
É ainda na classe das negras livres que se encontram as
cozinheiras vendedoras de angu. Para o exercício dessa indústria suplementar,
bastam-lhes duas marmitas de ferro batido colocadas sobre fornos portáteis; um pedaço de
pano, de lã ou de algodão, por cima da tampa de cada marmita, completa o aparelhamento
culinário, a que se acrescentam duas grandes colheres de pau de cabo comprido. Conchas
grandes e chatas e cacos de barro fazem as vezes de pratos para os transeuntes que se
lembram de parar, e uma concha volumosa de marisco serve de colher.
O angu, iguaria de consumo generalizado no Brasil, e cujo nome se dá também à farinha
de mandioca misturada com água, compõe-se, no seu mais alto grau de requinte, de
diversos pedaços de carne, coração, fígado, bofe, língua, amídalas e outras partes
da cabeça à exceção do miolo, cortados miúdo e aos quais se ajuntam água, banha de
porco, azeite dendê cor de ouro e com gosto de manteiga fresca, quiabos, legume
mucilaginoso e ligeiramente ácido, folhas de nabo, pimentão verde ou amarelo, salsa,
cebola, louro, salva e tomates; o conjunto é cozido até adquirir a consistência
necessária. Ao lado da marmita do cozido, a vendedora coloca sempre uma outra para a
farinha de mandioca molhada. A mistura, servida convenientemente, lembra à primeira
vista, um prato de arroz recoberto de um molho marrom dourado de onde emergem pequenos
pedaços de carne.
Eis a iguaria, aliás suculenta e gostosa, que figura, não raro, à mesa das brasileiras
tradicionais de classe abastada que com ela se regalam, embora entre chacotas destinadas a
salvar as aparências e o amor-próprio.
Um operário de grande apetite contenta-se, para sua refeição, com uma porção de três
vinténs e pode-se comparar a menor porção, de um vintém, suficiente para um indigente
ou um garfo menos respeitável, a duas colheradas comuns.
As vendedoras de angu são encontradas nas praças ou em suas quitandas que também vendem
legumes e frutas. A venda começa de manhã lá pelas seis horas e vai até à dez,
continuando de meio-dia às duas, hora em que se reúnem em torno delas os operários
escravos que não são alimentados por seus senhores. Vê-se também o escravo mais ou
menos mal vestido de uma família numerosa e pobre levar consigo, numa sopeira, uma
porção de quatro vinténs, recoberta por uma folha de couve ou de mamona. Acrescentando
a esse prato suculento algumas bananas tem-se, no Rio de Janeiro, alimento para cinco ou
seis pessoas.
Quanto à ceia, já dela falamos quando descrevemos a venda num dia de carnaval.
Descrição da cena
Escolhi para cenário a praia do mercado de peixes (Praia do Peixe), naturalmente muito
movimentada por se encontrar, além do mais, nas proximidades da Alfândega. Vê-se, ao
fundo, a Ilha das Cobras. E no plano recortado pode-se distinguir uma barca de pescadores,
com um resto de peixes de qualidade inferior, e que serve de venda improvisada aos negros
da barca, abastecendo com sua lamentável mercadoria as negras, os consumidores
econômicos e os vendeiros.
São sete horas da manhã, hora propícia às vendedoras de angu, fornecedores
privilegiados do vendeiro e do freqüentador nômade da praia do Peixe. As duas negras,
que aqui se acham acampadas à sombra de seus xales estendidos sobre varas, servem no
momento os fregueses de maior apetite, isto é, os negros da Alfândega. Um destes,
sentado no primeiro plano, leva à boca um suculento bolinho de farinha de mandioca,
previamente amassado entre os dedos; como seu companheiro, teve o cuidado, cuja
importância lhe é sempre lembrada, de preservar a cabeça dos raios do sol a fim de
evitar uma hemorragia ou um ataque de febre quente (1). No
mesmo plano, do outro lado, uma vendedora de tomates, freqüentadora assídua do mercado
de peixe, de xale à cabeça e colher na mão, almoça com mais decência, sentada no seu
banquinho.
Quanto às cozinheiras, aquela cuja farinha de mandioca está sendo mexida por um negro,
parece ser do Congo, a julgar pela cabeça raspada e a disposição particular do
turbante; a outra, de origem mais distinta e de maior fortuna, ostenta o luxo de um
turbante branco. Mais graciosa do que a companheira, apesar de sua dor de dentes, serve o
angu dourado com notável destreza.
Entre os fregueses, um segura uma metade de cabaça, modesto recipiente a que se dá o
nome de cuia, e um simples negro de ganho, chegado por último, aguarda pacientemente sua
vez, com um cesto pendurado aos ombros.
Nota:
1. Insolação
(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao
Brasil) |
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