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JANGADEIROS
O jangadeiro não sei quem disse
repete na sua faina, diariamente, o milagre de Cristo andando sobre o mar. Na
verdade, tanto faz a prancha do seu barco exíguo como a planta dos pés divinos pelo
dorso das ondas.
Eu nasci e me fiz homem diante do cenário verde das suas façanhas, mirando sempre com os
olhos cheios de espanto a lida os heróis desconhecidos, cuja história é escrita, como a
linguagem do amor, na toalha viva das águas.
A jangada, onde passam a maior parte da existência, é a expressão mais rude e primitiva
da navegação: um estrado de cinco paus roliços de linheiros, unidos entre si por alguns
cravos de madeira; dois bancos, um em cada ponta, um, para o mestre da embarcação, o
outro, para prender o mastro com a vela triangular. Material de equipagem, também, o mais
restrito um barrilzinho dágua; a quimanga da comida; a tapinambaba,
novelo das linhas de pesca; a âncora feita de uma pedra grande, o tauaçu, presa na ponta
dum cabo forte chamado poita. Paus para matar o peixe; um samburá para paiol da pescaria.
E, em volta de tudo, como aura de epopéia, o clima de uma coragem descomunal.
Nessa prancha lisa e sem defesa, esguia como um esquife, os homens vão, aos três e aos
quatro, com a roupa do corpo, trabalhar no mar alto, a cada raiar do dia. A água verde e
revolta cobre-lhes de contínuo os pés, com a renda de espumas frias dos teares das
sereias. O sol cai sobre eles, ao pino, o tempo todo. Os tubarões famintos seguem-nos às
vezes, horas a fio, na esperança da presa rica. Doutras vezes, vezes sem conta, é a
volta a praia com o samburá inteiramente vazio. O mau tempo, não raro, busca esmagá-los
com a garra do furacão e os dentes da maré. Rolam então na vaga, em redemoinhos, os
frangalhos do barco, espeques de mastros rompidos, panos de vela amortalhando corpos,
pragas e preces crepitando à flor do abismo. Mas as gerações se sucedem, e sempre e
sempre outros vêm retomar o lugar vago, vão prosseguido a aventura.
Pelo dia, guiam-se no rumo do sol. As estrelas são o seu roteiro, dentro da noite, como o
eram para os navegadores antigos.
Os grandes transatlânticos, em viagem para a Europa e a América do Norte, em águas
remotas, quando nenhum sinal de terra se descobre mais, cruzam muitas vezes dançando na
onda larga esses pequeninos palcos de ignoradas tragédias, onde quatro formiguinhas
escuras bolem, assombrando os passageiros dos colossos de conforto e de luxo que se
debruçam às amuradas, celebrando com admiração o feito incrível. Um deles, que não
entendeu direito o encontro e parou no meio do mar, para socorro, deu logo margem à
famosa anedota que todo o Norte repete gostosamente e Rachel de Queiroz lembrou certa vez:
"Vinha um navio inglês em mar alto, quando de bordo se avistou uma jangada. Pensaram
naturalmente que eram náufragos agarrados àquela balsa rude. Pararam, atiraram uma
linha, gritaram coisa em inglês.
Os jangadeiros apanharam a corda, sem entender.
- Que será que eles querem, compadre?
Até que o mestre da jangada pensou, sorriu, interpretou:
- Acho que eles estão querendo é reboque..."
Assim, o tempo todo, inverno ou verão, caia a chuva em cortinas cerradas ou fuzile o sol
lambendo as águas. Já o assinalava deste modo, na rudeza do seu reparo de antanho, o
velho Memorial da Capitania:
".... e como já foi dito a El-Rei, esses homens de pesca são uns brutos grosseiros
que, como os outros que andam metidos nos matos e agrestes, vão-se em dois e três e mais
paus unidos, como os de Goa, à pescaria dos pargos, garoupas e peixes maiores no alto
mar; sendo que ali perdem sono de noite, sossego de família, ora com bom tempo, ora com
mau e invernoso e quejandos, enquanto mulheres e filhas donzelas rezam ao Santo Lenho, e
orações fortes para abrandar e afugentar os raios."
