Acreditamos ser o estado do Rio de Janeiro a
região mais rica em grupos de Folia de Reis, pelo menos em número e variantes desses
bandos religiosos. Não se pode estabelecer os locais onde sua presença é, ou não,
sentida: sua permanência é viva e pujante, quer no litoral, nas baixadas, nas serras; e
nisso vejam-se as fazendas, os sítios e roças, e também as zonas urbanas de municípios
de pequeno, médio e grande porte, como a cidade do Rio de Janeiro. Autodenominando-se foliões,
esses grupos, organizados por devoção ou pagamento de promessa, fazem sua jornada ou giro
da noite do dia 24 de dezembro ao dia 20 de janeiro, por influência de São Sebastião,
padroeiro da capital.
Caminham no ritmo das Marchas de Rua, cantam defronte às casas o Pedido de
Abrição de Porta, fazem a Saudação ao dono da casa, cantam Jornadas dos
Reis Magos ou passagens da vida de Cristo, finalizando com o Agradecimento e as
Despedidas.
Esses grupos, em sua maioria, são integrados por homens, adultos e crianças, cabendo às
senhoras os cargos mais importantes na organização.
Mestre: principal elemento do grupo, tem autoridade total, é responsável pela cantoria,
pelo perfeito desempenho dos demais; é também encarregado de prover as necessidades
materiais da corporação: uniformes, instrumental, bandeira. É ele ainda quem puxa os
cantos, entoando em primeira ou segunda voz.
Contramestre: função imediatamente inferior à do Mestre, é encarregado de recolher os
donativos e completar a cantoria, harmonizando numa terça acima ou abaixo da voz do
Mestre. É quem o substitui nas faltas eventuais.
Há também o encarregado de levar a Bandeira, chamado Alferes, Bandeireiro ou
Bandeirista; e, finalmente, os demais foliões, que são denominados, conforme as vozes
que cantam contralto, tipe (tripe), tala, ou instrumentos que tocam
pandeirista, caixeiro, trianguero, etc.
Além desses mais comuns, costumam aparecer outros figurantes, cujo desempenho é dado às
crianças os três Reis do Oriente (meninos), Pastorinhas (meninas), Anjo
(meninas), Pastores (meninos).
Fazendo ainda parte do conjunto, aparecem os Palhaços, em número variável. Não cantam
as partes do auto: limitam-se a emitir sons curtos e jocosos nos intervalos da cantoria. A
parte específica, denominada chula, desempenham-na recitando quadrinhas ou
décimas e sextilhas. As primeiras são aquelas comuns, decoradas ou improvisadas,
conforme as circunstâncias; as outras costumam ser alguns romances tradicionais de nossa
literatura oral Zezim e Mariquinha, Pavão Misterioso, Romance da Alma Penada,
João Soldado, Pedro Cem, Soldado Ricarti e as doze cartas do baralho ou
romances criados pelos próprios Palhaços, baseados em fatos reais do cotidiano de cada
um o jogo do bicho, o futebol e figuras políticas, fontes inspiradoras de poemas
como O batizado dos bichos, O futebol da bicharada, A morte de Getúlio Vargas.
Os textos da cantoria do grupo de foliões costumam ser tradicionais, ou então de
autoria do próprio Mestre, inspirado em obras literárias relacionadas com as figuras
sagradas cultuadas nessa ocasião: Antigo e Novo Testamento; O Mártir do Gólgota, de
Giovanni Papini; As parábolas de Cristo e outras, de Bastos Tigre.
A indumentária dos participantes varia conforme o gosto e posses de cada grupo, não
havendo uma constante quanto ao tecido, feitio e cores. A exceção fica com os Palhaços,
que usam calça e blusão de chita estampada e máscaras confeccionadas com couro de
animais de pequeno e médio portes cotia, gambá, preguiça, coelho, etc. e
enfeitadas com variados materiais, retirados de sucatas ou adquiridos no comércio.
Muitos desses grupos possuem ainda um elemento que, sem participar do conjunto de
foliões, divide com o Mestre os encargos administrativos da Bandeira compra ou
manutenção dos uniformes e dos instrumentos musicais. Geralmente é um pagador de
promessa ou devoto que, desconhecendo a parte musical e os textos literários das
jornadas, não toma parte ativa nos giros. Chamam-no Responsável.
