| O Trigal A Sagrada
Família, naquele tempo do rei Herodes, precisou fugir pro Egito. Nossa Senhora carregando
o Menino Jesus ia num burrinho e São José, na frente, andando a pé, para poder ir
espiando as coisas. Foi assim que passaram por uma roça muito grande, onde estavam
semeando trigo. Uns homens, vendo passar aquela família tão pobre, deram comida e
perguntaram pra onde iam indo. São José respondeu que iam indo para outras terras e
pediu o favor de, se por acaso alguém perguntasse por eles, dizerem que um homem a pé, e
uma senhora com seu filho de colo passaram por ali no tempo em que estavam semeando trigo.
Os homens prometeram dar a informação.
No dia seguinte chegaram os soldados judeus e perguntaram se não tinham visto uma
família passar por ali. Os homens responderam que sim, que um velho, uma senhora e uma
criança tinham passado por ali no tempo da semeadura do trigo. Os soldados olharam e como
viram trigo crescido, cacheado, resolveram desistir da perseguição.
Aconteceu que o trigal tinha crescido e espigado da noite para o dia.
(Atibaia)
A Árvore de Flores Vermelhas
No tempo em que a Sagrada Família fugia do rei Herodes, certo dia, ao anoitecer,
chegou a um lugar descampado, aonde tinha só uma árvore. A árvore era dessas bem
grandes, estava carregada de flores brancas e podia ser vista de bem longe.
Quando clareou o dia, bem cedinho e São José vendo um trabalhador que ia passando por
ali, pediu-lhe um grande favor: - "Se alguém perguntar por nós, pode dizer que
pousamos debaixo de uma árvore cheia de flores brancas".
Foram simbora.
Dali a pouco chegaram os soldados do rei Herodes e o homem disse que a família de
retirantes tinha pousado debaixo de uma árvore de flores brancas.
Os soldados procuraram a árvore o dia todo, ficaram desacoroçoados
e voltaram de vereda para trás.
É que as flores daquela árvore, do dia para noite, de brancas que eram viraram
vermelhas.
(Tietê)
O Menino Feridento
Certo dia, quando estava fugindo dos judeus, Nossa Senhora chegou a uma casa muito
pobre e pediu pouso e comida. A dona da casa respondeu que de comer não tinha, mas pouso
tinha, para o tempo que Nossa Senhora quisesse. Nossa Senhora pediu licença para dar um
banho em Jesus e a boa senhora disse que ia lavar a gamela,
porque seu filhinho andava muito feridento, e que não havia o que o curasse. Que
precisava lavar a gamela, para não pegar ferida em Jesus.
Foi lavou a gamela e trouxe água limpa e quente. Depois que a Virgem lavou Jesus, o
filhinho da dona da casa veio engatinhando até a gamela e entrou na água. Imediatamente
sarou daquelas feridas.
Só muito mais tarde é que os dois meninos foram se encontrar. No dia do Calvário, o bom
ladrão, que morreu ao lado de Jesus, era aquele menino feridento e o seu nome era Dimas.
(Atibaia)
Os Dois Ladrões
Quando a Sagrada Família fugia para o Egito, foi
assaltada por dois ladrões. Quando eles viram que aquela gente não levava nada de valor
a não ser o burrinho, que podiam vender por algum dinheiro, resolveram levar o animal.
Mas um dos ladrões viu o rosto do Menino Jesus e ficou comovido com a beleza dele. Com
muito custo conseguiu convencer o companheiro de que não deviam levar o animal. O bom
ladrão, que se chamava Dimas, tornou a encontrar Jesus quando os dois foram crucificados
no monte Calvário. Naquele dia, Dimas foi perdoado de todos os seus pecados e subiu no
céu com Jesus.
(Poá)
A Corruíra
Quando Nossa Senhora ia fugindo pro Egito, a
corruíra ia atrás jogando cisco nos rastros dela. Foi por isso que não houve meio dos
soldados prenderem a Sagrada Família, e a corruíra ficou abençoada.
