folhinha
fiomenu.gif (223 bytes)
Arquivos
fiomenu.gif (223 bytes)
Outras Edições
fiomenu.gif (223 bytes)
Busca

fiomenu.gif (223 bytes)

Retornar para Palhoça
Inspirado em desenho de picadeiro de circo
O DOUTOR GUEDES E A FESTA DO BONFIM


Votos de Feliz Ano Novo – A Grande Noite de São Silvestre parecendo uma das "Mil e Uma Noites" - O Fandango

Pode-se afirmar que Olinda é um prolongamento do Recife, a que está ligada pela extensa reta da estrada da Tacaruna, ou pela do Campo Grande, que se encontram em Duarte Coelho, onde viveu o primeiro donatário da velha e próspera Capitania de Pernambuco.

Um tipo popular de Olinda teria de estender, portanto, sua popularidade ao Recife, de que é, como já disse antes, um prolongamento. Sendo assim, a figura jovial e simpática do doutor Guedes Alcoforado – antigo morador do largo do Bonfim, em Olinda - foi muito popular ali, bem como no Recife também.

Era ele um tipo patriarcal, chefe de numerosa e tradicional família pernambucana, na qual se destacavam umas das suas graciosas filhas, ambas altas, claras, coradas, de cabelos louros e crespos, e de olhos azuis denunciando-lhes correr nas veias o sangue generoso e forte de ancestrais estrangeiros. Eram conhecidas, onde apareciam, pelas "Alcanforadas", conforme o povo pronunciava.

Morava a família em uma confortável casa, de amplas salas, no largo do Bonfim, ao lado direito da igreja e bem próximo dela.

MONUMENTO HISTÓRICO

Essa igreja, se já não está no Livro de Tombo do Departamento de História e Comunicação do Estado, como um dos seus monumentos, deveria estar, pois, afirmam os entendidos, que naquele local, onde se erguia a primitiva ermida, se reuniram os pernambucanos em heróica resistência ao invasor holandês que marchava contra a cidade pelo lado do norte.

Depois de reconstruída a igreja do Bonfim, realizavam-se ali imponentes festas, que se tornaram tradicionais, na noite de São Silvestre, comemorando o bonfim do ano e o início esperançoso do que se lhe seguia.

Durante muito tempo o doutor Alcoforado e sua família eram a alma daquela festa. Havia na igreja uma Irmandade, mas o doutor Alcoforado era toda a mesa regedora daquele sodalício católico, com muito prazer, aliás, para todos, que tinham, assim, suavizados seus múltiplos encargos.

OS PREPARATIVOS

Desde o começo do mês de dezembro, começavam os preparativos da grande festa do último dia do ano, precedida de concorrido setenário, iniciado na noite de 24, com o hasteamento da bandeira que saía, processionalmente, da residência da Juíza da bandeira – em geral a esposa de algum abastado devoto – e em casa da qual era recolhida, na noite do último dia, permanecendo ali guardada durante todo o ano.

Na residência do doutor Alcoforado havia grande azáfama: vizinhos e outras pessoas amigas eram convocados para auxiliarem os festeiros. Escolhiam-se antes os patrocinadores dos festejos durante as noites das novenas, havendo, assim, a "noite dos solteiros", a dos casados, a dos negociantes e até a dos funcionários da estrada de ferro, com um nome comprido, que hoje seria reduzido a seis iniciais: CTUROB (cêturobe) significando: Companhia de Trilhos Urbanos do Recife à Olinda de Beberibe, sob a direção do doutor Antônio Pereira Simões, de saudosa memória.

Cada Classe de festeiros se esforçava por suplantar as outras na noite que lhe fora dedicada. Assim os casados faziam o possível para que a igreja, na sua noite, fosse mais ornamentada do que na noite dos solteiros, enquanto os negociantes, por sua vez, procuravam suplantar os solteiros na iluminação do largo da igreja, e assim por diante.

O doutor Alcoforado é que se subdividia para que, não somente a parte religiosa como a profana da festa, tivessem o maior brilho, convidando os melhores oradores sacros para pregarem durante o setenário e contratando os melhores cantores para o coro, enquanto animava os barraqueiros a darem mais alegria às suas barracas, movimentando a festa externa com várias bandas de música.

A GRANDE NOITE DA FESTA

Há uns dois anos passados assisti à passagem do ano, no largo do Bonfim, constatando, com prazer, que a tradição não morrera. Recordei-me, saudoso, do tempo em que ali pontificava o doutor Alcoforado, e revi, na memória, o pátio da igreja borborinhando de gente. Nas barraquinhas, iluminadas, havia quermesse, uma roda numerada era posta em movimento após ser vendida a série de bilhetes pela quantia de um tostão cada um (dez centavos).

Mocinhas apregoavam os últimos bilhetes, afirmando que "nas suas mãos estava o premiado", enquanto o dono da barraca badalava, com força, uma sineta avisando:

- Vai correr!... Vai correr!...