Mal o dia rompe, a praia começa a encher-se da turma alvoroçada. Os homens empurram para
o mar as jangadas, sobre rolos de madeira, jogam-nas n'água. Pulam para cima da prancha,
e, ao embalo da onda, lá vão, subindo na crista espumante, pegando o sol com a mão na
subida, enquanto de terra crianças correm e folgam, acenando para os barcos. É um bando
de aves marinhas, de asas abertas, sobre o mar aceso em chamas de alvorada. Vão, as
quilhas ligeiras sulcando a verde estrada líquida, as jangadinhas de nomes sonoros: Flor
do Mar, Deus-Te-Guie, Dengosa, Jurema ou Pajussara.
E a esquadrilha branca e afoita corre assim na linha do horizonte, até perder-se ao longe
o perfil da última vela. E quando voltam, na primeira sombra da noite, vêm as estrelas,
por cima, penduradas pelos mastros, como grinaldas votivas.
Minha jangada de vela,
Que vento queres levar?
De dia, vento de terra,
De noite, vento do mar.
Aos domingos, enquanto as velas secam ao sol, e as jangadinhas se enfileiram quietas,
sobre a areia alvadia, as lendas e histórias trágicas de sereias e de temporais enchem
as horas de descanso, matando a preguiça mole que o canto do mar espalha no corpo dos
homens.
Não há talvez no coração dos cearenses ternura maior do que essa que nos desperta a
evocação dos nossos mares com a palpitação das suas velas, à estampa nítida dos
jangadeiros, cavaleiros destemerosos das líquidas coxilhas, e o cicio das palmas altas, e
a doçura dos luaceiros de agosto, por sobre as vagas e as dunas. Desde a invocação
orquestral de Alencar, onde palpita, ao ritmo das ondas, a voz inicial da nossa maior
saudade, ao brasão da nossa terra, onde a jangada se ostenta humilde, no orgulho de uma
legítima flor de lis.
Foram os jangadeiros de alma clara e coração fechado ao temor que lhe deram a alcunha de
Terra da Luz, quando riscaram nos seus mares a mancha do tráfico negreiro.
Juvenal Galeno canta-lhes a biografia ingênua, invejando aquela vida:
O jangadeiro descansa.
Oh! quanto amor e bonança
Naquele branco areal.
Quimportam fúrias de vento?
Seu filho ali... sua esposa.
Perto a jangada repousa
À sombra do coqueiral.
Ai a vida de pescadores...
Quem me dera vida igual!
Entretanto, em paga desta paz amiga, quanta lágrima e quanta luta sobre-humana! Álvaro
Martins, outro poeta cearense, assim nos fala também do outro lado daquela existência de
altos e baixos, como os da própria vaga:
Era por uma dessas noites fundas,
Noite cheia de sombras iracundas,
Noite de chuva, de terror e vento,
Em que o mar solta um lúgubre lamento
E sobre o manto azul das frias águas
Rolam as ondas a bater nas fraguas.
Todos velam no povoado,
Que os pescadores andam nalto mar.
Senhor! Senhor!
Ai quanto peito agoniado,
Ai quanto peito trespassado
Com sete lanças de dor!
É que, se o mar é seu melhor amigo, o seu tesouro, o seu amor, a sua vida, é também,
quanta vez, o seu túmulo. Luís da Câmara Cascudo conta:
"Mestre Silvestre pescava o peixe que queria. Tinha o segredo das Pedras Marcadas. O
senador Pedro Velho chamava-o encomendando uma sioba, galo do alto ou bicuda gorda. Mestre
Silvestre sacudia-se para o mar, passava a barra e sumia-se no fundo de fora. De tarde
voltava com o peixe na unha. Morreu no mar. Quem vive do mar morre nele. Quase na boca da
barra largou o tauaçu para fundear e a ponta enganchou-se na perna, arrastando-o para o
fundo. Quando o filho conseguiu trazer mestre Silvestre para cima da jangada o velho
jangadeiro estava morto. Mas deixou nome. Foi o maior pescador do seu tempo.
Lembro-me de outro que também morreu no mar. Sofria de epilepsia. Quando o ataque vinha
vindo amarrava-se no banco de governo. Numa destas vezes morreu amarrado. A canoa
continuou navegando, pano aberto ao vento brando, indo e vindo, tripulada pelo morto até
que encalhou em Mãe Luzia, na Areia Preta. Chamava-se Manuel Gangão... Nas noites de
sexta-feira, havendo luar, passa e repassa na linha do mar de Areia Preta a canoa
fantástica de Gangão, mestrada por ele, fazendo penitência."