(Taquaritinga)
O Bem-te-vi
O bem-te-vi é ave amaldiçoada, porque com os seus gritos "bem-te-vi" ele ia
mostrando pros soldados os lugares por onde a Virgem Maria passava, no tempo que precisou
fugir de sua terra.
(Taquaritinga)
O Cuitelo
Quando a Virgem Maria fugiu para o Egito, perseguida pelos soldados do rei Herodes, ela
foi obrigada a se esconder numa moita. Cuitelo, que era o maior pássaro do mundo e
também o mais mexeriqueiro e intrometido, viu e foi contar pros homens, que então vieram
correndo. Nossa Senhora com muito custo deu um jeito de escapar, mas, para castigar o
cuitelo, mandou que ele fosse minguado até ficar o menor pássaro do mundo, o mais
franzino e sem cantiga e que, por castigo, ninguém pudesse fazer mal nenhum.
(Poá)
A Aranha
A Virgem Maria fugia com seu filho, naquele tempo em que o rei Herodes queria matar
todo menino homem, porque no meio deles estava o menino Jesus, e numa altura do caminho
chegou num lugar que só tinha campo raso e nenhum lugar pra gente se esconder. Os
soldados, com Caifás, já iam chegando num tropel de dar medo. Nossa Senhora chorou
porque não tinha lugar pra se esconder.
Então ela ouviu uma vozinha bem fininha, que estava cantando umas coisas. Nossa Senhora
pôs tento e viu que a vozinha saía de um toco de árvore, e quem estava cantando era uma
aranha:
"Minha Nossa Senhora,
Mãe de Cristo Verdadeiro
Esconde o menino agora
Neste toco de espinheiro."
Nossa Senhora escondeu o menino lá dentro e a aranha, mais do que depressa, foi fazendo
uma teia bem fechada e esparramando em cima dela tudo quanto era cisco e graveto. Quando
os soldados vieram, já foram dizendo: - "Aqui não tem ninguém, porque se tivesse,
essa teia já estava desmanchada". Foram se embora, resmungando muito. Nossa Senhora,
muito agradecida, abençoou a aranha dizendo que, no mundo inteiro, ela seria o único
bicho capaz de fazer sua casa de um dia para outro, e que, se quisesse, podia parar na
casa da gente.
(Poá; São Paulo)
O Siri Azul
Nossa Senhora, levando seu filho pra longe dos homens que queriam matar os dois, chegou
na beira da praia. A água estava brava por causa do vento da bocaina
e, assim, não tinha barco nem peixe grande para acudir a Virgem. Os soldados vinham
vindo, vinham vindo. Nossa Senhora clamou pelos peixes do mar, mas eles estavam longe e
não ouviram. Então apareceu um siri de carapaça azul e ela lhe disse: "Siri, meu
sirizinho, quem será que há de me ajudar?". O siri respondeu: - "Eu bos
levo, que sou filho da terra e do mar. Suba em minha costa, que de perigo eu bos
hei de livrar". Nossa Senhora subiu na costa do siri e ele foi nadando, até chegar
numa praia longe do perigo. Então Nossa Senhora perguntou: - "Que é que bos
quer de mim meu sirizinho?" O siri, pensou e respondeu: - "Quero seu retrato
Senhora Mãe de Deus!" Então a Virgem pegou um caco de pindá e riscou na costa do
siri azulado o seu retrato, que até hoje ele leva.
(Maresias)
O Leite da Virgem
Quando a Virgem fugia com seu filho, de vez em quando ela parava para lhe dar de mamar.
Mas, como ela não tinha sossego, porque os perseguidores vinham vindo, seu leite
espirrava e caía no chão. Então, de cada gota que caía ia nascendo a planta que dá
rosário de carapiá.
