Ir para a página principal

fiomenu.gif (223 bytes)
Festança
Cancioneiro
Oficina
Palhoça
Colher de Pau
Panacéia
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente

fiomenu.gif (223 bytes)
Folhinha
fiomenu.gif (223 bytes)
Arquivos
fiomenu.gif (223 bytes)
Outras Edições
fiomenu.gif (223 bytes)
Busca

fiomenu.gif (223 bytes)

Retornar para Imaginário
Inspirado em desenho de picadeiro de circo
A DANÇA DE SÃO GONÇALO E O MELHOR VIOLEIRO

A DANÇA DE SÃO GONÇALO
(conto – 1935)

Atmosfera de cauda de procissão. Bodum. Os homens formam duas filas diante do altar de São Gonçalo. São Gonçalo está enfaixado como um recém nascido. Azul. Branco. Entre palmas de São José. Estrelas no céu de papel de seda.

Os violeiros encabeçando as filas, puxando a reza fazem reverências. Viram-se para os outros. E os outros dançam com eles. Bate o pé no chão de terra socada. Pan-pan-pan! Pan- pan! Pan! Pan-pan-pan! Pan! Param. De repente. Inesperadamente.

Para bater palmas. Plá-plá-plá-plá! Plá-plá! Plá! Plá! Plá-plá-plá! Plá-plá! Param.

Para os violeiros cantarem, viola no queixo:

É este o primeiro velso
Qu’eu canto pra São Gonçalo...

- Senta aí mesmo no chão, Benedito!

É este o primeiro velso
Qu’eu canto pra São Gonçalo...

E o coro começa grosso, grosso. Rola, subindo. Desce, fino, fino. Mistura-se prolonga-se. Ôôôôh! Aaaa! Ôôôô! Ôaiiiiih! Um guincho.

O violeiro de olhos apertados saúda o companheiro. E marcha seguido pela fila. Dá uma volta. Reverências para cá. Reverências para lá. Tudo sério. Volta para o seu lugar.

- Entra seu Casimiro!

O japonês Kashamira entra com a mulher e o filhinho brasileiro de roupa de brim. Inclina a cabeça diante de São Gonçalo. Acocora-se.

O acompanhamento das violas, feitos de três compassos não cansa. Os assistentes enchem os cantos sombreados. No centro da sala de vinte metros quadrados, a lâmpada de azeite se agita.

Minha boca está cantando,
Meu coração lhe adorando!

Cabeças mulatas espiam pelas janelas. A porta é um monte de gente. A dona da casa, desdentada, recebe os convidados.

- Não vê que meu defunto seu Vieira tá enterrado já há dois anos... fazia mesmo dois anos agora no natar...

Pan-pan-pan! Pan-pan! Pan!

- A alma dele esta penando aí por esse mundo de Deus, sem pode entrá no céu...

Plá-pláplá! Plá-plá!

- Eu antão quis fazê esta oração pra São Gonçalo deixa ele entrá...

Vou mandá fazê um barquinho
da raiz de alecrim...

O menino de oito anos aumenta a fila da direita. A folhinha da parede é de Empório Itália Brasil. Garibaldi tem uma bandeirinha auriverde no peito e ergue bem alto a espada.

Pra embarcá meu São Gonçalo
Do promá pra seu jardim.

Desafinação sublime do coro. Os rezadores movimentam-se. Trocam de posição. Enfrentam-se. Dois a dois avançam, cumprimentam à esquerda, cumprimentam a direita tocam-se ombro contra ombro, voltam para seu lugar.
O negro de pala é o melhor dançarino da quadrilha religiosa.

São Gonçalo é um bom santo
Por livrá seu pai da forca.

A noite cerca de escuridão a casinha de barro. Cigarros acesos são riscos de fogo nas mãos inquietas.

A dona da casa é viúva de um português. E amiga de um negro.

- Não vê que o Crispim também pegou uma doença danada... não havia jeito de sará... o coitado quis até se enforcá num pé de bananeira!

Artá de São Gonçalo,
Artá de nossa oração!

