| A noiva do defunto Personagens:
Velho
Filha
Criado (cômico)
Noivo
(Abre-se a cortina, cena vazia, entram filha e velho)
Filha:
- Ah papai, como estou contente, até que enfim vou conhecer meu noivo, e vou casar-me.
Velho:
- É minha filha, eu pensei que casamento por correspondência não dava certo, mas dá
sim.
Filha:
- Nem acredito papai, nem acredito!
(Entra o criado com uma vassoura nas mãos, de avental, gritando)
Criado:
- Véio! Véio do céu!
(O velho corre atrás do criado até se encontrarem no centro do palco)
Velho:
O que foi, idiota, fale, fale!
Filha:
Fale, anda, o que foi?
Criado:
Véio do céu, é mau agouro, vai acontecer alguma coisa ruim, véio do céu.
Velho:
O que vai acontecer!
Criado:
Uma borboleta preta, deste tamanho, véio!
(Exagera)
Velho:
Borboleta deste tamanho não existe!
Criado:
Bem, era menor, mas que era grande, isto era; e era preta véio, ela entrou no
quarto da menina.
Filha:
No meu quarto? E você, o que fez?
Criado Eu entrei atrás dela, levantei a vassoura devagar, devagar!
(Velho e filha falam juntos)
- Já sei, matou a borboleta!
Criado:
Não véio, ela fugiu para o escritório, ei fui atrás, devagarinho, devagarinho!
Velho e filha:
Matou a borboleta!
Criado (chorando):
Não, véio do céu, a borboleta sai e eu quebrei o tinteiro, foi tinta para todo
lado, véio do céu, borboleta preta, tinta esparramada, é azar, véio, é mau agouro!
Velho:
Que azar que nada, não fale bobagens!
Filha:
Falando uma bobagens destas, justo agora que vai chegar o meu noivo, Benjamim Galo!
Criado:
Falando no seu noivo, eu tenho um negócio para entregar para você! (procura
em todos os bolsos até encontrar) Ah, está aqui.
(Velho e filha abrem aflitos o telegrama e o velho lê)
Velho (lendo):
Chego hoje, Benjamim Galo.
Filha:
- Ai papai, chega hoje, meu noivo, que bom! Vou casar papai!
Criado:
Ô menina assanhada.
Velho:
Este telegrama você recebeu hoje?
Criado:
Foi hoje, quer dizer, não foi hoje, foi ontem, ontem não, foi tráz de ontem
ontem!
Filha:
Ai papai, já faz três dias que ele recebeu o telegrama, papai, meu noivo vai
embora, nem vou casar mais (chora)
Velho:
Não chora filhinha! (bravo, dirige-se ao criado) E você, seu imbecil,
seu idiota, vá até o hotel da estação e traga para cá, o senhor Galo.
(Criado vai saindo e volta-se, perguntando)
Criado:
Véio, quer que eu traga também a galinha?
Velho:
Idiota, Galo é o nome do homem, Benjamim Galo, imbecil.
Criado:
Vou num pulo, véio, vou agora mesmo. (Sai)
Filha:
Ah papai, que bom que ele veio, estou tão feliz, vou me casar.
Velho:
Eu também!
Filha:
O que papai?
Velho:
Eu também estou feliz!
Filha:
Papai, vamos arrumar o quartinho lá de dentro, que é para quando meu noivo
chegar, descansar da viagem!
Velho:
Vamos sim filha, vamos. (Saem)
(Palco vazio, aparece em cena o irmão gêmeo do noivo, abatido, olha para os lados,
bate na porta, não vê ninguém, entra)
Irmão:
Como vou explicar à noiva do meu irmão, o que aconteceu! Coitada, ela o está
esperando para se casarem e agora com o seu falecimento, assim de repente ao chegar a
cidade! (Fala) oi de casa! (Ninguém aparece) Bem vou
esperar até que apareça alguém.
Velho (Entrando):
Meu amigo! (Aproxima-se)
Irmão meu senhor, muito prazer, eu vim aqui para explicar.....
Velho (Interrompendo-o):
Já sei, foi uma pena, mas o nosso empregado é um idiota, ele não entregou a
tempo o seu telegrama.
Irmão:
Mas sabe, é o seguinte!
Velho (Não deixa ele falar):
- Já sei...
Filha (Entrando):
Papai, papai, sabe! (Olha um retrato e diz) É ele, é ele!
(O pai vai ao seu encontro tentando disfarçar empurra a moça para cima do rapaz
dizendo)
Velho:
Abraça, menina, anda!
Filha:
Meu querido (Confusa)
Irmão (Tentando explicar-se):
É que eu...
Velho (Interrompendo-o):
Já sei, já sei, esta cansado da viagem, vamos filhinha , vamos levar o moço para
descansar.