Conferido o número do bilhete com aquele que o ponteiro da roda indicava, seu portador recebia o prêmio: uma boneca, um jarrinho, ou, se era guloso, preferia uma lata de goiabada da Fábrica Amorim, do Varadouro, ou uma de biscoitos da Fábrica Pilar, do Recife. Qualquer dos prêmios, por um tostão bem o valia...

As bandas de música, nos coretos, executavam, alternadamente as composições mais em voga, como as langorosas valsas do doutor Alfredo Gama, os dobrados do Zuzinha, na flor da idade, ou uns tangos sacudidos, como o intitulado: "Quem comeu do boi?..." crítica ao caso da carne de um boi doente que foi abatido e retalhado nos açougues, fazendo adoecer quem lhe comeu a carne...

No começo do pátio, à direita de quem chega, já estava armada a grande Nau Catarineta, onde seria dançado e cantado, pelos marujos, o fandango, vendo-se igualmente armada à sua frente, do outro lado do pátio, a fortaleza que, a seu tempo, teria de ser atacada pela tripulação da Nau Catarineta. Estavam todos a postos.

O setenário já havia terminado, e o poviléu, que estava no interior do templo, se espalhava agora pelo espaçoso pátio, aguardando a hora do "fim do ano". A iluminação elétrica havia sido aumentada com centenas de lâmpadas coloridas, fazendo com que o largo do Bonfim ficasse "claro como o dia"...

Aproximava-se, lentamente, a hora esperada, com nervosismo e impaciência pelo povo. Ao faltarem dois ou três minutos para a meia-noite, as lâmpadas iam se apagando, até ficarem apenas as da iluminação pública da cidade, que eram, aliás, bem fracas, como ainda até hoje o são. Há um relativo silêncio no ambiente.

A expectativa aumentava ainda a tensão nervosa dos que, a cada momento, consultavam os relógios.

- Só falta um minuto!...

- Falta menos: meio minuto só!...

Um gaiato grita, como se tivesse em um circo de cavalinhos, aguardando o início da função:

- Tá na hora!...

Estava, realmente: Um rojão subiu aos ares com grande ruído, fazendo estourar uma bomba fortíssima: era o sinal. Girândolas o acompanhavam, espoucando dúzias e mais dúzias de "foguetes do ar". Os sinos repicam alegremente. As lâmpadas reacendem a um só tempo, enquanto as músicas, nos coretos, executam, em uníssono, o Hino Nacional. O povo se abraça, alegremente bradando:

- Viva o ano novo! Viva!...

Na casa do doutor Alcoforado e em todas as do alvoroçado pátio, era esfuziante a alegria, expressando-se em recíprocos votos de felicidade nos doze meses que se iniciavam naquela noite festiva. A esse tempo estalos pirotécnicos anunciavam que o grande "painel do fogo de vista" estava começando a arder. Era uma peça alegórica: à luz de muitas velas de clorato de potássio aparecia uma ampliação de folhinha de desfolhar, marcando o dia 31 de dezembro do ano que findava, tendo ao lado a figura simbólica do velho Kronos da mitologia grega, trazendo nas mãos, ao invés da tradicional foice de segar, uma cômica vassoura... Mal se haviam consumido as velas de luz branca que ardiam, novos estalos se ouviam e, sobre a primeira alegoria, se desenrola um outro painel onde estava pintado o número 1 do dia primeiro do mês e ano que começava, vendo-se-lhe, ao lado, a figura de um menino com as mãos cheias de flores, tudo iluminado com luzes verdes e de outros cambiantes. Palmas ruidosas aplaudiram a concepção e execução do trabalho do mestre fogueteiro. Rapazes saíam, depois, a escrever a carvão, nos muros brancos, a data do ano começado...

O FANDANGO

Queimado o belo painel, o povo se foi aglomerando em torno da Nau Catarineta, onde os marujos, o mestre, o capelão de bordo, o gajeiro, o bassoura e outros personagens do folguedo já estavam se aprestando para darem início à representação.

Foi, portanto, com alegria geral que, depois das primeiras manobras e de várias cantorias a solo e em coro, se ouviu a voz de comando cantando:

"Sobe arriba,
Meu gajeiro,
Meu gajeirinho real,
Vê se vês terra de Espanha,
Ó tolina,
No reino de Portugal".

Ao que o gajeiro respondia:

"Não vejo terras de Espanha,
Nem reinos de Portugal;
Vejo só três lindas moças...
Ó tolina.
Com uma delas vou casar....


E o brinquedo continuava, sempre animado, até pela madrugada, quando, após estrondosa fuzilaria entre a Nau e a Fortaleza, era esta conquistada pelos marujos cristãos contra os mouros que a guarneciam.

O novo ano se iniciava assim, sob os mais belos augúrios, com a vitória do Cristianismo sobre o Paganismo, isto é, do Bem sobre o Mal.

(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)

Topo

Jangada Brasil © 2000