- Nóis, antão, fizemo uma premessa. Que se Crispim sarasse, nóis fazia esta festa.

Foi premessa que sarando
Será seu precuradô!

A cabocla trata de salvar a alma do morto e o corpo do vivo. A filha bonitinha, sorri, enleada. As violas tem um som, um som só. Chega gente.

São Gonçalo tava longe,
De longe já tá bem perto...

Um a um curvam-se diante do altar, gingam. O violeiro de olhos apertados está de sobretudo. Negros de pé no chão.

- Nóis tamo mesmo emprestado neste mundo...

Cantando andam pela salinha quente.

Abençoada seja a mão
Que enfeitô este oratório!

O preto de pala dá um tropicão engraçado. E a mulher de azul celeste ri, amamentando o filho. Mas os violeiros esganiçam:

Da dança de São Gonçalo
Ninguém deve caçoá.

Ôôôôh! Aaaaah! Iiiiih!

São Gonçalo é vingativo:
Ele pode castigá!

Silêncio na assistência descalça. As bandeirinhas desenham um X de papel sobre a cabeça dos dançarinos. Atrás da casa tem cachaça do Corisco.

- Depois é a veis das moça. Quem quisé pegá São Gonçalo e dançá com ele encostado no lugar doente.

Onde chega os pecadô
Ajoelhai, pedi perdão!

O estouro dos foguetes ronca no vale estreito. São fagulhas os vagalumes. De uma fogueira que não vê. Lá dentro, o mesmo ritmo. Faz já uma hora monótona.

São Gonçalo está sentado
Com sua fita na cintura.

O caboclo louro puxa da faca e esgravata o dedão do pé.

- São seis reza de hora e meia, mais ou menos... pro santo ficá satisfeito.

Lá no céu será enfeitado
Pla mão de Nossa Senhora.

Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Plá-plá-pláplá! Plá-plá! Plá! Plá-plá-plá-plá!

Oratório tão bonito
C’uma luz a alumiá!

Do alto do montão de lenha a gente vê no fundo São Paulo estirado. Todo aceso. Do outro lado, a Serra da Cantareira não deixa a vista passar. Nosso céu tem mais estrelas.

São Gonçalo foi em Roma
Visitá Nosso sinhô.

- Só acaba amanhã, sim sinhô! Vai até o meio dia, sim sinhô! E acaba tudo ajoeiado.

Ôôôôh! Aaaah! Ôaôôaaaôh! Ôôôiiiih! Parece um órgão no princípio. Cantochão. No fim é um carro de boi.

Senhora de Deus convelso,
Padre, Filho, Espírito Santo!

Quem guincha é o caipira de bigodes exagerados.


Esta crônica (ou conto?) de Antônio de Alcântara Machado figura no volume póstumo Mana Maria. O autor publicara os livros de contos Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da china e o de impressões de viagem Pathé Baby.

(RIEDEL, Diaulas (org.). Histórias e paisagens do Brasil, O planalto e os cafezais)

O MELHOR VIOLEIRO

Certa vez, dois moradores de Tatuí discutiam:

- O maió tocadô de viola mora pras banda do Tietêr.

– Quar! O mió e o maió de tudo quanto véve nesta redondeza mora em Pricicaba!

- Isso é que não! São Gonçalo é o maió!

- Tá enganado, home, o maiorá é Jesus Cristo! E não pode sê?

- Uai… pode… né…

(Recolhido em Sorocaba)


(XIDIEH, Oswaldo Elias. Narrativas populares)


Bodum
- Transpiração fétida; Fedor de bode não castrado.

Cantochão - Canto litúrgico, arrastado.

Esgravatar - Remexer ou escarafunchar com as unhas ou com instrumento apropriado.

 

Veja também:

"Entre as características do São Gonçalo português contam-se: casamenteiro, tocador de viola, dançarino". Conheça a dança de São Gonçalo.

• Rodas de São Gonçalo. Alguns versos cantados em Goiás e no Piauí.

O culto a São Gonçalo em diversas regiões do Brasil.

Topo

Jangada Brasil © 2000