Mais extraordinário ainda do que esse mestre Gangão epiléptico é com certeza um
jangadeiro do Meireles, que eu conheci desde pequeno, neto doutro velho pescador das
vizinhanças do nosso sítio daquela praia. Criança ainda, apanhou-o um ataque de
paralisia infantil, "ar do vento, Ave Maria", como se dizia naquele tempo e
perdeu o uso das pernas, que se foram atrofiando até virarem dois espeques
lamentavelmente inúteis.
Muita vez o vi, menino, arrastando os dois pobres cambitos, com o auxílio das muletas,
pelo branco areial das dunas da minha infância. E, não faz muito, em 1954 ou 1956, numa
de minhas visitas ao Ceará, ele apareceu ainda em nossa casa, já homem feito, viúvo,
com cinco filhos, o tronco robusto, a pele tanada de sol, o ar decidido e o riso fácil,
um galão de peixe à venda, siobas e cavalas prateadas do mar alto.
Soube, então, com assombro, que ia todos os dias à pesca, numa pequena jangada tripulada
por ele só, o que fazia desde que cansou de ser engraxate na praia do Mucuripe e ajudante
de sapateiro, depois, numa oficina nas proximidades da Cadeia Pública, em Fortaleza.
Mora agora, no Pecém, praia de areias movediças, por onde nasceu Antônio Sales, há
noventa anos, em recanto já hoje comido pelas dunas.
Francisco Fernandes Bernardo Chico Aleijadinho, como lhe chamam também é o
nome desse herói obscuro que em agosto do ano passado o jornal cearense Gazeta de
Notícias focalizava numa página inteira de seu suplemento dominical, sob a manchete
Sem pernas, é jangadeiro há trinta anos. Em close up aparece o
menino dos meus tempos de rapazinho, a cara larga de homem bem nutrido pelo seu trabalho,
o mesmo jeito jovial e desempenado de sempre, o chapéu de palha jogado para trás.
"Francisco Bernardo pouco conversa conta o repórter Telmo Freitas no
entanto, possui uma fisionomia alegre. De segunda a sábado, geralmente de cinco para seis
horas, ele coloca sua jangada no mar e vai sozinho à procura do pescado que, vendido, lhe
assegura a manutenção.
Tem ele um lugar determinado para a pescaria. É uma faixa situada um pouco a leste de
Pecém, numa distância de aproximadamente oito milhas de terra, onde só se vê céu e
água.
No local acima, Francisco Fernandes Bernardo arreia o tauaçu e então inicia a pescaria
que se prolonga até as dezessete horas, sendo que muitas vezes volta ao "porto"
quando a escuridão está dominando.
Por várias vezes, durante a noite, a jangada de Chico Aleijadinho tem virado em alto mar
e ele, sem ajuda de outra pessoa, consegue desvirá-la, regressando à terra são e salvo,
pronto para o dia seguinte ir novamente ao mar.
Já viu muitos tubarões e deseja imensamente conhecer uma baleia. Há poucos meses pegou
um tintureiro pesando sessenta e um quilos.
Atualmente, com quarenta e seis anos de idade e com trinta anos de pescador, Francisco
Fernandes Bernardo quer ser negociante. O que ganha com a sua pescaria "não dá para
viver". Se conseguir um meio de "montar uma bodega", abandonará sua
jangada que poderá vender por oitocentos cruzeiros."
Outra história de pescador, que é também uma das páginas mais belas de Gustavo
Barroso, é o conto Velas Brancas. História simples, dum velho jangadeiro do
Meireles, que uma catarata cegara, roubando-o ao mar. Seu consolo único era ficar na
praia, manhãs e tardes a fio, ouvindo a labuta dos companheiros. Então "alheava-se
em sonhos dos laços que o prendiam à terra. Navegava pela superfície ondulada e
indefinida das saudades, que perpassavam incessantes como as vagas do largo". Até
que um dia, "num domingo de Ramos, ao repique festivo dos sinos, pretextando
incômodos, o velho ficou em casa, enquanto os seus foram à missa à cidade. O povoado
estava triste e silencioso. Não havia quase ninguém. Sobre a praia, velas de jangadas
secavam ao sol, estremecendo ao vento. O velho saiu de casa e dirigiu-se à costa. As
apalpadelas preparou uma "caçoeira". Pôs a jangadinha a nado, sentou-se à
popa, e, governando a escota, rompeu mar em fora, sob o ouro inquieto do sol a borboletear
nas ondas verdes. E a vela branca da embarcação apagou-se no céu..."
Assim vivem, assim morrem os jangadeiros.
(LIMA, Herman. Imagens do Ceará) |
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