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Inspirado em desenho de picadeiro de circo
A PROCISSÃO DE SÃO SEBASTIÃO

Procissões

As cerimônias da religião católica, introduzidas no Brasil pelos missionários portugueses, conservaram seu caráter bárbaro, isto é, o exagero de que fora preciso revesti-las para impressionar os índios, apresentando-lhes imagens esculpidas e coloridas de gigantescas proporções. Esses missionários sentiram, com razão, que o aspecto dessas figuras humanas, seres intermediários entre o homem e a divindade, faria nascer na imaginação dos selvagens a idéia da grandeza e da força extraordinária do novo deus imposto.

Daí a origem das procissões brasileiras, imitadas das espanholas. Essa espécie de cerimônia religiosa tornou-se, para a cidade do Rio de Janeiro, uma oportunidade de luxo e de divertimento público, e de exibição de trajes elegantes para todas as senhoras, as quais aproveitam a festa para se mostrar nos balcões à passagem do cortejo. Observe-se também a vaidade das irmandades religiosas de cada igreja, cujo orgulho faz com que procurem se distingüir exibindo nesses passeios a extrema riqueza dos ornatos que mantêm com grandes despesas, sem, entretanto, tentar atenuar-lhes o mau gosto.

Há no Rio de Janeiro oito procissões principais: a de São Sebastião, a 20 de janeiro (1), dia do santo; a de Santo Antônio, no dia das Cinzas, às quatro horas da tarde; a de Nosso Senhor dos Passos, na segunda quinta-feira da Quaresma; a do Triunfo, na sexta-feira que precede o Domingo de Ramos; a do Enterro, na Sexta-Feira Santa; a do Corpo de Deus, que se repete na oitava, e finalmente a da Visitação de Nossa Senhora, a 2 de julho.

Procissão de São Sebastião (primeira do ano)

A procissão instituída em honra de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, realiza-se a 28 de janeiro, oito dias após o dia do santo. Sai às quatro horas da tarde da Capela Imperial e termina na Velha Sé, considerada a mais antiga igreja da cidade. A igreja de São Sebastião, situada no morro dos Sinais, é a primeira que se percebe ao entrar na baía.

O cortejo constitui-se de um destacamento de cavalaria, que abre a marcha; seguem-se, em fila, os estandartes de todas as irmandades, precedendo suas numerosas deputações; em seguida vêm as pessoas da corte imperial, os membros da Câmara Municipal com seu estandarte e, esculpida em madeira colorida, a imagem de São Sebastião, representado de pé e amarrado a um tronco de árvore. A estátua do santo, inteiramente nua, traz a fita e a condecoração guarnecida de diamantes de comandante da Ordem de Cristo. Os vencimentos de sua patente são empregados na manutenção da capela.

A imagem, erguida num andor ricamente enfeitado, é carregada pelos membros do Conselho Municipal; vem, em seguida, todo o clero das igrejas do Rio de Janeiro, precedendo, com o da Capela Imperial e os músicos da mesma, o pálio sob o qual caminha o bispo do Rio de Janeiro, na qualidade de capelão-mor; seguem-se alguns dignitários, ministros, presidentes das câmaras e outros; finalmente, fecha a marcha um imponente destacamento de infantaria de linha com sua banda.

O cortejo entra no interior da Igreja de São Sebastião e coloca no altar-mor a pequena imagem do santo; a tropa, que ficou de fora, faz três descargas de mosquetões e se retira. Esse sinal é o da separação dos membros do cortejo. Imediatamente, todas as ruas adjacentes se enchem de carruagens conduzindo de regresso as mais ricas personagens, enquanto os de fortuna medíocre retiram sua vestimenta de cerimônia e a entregam a seus escravos, que os acompanham com o precioso pacote.

O clero separa-se em grupos de dois ou três indivíduos, encontrados carregando para a sua casa o enorme círio dado a título de ficha de presença. Outros membros subalternos do clero acompanham os negros que carregam à cabeça enormes tabuleiros cheios de diversos acessórios religiosos, recobertos com pequenas toalhas de musselina bordada, guarnecida de rendas. Mas, no meio dessa multidão, os mais embaraçados são os que carregam cruzes e candelabros e que se esforçam naturalmente para regressar o mais depressa possível e sem cerimônia às suas respectivas igrejas.

Finalmente, após essa jornada de fadigas, no dia seguinte, à hora habitual da abertura das igrejas, pode-se ver a pequena imagem de São Sebastião ressurgir no altar-mor da Capela Imperial, para onde voltou incógnita.

Notas:

1. A data consignada na descrição da procissão, poucas linhas adiante, não confere com esta. (N. do T.)

(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil)

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