(Vai empurrando o moço que insistentemente quer explicar-se, mas não consegue, e vai
girando, sendo empurrado pelo velho e pela filha)
(Voltam em seguida, velho e filha)
Filha:
Pronto, papai, ele está descansando, que bom!
Velho:
Quando levantar-se, tomará um lanche, pois eu acho que ele está muito abatido.
Filha:
Ah, papai, deve ser da viagem!
Velho:
O que será que toda hora ele queria explicar!
Filha:
- Ah, nada! O que precisa é mandar buscar sua bagagem lá no hotel.
Velho:
Ah, isto é preciso mesmo, vou mandar buscar!
Criado (Entrando, apavorado, gritando):
Véio do céu!
(Criado correndo, o velho atrás, encontram-se no centro do palco novamente)
Velho:
Que foi idiota? Fale.
Criado:
- Véio do céu, o Galo, véio.
Filha:
- O que tem ele?
Criado (Chorando):
Coitadinho, véio do céu.
Velho:
Fale o que aconteceu idiota.
Criado:
Lá no hotel da estação, o galo na mesa!
Velho:
Já sei, fizeram um galo para jantar.
Criado (Choroso):
Não véio, quatro velas, o galo morto na mesa.
Filha (Ri):
Ora essa!
Criado:
Enlouqueceu!
Velho (Rindo):
Você tem cada uma!

Criado:
Enlouqueceu também, coitado!
Velho:
Você esta louco é?
Criado:
Telefona para o hotel e pronto.
Velho (Vai ao telefone):
Qual é mesmo o número do hotel?
Criado:
Quatro quatro quatro, quarenta e quatro.
Velho (Discando e fala preocupado):
- Alô, é do hotel da estação? Eu queria saber se está hospedado aí, o industrial,
Benjamim Galo? (Pausa) O que?... sim... no jornal...
(Desliga aos poucos o telefone) É verdade, ele morreu, está no jornal.
(Correm todos para o jornal, rasgando-se na confusão, criado com um pequeno pedaço
que lhe restou nas mãos grita)
Criado:
Está aqui!
(Pai e filha largam seus pedaços de jornal e correm até o criado para lerem a
notícia).
Criado está aqui, olhe, Galo, azeite galo! |

(Velho e filha irritados voltam a
pegar seus pedaços de jornal que se encontram no chão, dizendo)
Velho e filha:
Idiota!
Velho (Lendo o jornal):
Está aqui! Faleceu de colapso cardíaco, ao chegar nesta cidade, grande
industrial, Benjamim Galo.
Filha (Chorando):
Ai papai do céu.
Velho:
Filhinha ele está morto!
Criado:
Está sim, eu vi. (Vai saindo para o lado do quarto)
Velho:
Ele está aí!
Criado (Assustado):
O que?
Velho:
Ele veio aqui! Bem que ele queria avisar alguma coisa!
Filha:
Coitadinho, ele queria avisar alguma que estava morto papai, mas ele não pode
ficar aqui, precisa ir para o seu lugar.
Criado:
O cemitério.
Velho:
O que podemos fazer?
Filha:
Oração! Eu vou invocar o seu espírito e todos nós rezaremos por ele! Tudo que
eu falar, vocês repetem (Coloca-se à frente dos dois e todos concentram-se)
Benjamim Galo!
Velho e criado:
Benjamim Galo.
Filha:
Se és alma penada, do outro mundo...
Velho e criado:
Se és alma penada de outro mundo ....
Filha:
Apareça!
Criado e velho:
Apareça!
(Irmão aparece, todos estremecem).
Irmão:
Eu queria avisar, agradecendo a hospitalidade da casa, convidando-os para o enterro
que será agora ás quatro horas e queria saber quem vem comigo. (Aponta para o velho)
- O senhor?
Velho (Trêmulo):
- Não senhor!
Irmão (Irmão aponta para o criado):
- O senhor!
Criado:
Não senhor!
Velho (Para o criado):
Ele sabe que está morto.
Criado:
- E eu tou, morre, não morre, véio.
Irmão (Para a filha):
A senhorita, seria obrigada a me acompanhar, vem comigo?
Filha:
- Não senhor! Deixa para outro dia!
Irmão:
Bem, já que ninguém quer ir comigo eu vou só, o enterro é às quatro horas e eu
já estou atrasado, até logo.
(Vai estender a mão, todos encolhem-se amedrontados, estende novamente a mão umas
três vezes e sai)
Criado:
Ai, véio do céu, ele foi embora, queria levar todo mundo com ele, eu nunca vi um
defunto assim insistente, véio.
Velho:
Precisamos desinfetar o quarto dele, vamos lá (Ao criado) Você
vai na frente!
