Câmara Cascudo, em seu Dicionário
folclórico, p. 293 ss., relata os festejos que em Amarante, na Sé do Porto, e em
muitas outras localidades de Portugal se realizavam em honra ao popular santo
casamenteiro, êmulo em prestígio a Santo Antônio. De
Portugal, recebemos essa tradição religiosa. Na Bahia, em janeiro de 1718, Le Gentil de
la Barbinais assistia a um festejo popular, em que compareceu o vice-rei marquês de
Angeja. A dança se realizou dentro da igreja, tomando parte nela frades, mulheres,
fidalgos, escravos, num saracoteio delirante. No final, os bailarinos tomaram a imagem do
santo e dançaram com ela, sucedendo-se os devotos. Essa dança foi proibida após pelo
conde de Sabugosa "por ver umas festas, que se costumavam fazer pelas ruas públicas
em dia de São Gonçalo, de homens brancos, mulheres e meninos e negros, com violas,
pandeiros e adufes, com vivas e revivas a São Gonçalinho,
trazendo o santo pelos ares, que mais pareciam abusos e superstições que louvores ao
santo". Maria Amélia C. Giffoni, em seu magnífico trabalho Danças folclóricas
brasileiras, refere que a dança de São Gonçalo primitiva tinha um caráter
erótico, ao lado do elemento religioso, de homenagem ao santo casamenteiro, que por fim
prevaleceu, desaparecendo o caráter erótico. E afirma que a dança ainda existe em
vários estados do Brasil, como no Paraná, onde ela se realiza formando os bailarinos
duas fileiras, uma constituída por homens, outra por mulheres, precedidas por violeiros.
Em Minas (Januária) dançam mulheres guiadas por um homem, todas de branco, carregando
cada dançadora um arco ornamentado de branco, sobre a cabeça, só o abaixando para
cumprimentar o santo ou descrever figuras especiais. No interior da Bahia, há uma fila de
homens e outra de mulheres, precedidas de um tocador de pandeiro. Sua área geográfica se
estende ainda à Paraíba, Pernambuco, Ceará e a todo norte, onde se refugiou nos
povoados e fazendas. Em São Paulo é largamente praticada em numerosos municípios e
assume uma execução complicada quatro partes, ou mistérios e demorada; em
Moji das Cruzes a dança com intervalos dura até doze horas (cf. Geraldo Brandão, in Folclore,
1952, número 2). Voltemos à roda de São Gonçalo goiana.
Como ato principal das rodas de São Gonçalo, é executada solenemente, à porta da
matriz, a dança de São Gonçalo. As moças se dispõem em duas fileiras, segurando, aos
pares, um grande arco enfeitado e iluminado de velas acesas. A dança é executada ao
compasso de música própria, com avanços e recuos. Nos "ventureiros", espécie
de estribilho, há um movimento em que os últimos das
fileiras atravessam os arcos pelo centro , até se colocarem por primeiro. E assim vão
procedendo os demais, renovando-se completamente a ordem de colocação. Essa dança é de
origem portuguesa. Dou em seguida a letra cantada durante sua execução:
1
São Gonçalu du Amaranti
Espeiu di Portugal
Ajudainus a vencê
Esta bataia rial.
2
São Gonçalo era urivi
Foi fazê um crucifixu
Pra trazê nu pescoçu
Quano fô ao pé di Cristu.
3
São Gonçalu é meu pai
Santo Antonhu meu irmão
Us anju foi meu parenti
Sô di nobri geração.
4
Operaru brasilêru
Santificai o teu labôr
Oferecemu esta roda,
Pra glória du Sinhor.
5
Inveim um carru cantanu
Cheiu di flô di rosa,
São Gonçarvi eveim nu meiu
Iscoienu a mais formosa.
6
Ai! Jesuis que mi ispinhei
Cum u ispinhu di limão,
Pra sirvi São Gonçarvi
Di todu meu coração.
7
São Gonçarvi du Amaranti
É padrinho du Sacraru,
Eu tamem sô afiadu
Da Virgi du Rosaru.
8
São Gonçarvi du Amaranti
É padrinhu dus Santu Rei,
Eu tamem sô afiadu
Di todu êlis treis.
VENTUREIROS
Don Fernandu mercador
Assim, meu sinhor,
Pela baxura da mulata
Assim, meu sinhor,
Pela fita du cabelu
Assim, meu sinhor.
Segundo é fácil verificar, as rodas de São Gonçalo goianas têm quase a mesma feição
da roda mineira de Januária, onde o arco enfeitado aparece como elemento característico.
E difere bastante das demais, em que os dançarinos são homens e mulheres e não portam
arcos.
Entre as características do São Gonçalo português contam-se: casamenteiro, tocador de
viola, dançarino. Com esses caracteres se apresenta o São Gonçalo brasileiro, conforme
é fácil verificar das quadrinhas cantadas em sua honra. Assim, no Nordeste corre a
seguinte quadrinha:
São Gonçalo do Amarante
Casamenteiro das moças
Casai-me a mim primeiro
Para então casar as outras.
E ainda esta:
Viva e reviva
São Gonçalinho
Dai-me meu santo
Um bom maridinho.
Em Goiás, registrei:
São Gonçalo do Amarante
Casamenteiro das véia,
Pru que num casa as moça
Que mali fizero ela?
E na Moda da morte, do cantador Anicondes, em Bela Vista, as últimas estrofes
testemunham o tocador de viola e protetor dos violeiros.
Us anju fais trupé
Quanu morri um violeru,
Essi num vai nu céu
Pruque foi um disordero;
Arresponde São Gonçalo:
- Essi foi meu cumpanheiro.
Quanu fô pra mim morrê
Eu queru faze um aviso,
Incoiduá minha viola
Cas coida que fô precisu,
Pra cantá cum São Gonçalo
E us anjo no paraisu.
De "dançarino" ressalta da execução da dança no Nordeste e em São Paulo,
onde uma das figuras da mesma é a dança de cada um com a imagem do santo, numa
evocação de sua secular fama.
(TEIXEIRA, José Aparecido. Folclore goiano; cancioneiro,
lendas, superstições) |

Adufe Espécie de pandeiro quadrado sem soalhas,
feito de madeira leve e com pele retesada dos dois lados.
Êmulo Aquele
que tem emulação;competidor, rival, adversário.
Estribilho
Verso(s) repetido(s) ao fim de cada estrofe de uma composição, refrão, ritornelo.
Veja também:
Rodas
de São Gonçalo. Alguns versos cantados em Goiás e no Piauí.
A dança de
São Gonçalo e O melhor violeiro, duas histórias populares sobre o santo.
O culto a
São Gonçalo em diversas regiões do Brasil. |