(Poá; Jabuticabal; Taiaçu; Taiúva; Taquaritinga; Moji das Cruzes; Jacareí)
A Andorinha
As andorinhas são abençoadas porque, quando a Virgem ia fugindo com seu filho, nos
dias em que fazia muito sol elas vinham voando baixo e fazendo sombra com suas asas para
eles.
(Taquaritinga; São Paulo; Sorocaba)
A Corruíra e a Galinha
A corruíra e a galinha são aves amaldiçoadas porque quando a Virgem fugia para o
Egito e São José ia atrás jogando gravetos por cima dos rastros do burrinho, aquelas
duas vinham ciscar o graveto e, por ruindade, mostrar aos soldados o rumo que a família
ia tomando.
(Poá)
O Porco
O porco foi amaldiçoado porque, quando a Sagrada Família ia fugindo, ele vinha atrás
e fuçava os gravetos que São José tinha jogado em cima dos rastros do burrinho,
mostrando, assim, o caminho pros soldados do rei Herodes.
(Taquaritinga)
O Soldado Cego
Naquele tempo em que o rei Herodes mandou matar todas as crianças que fossem meninos, a
Virgem Maria resolveu fugir, levando Jesus. O rei, quando soube, mandou dizer pra todos os
soldados que não deixassem sair daquela terra nenhuma mulher com criança no colo.
A Virgem Maria foi andando, até que topou uma ponte, que estava guardada por um soldado
bem na cabeceira. Quando ela chegou ali, o soldado levantou a espada para matá-la, mas o
menino Jesus deu uma risadinha e, por isso, o soldado disse que queria ver que jeito era a
criança. A Virgem Maria abriu o xale e mostrou. O soldado olhou para aquela criança tão
linda e seu coração disse para não matar. Por uns tempos ele pensou e disse: -
"Olha, já sei o que nós vamos fazer. Vamos virar as ferraduras do burrinho de trás
pra diante, assim eu posso dizer que a senhora entrou e ninguém saiu por aqui. Posso
dizer isso sem mentir". Então, os dois pegaram e viraram as ferraduras do burrinho e
Nossa Senhora foi-se embora para a outra banda do rio, onde o rei não mandava.
Mal tinham passado umas horas, e o rei veio a saber se ninguém tinha passado por ali. O
soldado disse que não; que, ao contrário, tinha entrado gente. O rei viu os rastros do
burrinho, mas assim mesmo mandou furar os olhos do pobre soldado.
O soldado ficou cego e foi pedir esmolas e, assim, ele ficou velho e abandonado. Foi
passando o tempo, até que um dia se lembraram dele. Naquele dia, os judas estavam matando
Jesus Cristo na cruz, mas ninguém tinha coragem de lhe dar uma chuçada no coração.
Então lembraram do soldado cego e foram procurá-lo. Disseram "Escute aqui:
nós apontamos a lança no lugar certo e você empurra com toda força". O cego não
sabia pra que era aquilo, mas pegou e fez. Quando a lança furou o coração de Jesus,
saiu muito sangue e umas gotas respingaram no buraco dos olhos daquele soldado e ele
enxergou de novo a luz do dia.
(Poá)
Os Cedros do Monte Líbano
Foi no tempo do mau rei Herodes, que amaldiçoado seja, e a Santa Família precisou
fugir para o Egito para salvar o Menino Jesus da matança das crianças.
O caminho era comprido e eles tiveram que passar pelo Monte Líbano, e fazia muito frio e
eles não tinham onde pousar. As árvores eram altas demais e não serviam como abrigo.
Nossa Senhora chorou de desespero e então os cedros se agacharam e formaram um rancho
para a Santa Família.
(São Paulo)
(XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas populares) |
 Bocaina
Baía ampla e profunda; Depressão numa serra.
Desacoroçoados Desanimados, sem esperança,
desapontados.
Gamela Vasilha de madeira ou de barro em
forma de alguidar ou de escudela grade, usada para lavagens ou para dar comida aos animais
domésticos. |