Ir para a página principal

fiomenu.gif (223 bytes)
Festança
Cancioneiro
Imaginário
Oficina
Palhoça
Panacéia
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente

fiomenu.gif (223 bytes)
Folhinha
fiomenu.gif (223 bytes)
Arquivos
fiomenu.gif (223 bytes)
Outras Edições
fiomenu.gif (223 bytes)
Busca

fiomenu.gif (223 bytes)

Retornar para Colher de Pau
Inspirado em desenho de picadeiro de circo
NEGRAS COZINHEIRAS, VENDEDORAS DE ANGU

DEBRET, Jean-Baptiste. Negras cozinheiras, vendedoras de angu

É ainda na classe das negras livres que se encontram as cozinheiras vendedoras de angu. Para o exercício dessa indústria suplementar, bastam-lhes duas marmitas de ferro batido colocadas sobre fornos portáteis; um pedaço de pano, de lã ou de algodão, por cima da tampa de cada marmita, completa o aparelhamento culinário, a que se acrescentam duas grandes colheres de pau de cabo comprido. Conchas grandes e chatas e cacos de barro fazem as vezes de pratos para os transeuntes que se lembram de parar, e uma concha volumosa de marisco serve de colher.

O angu, iguaria de consumo generalizado no Brasil, e cujo nome se dá também à farinha de mandioca misturada com água, compõe-se, no seu mais alto grau de requinte, de diversos pedaços de carne, coração, fígado, bofe, língua, amídalas e outras partes da cabeça à exceção do miolo, cortados miúdo e aos quais se ajuntam água, banha de porco, azeite dendê cor de ouro e com gosto de manteiga fresca, quiabos, legume mucilaginoso e ligeiramente ácido, folhas de nabo, pimentão verde ou amarelo, salsa, cebola, louro, salva e tomates; o conjunto é cozido até adquirir a consistência necessária. Ao lado da marmita do cozido, a vendedora coloca sempre uma outra para a farinha de mandioca molhada. A mistura, servida convenientemente, lembra à primeira vista, um prato de arroz recoberto de um molho marrom dourado de onde emergem pequenos pedaços de carne.

Eis a iguaria, aliás suculenta e gostosa, que figura, não raro, à mesa das brasileiras tradicionais de classe abastada que com ela se regalam, embora entre chacotas destinadas a salvar as aparências e o amor-próprio.

Um operário de grande apetite contenta-se, para sua refeição, com uma porção de três vinténs e pode-se comparar a menor porção, de um vintém, suficiente para um indigente ou um garfo menos respeitável, a duas colheradas comuns.

As vendedoras de angu são encontradas nas praças ou em suas quitandas que também vendem legumes e frutas. A venda começa de manhã lá pelas seis horas e vai até à dez, continuando de meio-dia às duas, hora em que se reúnem em torno delas os operários escravos que não são alimentados por seus senhores. Vê-se também o escravo mais ou menos mal vestido de uma família numerosa e pobre levar consigo, numa sopeira, uma porção de quatro vinténs, recoberta por uma folha de couve ou de mamona. Acrescentando a esse prato suculento algumas bananas tem-se, no Rio de Janeiro, alimento para cinco ou seis pessoas.

Quanto à ceia, já dela falamos quando descrevemos a venda num dia de carnaval.


Descrição da cena

Escolhi para cenário a praia do mercado de peixes (Praia do Peixe), naturalmente muito movimentada por se encontrar, além do mais, nas proximidades da Alfândega. Vê-se, ao fundo, a Ilha das Cobras. E no plano recortado pode-se distinguir uma barca de pescadores, com um resto de peixes de qualidade inferior, e que serve de venda improvisada aos negros da barca, abastecendo com sua lamentável mercadoria as negras, os consumidores econômicos e os vendeiros.

São sete horas da manhã, hora propícia às vendedoras de angu, fornecedores privilegiados do vendeiro e do freqüentador nômade da praia do Peixe. As duas negras, que aqui se acham acampadas à sombra de seus xales estendidos sobre varas, servem no momento os fregueses de maior apetite, isto é, os negros da Alfândega. Um destes, sentado no primeiro plano, leva à boca um suculento bolinho de farinha de mandioca, previamente amassado entre os dedos; como seu companheiro, teve o cuidado, cuja importância lhe é sempre lembrada, de preservar a cabeça dos raios do sol a fim de evitar uma hemorragia ou um ataque de febre quente (1). No mesmo plano, do outro lado, uma vendedora de tomates, freqüentadora assídua do mercado de peixe, de xale à cabeça e colher na mão, almoça com mais decência, sentada no seu banquinho.

Quanto às cozinheiras, aquela cuja farinha de mandioca está sendo mexida por um negro, parece ser do Congo, a julgar pela cabeça raspada e a disposição particular do turbante; a outra, de origem mais distinta e de maior fortuna, ostenta o luxo de um turbante branco. Mais graciosa do que a companheira, apesar de sua dor de dentes, serve o angu dourado com notável destreza.

Entre os fregueses, um segura uma metade de cabaça, modesto recipiente a que se dá o nome de cuia, e um simples negro de ganho, chegado por último, aguarda pacientemente sua vez, com um cesto pendurado aos ombros.


Nota:

1. Insolação

(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil)

Topo

Jangada Brasil © 2000