A
DANÇA DE SÃO GONÇALO
(conto 1935)
Atmosfera de cauda de procissão. Bodum. Os homens formam
duas filas diante do altar de São Gonçalo. São Gonçalo está enfaixado como um recém
nascido. Azul. Branco. Entre palmas de São José. Estrelas no céu de papel de seda.
Os violeiros encabeçando as filas, puxando a reza fazem reverências. Viram-se para os
outros. E os outros dançam com eles. Bate o pé no chão de terra socada. Pan-pan-pan!
Pan- pan! Pan! Pan-pan-pan! Pan! Param. De repente. Inesperadamente.
Para bater palmas. Plá-plá-plá-plá! Plá-plá! Plá! Plá! Plá-plá-plá!
Plá-plá! Param.
Para os violeiros cantarem, viola no queixo:
É este o primeiro velso
Queu canto pra São Gonçalo...
- Senta aí mesmo no chão, Benedito!
É este o primeiro velso
Queu canto pra São Gonçalo...
E o coro começa grosso, grosso. Rola, subindo. Desce, fino, fino. Mistura-se
prolonga-se. Ôôôôh! Aaaa! Ôôôô! Ôaiiiiih! Um guincho.
O violeiro de olhos apertados saúda o companheiro. E marcha seguido pela fila. Dá uma
volta. Reverências para cá. Reverências para lá. Tudo sério. Volta para o seu lugar.
- Entra seu Casimiro!
O japonês Kashamira entra com a mulher e o filhinho brasileiro de roupa de brim.
Inclina a cabeça diante de São Gonçalo. Acocora-se.
O acompanhamento das violas, feitos de três compassos não cansa. Os assistentes
enchem os cantos sombreados. No centro da sala de vinte metros quadrados, a lâmpada de
azeite se agita.
Minha boca está cantando,
Meu coração lhe adorando!
Cabeças mulatas espiam pelas janelas. A porta é um monte de gente. A dona da casa,
desdentada, recebe os convidados.
- Não vê que meu defunto seu Vieira tá enterrado já há dois anos... fazia mesmo
dois anos agora no natar...
Pan-pan-pan! Pan-pan! Pan!
- A alma dele esta penando aí por esse mundo de Deus, sem pode entrá no céu...
Plá-pláplá! Plá-plá!
- Eu antão quis fazê esta oração pra São Gonçalo deixa ele entrá...
Vou mandá fazê um barquinho
da raiz de alecrim...
O menino de oito anos aumenta a fila da direita. A folhinha da parede é de Empório
Itália Brasil. Garibaldi tem uma bandeirinha auriverde no peito e ergue bem alto a
espada.
Pra embarcá meu São Gonçalo
Do promá pra seu jardim.
Desafinação sublime do coro. Os rezadores movimentam-se. Trocam de posição.
Enfrentam-se. Dois a dois avançam, cumprimentam à esquerda, cumprimentam a direita
tocam-se ombro contra ombro, voltam para seu lugar.
O negro de pala é o melhor dançarino da quadrilha religiosa.
São Gonçalo é um bom santo
Por livrá seu pai da forca.
A noite cerca de escuridão a casinha de barro. Cigarros acesos são riscos de fogo nas
mãos inquietas.
A dona da casa é viúva de um português. E amiga de um negro.
- Não vê que o Crispim também pegou uma doença danada... não havia jeito de
sará... o coitado quis até se enforcá num pé de bananeira!
Artá de São Gonçalo,
Artá de nossa oração!
- Nóis, antão, fizemo uma premessa. Que se Crispim sarasse, nóis fazia esta festa.
Foi premessa que sarando
Será seu precuradô!
A cabocla trata de salvar a alma do morto e o corpo do vivo. A filha bonitinha, sorri,
enleada. As violas tem um som, um som só. Chega gente.
São Gonçalo tava longe,
De longe já tá bem perto...
Um a um curvam-se diante do altar, gingam. O violeiro de olhos apertados está de
sobretudo. Negros de pé no chão.
- Nóis tamo mesmo emprestado neste mundo...
Cantando andam pela salinha quente.
Abençoada seja a mão
Que enfeitô este oratório!
O preto de pala dá um tropicão engraçado. E a mulher de azul celeste ri, amamentando
o filho. Mas os violeiros esganiçam:
Da dança de São Gonçalo
Ninguém deve caçoá.
Ôôôôh! Aaaaah! Iiiiih!
São Gonçalo é vingativo:
Ele pode castigá!
Silêncio na assistência descalça. As bandeirinhas desenham um X de papel sobre a
cabeça dos dançarinos. Atrás da casa tem cachaça do Corisco.
- Depois é a veis das moça. Quem quisé pegá São Gonçalo e dançá com ele
encostado no lugar doente.
Onde chega os pecadô
Ajoelhai, pedi perdão!
O estouro dos foguetes ronca no vale estreito. São fagulhas os vagalumes. De uma
fogueira que não vê. Lá dentro, o mesmo ritmo. Faz já uma hora monótona.
São Gonçalo está sentado
Com sua fita na cintura.
O caboclo louro puxa da faca e esgravata o dedão do pé.
- São seis reza de hora e meia, mais ou menos... pro santo ficá satisfeito.
Lá no céu será enfeitado
Pla mão de Nossa Senhora.
Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Plá-plá-pláplá! Plá-plá! Plá! Plá-plá-plá-plá!
Oratório tão bonito
Cuma luz a alumiá!
Do alto do montão de lenha a gente vê no fundo São Paulo estirado. Todo aceso. Do
outro lado, a Serra da Cantareira não deixa a vista passar. Nosso céu tem mais estrelas.
São Gonçalo foi em Roma
Visitá Nosso sinhô.
- Só acaba amanhã, sim sinhô! Vai até o meio dia, sim sinhô! E acaba tudo
ajoeiado.
Ôôôôh! Aaaah! Ôaôôaaaôh! Ôôôiiiih! Parece um órgão no princípio. Cantochão. No fim é um carro de boi.
Senhora de Deus convelso,
Padre, Filho, Espírito Santo!
Quem guincha é o caipira de bigodes exagerados.
Esta crônica (ou conto?) de Antônio de Alcântara
Machado figura no volume póstumo Mana Maria. O autor publicara os livros de
contos Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da china e o de impressões
de viagem Pathé Baby.
(RIEDEL, Diaulas (org.). Histórias
e paisagens do Brasil, O planalto e os cafezais) |