Janeiro Borralho
Brasido coberto de cinzas.
O dia inteiro, É o meu serviço Costumeiro. Não largo dele, Nem por nada, Só para ganhá Muito dinheiro. (Maria da Penha, limpadora de vidros de Botucatu)
Por toda parte da Terra
(In CAMPOS, Humberto. O Brasil anedótico) |
O CAUSO DO PALETÓ FURADO Noite de lua fraca com nuvens dançando no céu ora clareando, ora escurecendo o mundo. Totonho ia andando estrada a fora, vindo de um casamento, em plena madrugada. Paletozinho branco refletia um ou outro raio da lua. Assim que chega à encruzilhada, no meio do capão de mato, Totonho sente a dor de barriga. Comera alguma coisa estragada lá no casório. Só podia. Solução era fazer o serviço por ali mesmo. Pra não correr o risco de sujar o paletó de estimação, pendura-o num galho de assa-peixe na beira da estrada e pula a cerca para se aliviar no meio do pasto. Só que o Ludovico também vinha da festa, todo distraído. Quando avista aquela coisa branca, balançando no ar, ao sabor do vento, não teve dúvida: é alma penada. Arrancou o trabuco da cintura e pregou fogo no troço que parecia ser coisa do outro mundo. Totonho, que estava todo tranqüilo fazendo seu serviço, apronta o maior berreiro enquanto as balas zuniam nos seus ouvidos. Levanta, com as calças arriadas, bunda de fora e sem se limpar. Dá o maior sermão no Ludovico e conclui: - Pió de tudo, Ludovico, é meu palitó todo cheio de buraco! Agora, como é que vou arrumá namorada com essa peneira que virô meu palitó?
CADA UM ENGOLE O SAPO QUE LHE CABE Honorina tava casada pra mais de dez anos com o Gedeão. Vida dura pra cuidar da vida e dos quatro filhos. Nessa labuta toda, eis que chega a televisão em Tabuí. Com muita dificuldade, Gedeão consegue comprar um aparelho de TV com prestações a sumir de vista. - É pra mode a muié vê as novela! O homem era preocupado com a mulher que só vivia dentro de casa. Queria arrumar um pouco de diversão para ela. E Honorina se encanta com as novelas. E dana a ter maus pensamentos com aqueles moços que ela via todos muito bonitos, bem nutridos, cabelos bem cuidados, bem vestidos, etc. e tal. Aí Honorina descobre que o marido Gedeão não era o príncipe com quem sonhara. Ainda mais vendo aqueles moços... Cabeça de Honorina entra em parafuso. Passa a sonhar acordada com os moços da novela mas só tem dentro de casa aquele marido. Deixa de cumprir suas obrigações com o Gedeão, esquece de dar comida aos filhos, não passa mais roupa... a vida de todos naquela casa vira desassossego. Aí, consciência pesada, o organismo não agüenta o tranco. Fica doente. O estômago começa a falhar. Azia, queimação, enjôo, até que chega a gastrite. - Muié, amanhã vô te levá lá no médico! Médico diz que o problema é de cabeça. Aconselha Honorina a fazer umas sessões de psicoterapia pra pobre que ele mesmo organizava. Lá Honorina se abre. Conta dos seus sonhos e descobre que muitas outras companheiras também sonham com os galãs das novelas mas têm em casa maridos feios, barrigudos, carecas, infiéis, mulherengos, mal educados, briguentos... Aí médico as convence, depois de muita conversa, de que não adianta ficar sonhando. E dá pra elas três sugestões, já que nenhuma está satisfeita com o marido: abandoná-lo, dar um tiro no ouvido ou chegar à conclusão de que têm em casa não é um príncipe e sim um sapo mesmo. Têm que aprender a conviver com aquele sapo, com o brejo e com tudo o mais. Caso contrário aqueles problemas de saúde que estão sentindo podem ter conseqüências mais graves. - Viu, dona Honorina? A gastrite pode virar úlcera que é muito pior, tá bem? Médico fez milagre. Honorina baixou a cabeça, caiu na realidade e foi pra casa viver com seu sapo. Livre dos problemas estomacais.
O PREFEITO E A PROVIDÊNCIA Prefeito de Tabuí era uma negação. Nenhum progresso trazia pra cidade que parecia caranguejo. Só ia pra trás. Entrava ano, saia ano e Tabuí continuava na mesmice de sempre. Nas redondezas aquela terrinha começou a ser chamada de "já teve". Já teve campo de futebol, já teve rodoviária, já teve escola municipal boa, já teve zona decente... Um dia prefeito recebe uma reclamação: - Sô prefeito, o teto do grupo caiu! - Que grupo, meu fio? - O grupo, sô prefeito! O grupo escolá! L'adonde a gente aprende a lê! - Ah, bão! Dexa comigo que vô tomá providência! Tomava providenciamento nenhum. Esquecia. Ia pra casa, escondia dos problemas e não dava mais o ar da graça. - Prefeito, a ponte do corgo seco quebrô! - Quebrô? Pode deixá! Vô tomá providência! - Prefeito, a gente picisa duma iscola no Pindura Saia! Dá um jeitinho! - É cumigo memo! Vô tomá providência! Povo foi ficando chateado. Nervoso. Revoltado até com o descaso do prefeito. O homem não queria nem saber quem lustrou as costas da barata e nem quem botou fogo no inferno. Vivia encafuado dentro de casa. Vez ou outra é que apontava o nariz. Bastava ouvir reclamação sumia de novo. E ainda dizia que ia tomar providência... O caso ficou mais sério no dia da enchente. Rio Sorongo não deu conta de segurar aquele aguão todo dentro das suas caixas. Entornou água na metade da cidade. De quebra lavou tudo no cemitério. Era defunto boiando, esqueleto escorrendo rua a fora, caveira descendo ladeira abaixo... tanta mortaria pelas ruas que arrepiava até cachorro vira-lata. O defunto da gorda Dorotéia, enterrado dois dias antes do dilúvio, deu o maior trabalho pra ser encaixado de novo na sua última morada. Continuou teimosa na morte como o foi em vida. E o prefeito dizendo: - É comigo memo! Deixa que tomo providência! Povo desorientado resolveu tirar o desgramado do prefeito de dentro do seu esconderijo. Alguns cidadãos mais indignados invadiram a casa da autoridade. Tava lá o homem, num quartinho dos fundos, só de cueca, cercado de garrafas vazias, num porre danado e tomando mais uns goles de Providência, a famosa pinga do vale do Sorongo. (Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil) . Cão que ladra também morde. Cachorro não
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