Criado (Faz menção de ir, arrepende-se e volta):
- Eu não véio, sou alérgico a defunto, vai você véio.
Velho:
Eu não posso! Vamos todos juntos.
(Fazem fila, o criado na frente, vão em direção do quarto, quando o criado percebe
que está indo na frente, volta-se e vai para o fim da fila e por fim vão entrando para o
quarto, dizendo)
Todos:
Psiu!
Irmão (Entrando):
Bem, já foi o enterro, agora vou me despedir desta gente tão simpática, a
hospedagem que me deram, afinal ela era a noiva do meu irmão. Vou agradecer e me despedir
e depois irei embora, (Olhando) mas não vejo ninguém aqui, vou ver se
encontro alguém. (Sai pelo lado contrário por onde saíram os outros)
Velho (Entrando na frente):
Ah, está desinfetado!
(Noivo voltando encontram-se no centro do palco, velho se assusta e sai correndo.
Nisto entra o criado e também sai correndo)
Irmão:
Eu não posso entender o que está acontecendo aqui, é verdade que eu estou um
pouco abatido, mas será que eu estou tão feio assim, que estou assustando todo mundo?
(Filha entra distraidamente e quando vê o irmão cai desmaiada no sofá)
Irmão:
Senhorita, senhorita, ah, sua mão está gelada, eu vou buscar alguma coisa para
reanimá-la.
Criado (Entra olhando por todos os cantos meio assutado, vê a moça no sofá e sai
gritando):
- Véio do céu, a menina morreu, véio!
Irmão (Faz a moça cheirar o lenço, chamando, tentando reanimá-la):
Senhorita!, senhorita!
Filha (Acordando):
Ah, mas o senhor outra vez, eu rezei pelo senhor, eu prometo que vou levar flores,
que flor o senhor prefere? Eu levo toda semana, todo dia, mas por favor, me deixa em paz.
Irmão:
Senhorita, está havendo um engano, quem morreu não foi eu, mas o meu irmão.
Filha:
O que?
Irmão:
Eu estou vivo, bem vivo.
Filha:
Não!
Irmão:
É , eu estou vivo, toque na minha mão!
(Filha pega devagarinho na mão do irmão)
Irmão:
Está vendo, está sentindo, estou vivo, não sou defunto.
Filha (Segurando sua mão):
É mesmo, desculpe, sim?
Irmão:
Eu entendo, vamos fazer uma coisa, vamos lá fora tomar um pouco de ar que eu lhe
explicarei tudo.
Filha:
Vamos sim, porque não! (Vai saindo na frente)
Irmão (Saindo, pára na porta, olha para o alto e fala para si mesmo):
- Desculpe, meu irmão, mas vou avançar no seu material. (Sai).
Velho (Entrando justamente com o criado):
Onde está a menina?
Criado:
Aqui! (Olha para o sofá e assusta-se) Véio do céu, ela estava
aqui, morta, mortinha, eu vi, agora já não sai mais nada (Vai saindo para a porta e
solta um grito) Véio do céu os dois defuntos passeando de mãos dadas no
jardim, estão vindo pra cá, véio do céu, estão chegando. (Sai correndo).
Velho (Tentando sair correndo, não dá tempo, os dois aparecem na porta)
Filha:
Papai.
Velho:
Filhinha querida, vai para o seu lugar com o seu noivo, sejam muito felizes.
Filha:
Papai!
Irmão:
Nós estamos vivos!
Velho:
Defunto vivo, quer me enganar!
Irmão:
Sabe, eu e a sua filha resolvemos que vamos... porque quem morreu foi o meu irmão
que era gêmeo comigo.
Velho:
O que? Isto verdade?
Irmão:
É, pode apertar a minha mão.
Velho (Depois de apertar a mão):
- Mas imagina então, seu irmão? Eu queria avisar isto para todo mundo, mas sabe, esta
gente é medrosa que só vendo! Imagina, estavam morrendo de medo do senhor.
Irmão:
Eu sei!
Velho:
Se eu não fosse valente, eu não sei o que seria do pessoal desta casa.
(Criado, entrando, vê todos conversando, faz menção de sair correndo, mas o velho o
chama)
Velho:
Anda, venha apertar a mão do noivo da minha filha.
Criado (Depois de muita hesitação cumprimenta e fala):
Este pessoal é medroso, estavam com medo do senhor, se não fosse eu!
Irmão:
Bem, eu queria pedir ao senhor, permissão para me casar com a sua filha.
Velho:
Ora, nem era preciso dizer, já esta concedido, para quando quer marcar o
casamento?
Criado:
Ah, marca para hoje mesmo!
Irmão:
Vamos marcar para... (Para a platéia) vamos marcar para o último
dia nesta praça e todos vocês estão convidados.
(MILITELLO; Dirce (Tangará). Picadeiro) |