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Ir para a página principal UM COMBATENTE ESTRANHO, DE NOTÁVEL BELEZA. SÃO SEBASTIÃO

Entrou Estácio de Sá pelo rio em primeiro de março e, ancorando em na enseada, saltaram em terra, e feitos tujupares, que são umas tendas ou choupanas de palha, para morarem, onde agora chamam a cidade velha, ao pé de um penedo que se vai às nuvens, chamado o Pão de Açúcar, se fortificaram com baluarte e trincheiras de madeira e terra, o melhor que puderam, donde saíam a fazer guerra aos bárbaros, ajudando-os Deus por espaço de dois anos que ali estiveram de modo que em encontros quase sempre saíam vitoriosos e os feridos de mortais feridas das flechas inimigas brevemente saravam. Outros, feridos nos peitos nus com pelouros dos arcabuzes franceses, não sentiam mais o golpe que se estiveram armados de peitos de prova, e aos pés lhes caíam os pelouros.

Cansados já os tamoios de tão prolixa guerra e enfados de ruins sucessos, porque ordinariamente em os encontros saíam escavralados, determinaram lançar o resto de seu poder e de sua ventura em uma batalha, industriados pelos franceses, e sem dúvida a coisa ia traçada para conseguirem seu intento. Porém a Divina Providência se acostou à parte mais justificada.

Haviam os tamoios ajuntado ao número ordinário de suas canoas outras novas que chegaram a cento e oitenta, fabricadas secretamente longe do posto donde estavam os navios dos portugueses. Toda esta armada de canoas puseram em cilada, escondida em uma volta que fazia o mar. Daqui saiu um pequeno número delas, contra as quais mandou o general cinco das nove que trouxe de São Vicente, porque os índios amigos, enfadados da guerra, se haviam já ido com as quatro.

Os tamoios, não ainda bem começada a batalha, viraram as costas, que assim o haviam traçado e meteram os nossos, que atrevidamente os iam seguindo, em a cilada donde saíram as mais canoas inimigas e subitamente as cercaram por todas as partes. Mas nem por isso perderam o ânimo os portugueses, antes resistiram valorosamente ajudados do divino favor, o qual ainda das coisas que parecem adversas sabe tirar prósperos sucessos, como aqui se viu que, acaso acendendo-se a pólvora em uma das nossas canoas, chamuscou a alguns inimigos que a tinham abordada. Com o que e com a chama que levantou a pólvora se alterou tanto a mulher do general tamoio que, dando gritos e vozes espantosas, atemorizou a todos e, sendo seu marido o primeiro que fugiu com ela, os seguiram os mais, deixando livres os nossos, os quais, tornando às suas fronteiras, deram graças a Deus por tão grande benefício, e por os haver livres de perigo tão grande pela voz e assombro de uma fraca mulher, ainda depois que declararam os mesmos inimigos que não fora por isso, senão por haverem visto um combatente estranho, de notável postura e beleza que saltando atrevidamente nas suas canoas os enchera de medo. Donde creram os portugueses que era o bem-aventurado São Sebastião, a quem haviam tomado por padroeiro desta guerra.

[século XVI]
(Frei Vicente do Salvador. In BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond. Rio de Janeiro em prosa e verso)


LENDA DE SÃO SEBASTIÃO

Era junho de 1556. No Rio de Janeiro, Estácio de Sá combatia os franceses e tamoios. A diferença numérica era causa de sucessivos desastres para os portugueses.

O chefe guerreiro Guixara, índio antropófago, preparava uma cilada: à frente iam apenas quatro canoas como chamariz para os portugueses; ao largo, oitenta ligeiras embarcações, de reserva, cairiam sobre eles, fazendo-os prisioneiros ou mortos.

Ia nesse momento, Francisco Velho buscar madeira para construção de uma igreja a São Sebastião, padroeiro da cidade nascente. Os índios saíram-lhe ao encalço. Estácio de Sá, percebendo o incidente, e, com valentes soldados, em quatro canoas apenas, correram a salvar o lenhador. Imediatamente apareceram as canoas restantes.

Entre o céu e o mar, a luta foi terrível. Alguém, caindo de joelhos, ao estouro da pólvora, exclamou:

- Valha-me, ó mártir São Sebastião!

Os tamoios, amedrontados, desertaram, deixando muitas canoas cheias de índios que foram presos.

Depois, os vitoriosos guerreiros, renderam graças a São Sebastião com flores e hinos.

É da lenda, que tenham os tamoios perguntado após o combate:

- Quem era aquele bravo guerreiro que andava saltando em vossas canoas?

Ao que os portugueses respondiam convictos:

- O bravo gentil homem que vistes, era São Sebastião, nosso padroeiro.

(RUIZ, Corina Maria Peixoto. Didática do folclore)

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