
Se o costume não impedisse às senhoras passear nas
ruas, dificilmente poderiam dedicar-se a esse exercício com qualquer conforto. Poucas
cidades têm logradouros públicos menos adaptados para isso que o Rio. Sua pequena
largura, o perigo das rodas dos carros e carruagens, a imperfeição dos passeios e
algumas vezes sua inexistência, para nada dizer das indecências dos negros, e das
condições indecorosas dos logradouros públicos a praia da Glória, por exemplo,
e pior ainda aquela situada diante do Palácio e da praça do Palácio são
suficientes para manter dentro de casa o sexo frágil. Nas avenidas suburbanas as senhoras
podem sair ao ar livre, mas não na cidade. As mulheres aqui encontram para sair menos
incentivo do que entre nós. As atrações das compras não existem. Se um artigo desejado
não pode ser encontrado com os mascates, envia-se uma nota a uma loja por meio de um
escravo, que traz em seguida amostras para serem escolhidas.
Quando uma senhora quer visitar a parte comercial da cidade, manda chamar uma carruagem ou
cadeirinha. Todas são construídas de acordo com o mesmo padrão e diferem apenas nos
ornamentos. Cadeira é a palavra portuguesa para Chair, e cadeirinha, ao pé da
letra, little chair. A cadeirinha deriva da sella gestatoria de Roma,
sendo provavelmente um fac-símile, infinitamente mais elegante e cômoda, que a antiga
cadeira inglesa.
Entrei em uma delas para examinar sua construção. A figura
mostra sua estrutura. Sobre uma tábua elíptica, de 75 centímetros por 50, é fixada uma
cadeira de encosto alto, sendo que seus braços se estendem até um círculo ao alto com
as mesmas formas e dimensões da base. Os varais curvos são ligados à base por pequenas
varas de aço, como se vê representado na figura.
Os dois carregadores da cadeirinha jamais caminham em
linha; o que segue à retaguarda fica sempre mais ou menos à esquerda ou à direita do
que vai à frente, o que é mais cômodo tanto para eles próprios como para a pessoa que
transportam. Nunca param para descansar, mas de vez em quando transferem o peso de um
ombro para outro, enquanto andam, não modificando realmente sua posição com referência
à cadeirinha, mas transferindo o peso por meio de uma forte bengala colocada sobre o
ombro desocupado e passada por baixo do varal. Conheci uma cadeirinha que tinha uma
cúpula de couro polido com um pombo dourado por cima e cortinas ricamente bordadas. As
extremidades dos dois varais eram formadas por cabeças douradas de leões. Essa
cadeirinha era particular e os escravos que a transportavam vestiam resplandecente libré.
As criadas da senhora caminhavam atrás da cadeirinha, como se vê na figura anterior.
As vezes a cadeirinha sai à rua sem seu proprietário. Vi uma delas, de cor azul, quase
toda coberta de bordados dourados. Uma larga faixa de couro de Córdova envolvia o topo da
cadeirinha em cuja frente e retaguarda salientavam-se duas elegantes pontas ou remates;
sobre o teto convexo erguia-se uma águia prateada ou prateado-dourada. As cortinas
estavam puxadas para um lado, mostrando o interior da cadeirinha e sobre ela um enorme
ramalhete, presente enviado pelo seu proprietário e que tinha seu valor aumentado pelo
aparato cavalheiresco da entrega.
Em outra ocasião, encontrei uma cadeirinha com uma cúpula verde-clara sobre a qual se
erguia um pombo de prata. As cortinas eram carmesim, cor adotada nos funerais das
crianças: em seu interior o cadáver de uma delas ia sendo levado para o cemitério.
(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil) |
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