As Bandeiras, distintivo e símbolo de cada grupo, trazem estampadas figuras dos Reis
Magos e da Sagrada Família. Após o dia 6 de janeiro, essas Bandeiras são substituídas
por outras, ou, nas primeiras, é anexada a figura de São Sebastião. E desde então os
foliões fazem referências ao popular mártir nas cantigas que entoam.
Na região metropolitana, isto é, nas circunvizinhanças da cidade do Rio de Janeiro,
encontramos a presença feminina ocupando funções que vão desde as específicas
Pastorinhas às mais simples Bandeirista, Percussionista até às de
comando Mestra, Responsável.
E ainda nessa mesma localização observa-se o início de um sincretismo
com as manifestações religiosas de forte cunho afro: Mestre ou Responsáveis que são
donos de terreiros de Umbanda, Palhaços que trazem guias de seus orixás, visitas da
Bandeira, durante o giro, a gongás. Tudo ainda feito por devoção ou pagamento de
promessa, e, como tal, devendo ser cumprido por sete anos ou múltiplos de sete.
Para fazer parte de um grupo de Folia de Reis, o futuro folião tem obrigações e deveres
propostos pelo Mestre. A submissão a essas ordens é condição primeira para sua
admissão à jornada. Os grupos mais organizados preparam um verdadeiro código de ética,
denominado Estatuto, que é lido pelo Mestre diante do candidato e na presença dos
demais foliões, em cerimônia simples e íntima. O documento que se segue foi por nós
recolhido em Duque de Caxias e pertence à Jornada de Reis Estrela do Oriente, cujo Mestre
Joaquim Nunes é o próprio autor:
"A JORNADA DE REIS (ESTRELA DO ORIENTE) sob a regência do Mestre Nunes, fazem ver a
todos os componentes nela ingressados, e os que pretendem ingressar, as normas de seus
regulamentos. Como é do saber de todos sem a ajuda de meus foliões, o amigo jamais
poderíamos formar esta tão bela Jornada. Assim sendo transcrevo abaixo, os novos
regulamentos para serem cumpridos pelos foliões em geral.
1. Os foliões deverão respeitar à BANDEIRA pois nela trazemos o símbolo da família
sagrada, e os TRÊS REIS MAGOS do Oriente.
2. Os foliões deverão obedecer o apito do Mestre, e ao ouvi-lo procurem se apresentarem
o mais breve possível.
3. Ficam proibido aos foliões fumarem quando estiverem cantando as Jornadas, e
abandonarem a mesma para pedir água.
4. Ficam também proibidas as entradas em bares, e lanchonetes, e na compra de cigarros
só com a permissão do mestre, ou o mesmo comprando.
5. Fica o folião responsável por seu instrumento. Não o ponha no chão.
6. Proibido sentar-se em camas, mesmo que o dono da casa autorize.
7. Ao chegarem em casa de alguém que ofereçam algo para comer, ou beber, deixem que
sobrem.
8. Respeitem seus colegas, e não brinquem pois sendo de mau gosto acarretam confusões.
9. Não dê ouvidos a pessoas que não pertencem à Jornada, e alcoolizados, não
respondam, e nem emprestem os seus instrumentos.
10. Obedeçam rigorosamente os horários que forem marcados por seu Mestre, procurem
estarem arrumados na hora exata.
11. Todos os foliões ficam sujeitos a trazer em casa, os instrumentos retirados.
12. Não é permitido foliões andarem com mulheres abraçados na folia.
13. Os foliões devem procurarem zelar pelos seus quepes, e enfeitá-los a seu gosto
obedecendo o padrão.
14. Em marcha na rua, procurem marchar com fibra para maior entusiasmo do povo.
15. O folião será suspenso se chegar alcoolizado, e procurar confusão com os colegas de
jornada.
16. Fica proibido e com direito a ser suspenso, o palhaço que desobedecer o apito do
Mestre, e criar atritos.
17. Ficam os palhaços incumbidos de alertarem os foliões, bem como o palhaço Mestre de
não deixá-los ir à bares, etc.
O nosso objetivo é alcançarmos a vitória galgando os degraus através das nossas
responsabilidades.
Mestre Reizero
Ass. Joaquim Nunes."
(FRADE, Cáscia. Folclore brasileiro; Rio de
Janeiro) |
Sincretismo Amálgama de
doutrinas ou concepções heterogêneas; Fusão de elementos culturais diferentes, ou até
antagônicos, em um só elemento, continuando perceptíveis alguns sinais originários. |