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AMULETOS DESCRITOS POR THOMAS EWBANK Usado por ambos os sexos e por todas as idades, os amuletos da igreja defendem de mau-olhado, apartam de casa os demônios e detêm o curso natural das coisas quando desfavoráveis, hoje como antigamente quando a ignorância e a credulidade dominavam o mundo. A variedade em voga inclui numerosos que não pude defrontar em meu caminho. Referir-me-ei aos que pude ver. Podem ser divididos em laicos e religiosos, mas quer uns, quer outros, são de qualquer modo tidos como sagrados, pois que os de origem pagã podem ser bentos. A Igreja, com as melhores intenções mas levada por uma política equívoca, logo sancionou estas coisas, acrescentando-as cada vez mais. Seus templos constituem um mercado para elas e seus ministros grandes negociantes. Poderoso e pode-se dizer que proveitoso meio de manter o domínio sobre os pobres de espírito, ela mantém grande parte dessas invencionices, embora muitas delas se hajam tornado obsoletas, expondo-se à acusação de estar formando enganos que lhe cumpria extirpar. Em todas as festas os amuletos constituem um artigo fundamental da mercadoria eclesiástica. Medidas de santos Essas são fitas, cortadas pelos sacerdotes, no exato comprimento ou altura das imagens, inscrevendo-se nelas seus nomes. Usadas em torno da cintura, bem junto ao corpo, removem dores, doenças e além disto, executam as vontades de quem as leva. As mulheres habitualmente usam as dos santos do sexos delas, embora usem às vezes as de Santo Antônio, São Brás e São Gonçalo. Elas são dotadas de todas as qualidades, para se adequarem às mais variadas circunstâncias da vida. Algumas são de veludo, com imagens de santos gravadas nelas, e outras são pedaços de fita comuns. Recebi uma presente de um sacerdote azul e branca com um metro e vinte de comprimento, com a seguinte inscrição: "M. de N. S. da Ga.", o que quer dizer: Medida de Nossa Senhora da Glória, não a do monte da Glória, pois que ela é trinta centímetros mais alta. A cor varia com os santos. Tive oportunidade de examinar uma menor, uma estreita fita vermelha, abençoada e mandada por um padre ao seu portador no dia seguinte ao da festa do santo. Era usada para combater dor de cabeça, de dente e outras dores. Bastava colocá-la nas partes afligidas e dizia-se que realmente as removia. É coisa em que se pode acreditar. Os amuletos agem de acordo com um princípio reconhecido desde os tempos primitivos: por despertar esperanças, receios, e a fé dos sugestionáveis, vêm obrando milagres através dos tempos e continuarão evidentemente a obra. Não me surpreendi quando há pouco tempo atrás ouvi umas senhoras falarem nas "medidas do Espírito Santo". Respondendo à pergunta que lhes fiz sobre que padrão lhes serviu de ponto de referência, disseram-me "Não obedecem a nenhuma medida em particular, mas sempre se gravam nelas um triângulo e uma pomba e têm sido achadas excelentes para muitas moléstia". Quando E. estava para partir para o Rio Grande, dona C. deu-lhe uma, dizendo que era muito boa para o enjôo do mar. Tendo apanhado um resfriado, acompanhado de rouquidão. S. ofereceu-se para procurar-me alguns dos específicos de São Brás: "Deves ter fé nele senão lhe fará mal". Este médico santo é celebrado pelo tratamento bem logrado das afecções brônquicas. Poucos dias antes, um padre havia tomado as suas medidas com um arame fino. Providenciou bom número dessas medidas, como ainda fitas verdes. No dia de sua festa, são distribuídas aos contribuintes, dando-se uma gravura a um, uma vela a outro, uma medida a outro, e talvez uma de cada a quem for mais liberal. As instruções são: ponha a fita em torno do pescoço e coloque um retrato do médico sobre a mesa, acenda uma vela, coloque-a diante do retrato e a cura não tardará. Penso que estas frioleiras continuam sendo cultivadas por alguns espíritos simplesmente por uma questão de hábito; em outros, pela idéia de que, se errôneas embora, correspondem a uma gentileza para com Deus e os santos e por esse lado podem ser aceitáveis. Se Plutarco houvesse escrito ontem, ele não poderia incentivar o seu povo melhor do que o fez em sua vida de Nícias: "O povo não gosta dos filósofos naturais, supondo que eles detratam o poder divino e a providência, referindo as coisas a causas insensíveis, a poderes ininteligíveis e à inevitável necessidade". Que pessoas com males nervosos e constitucionalmente impressionáveis tenham sido beneficiadas por toques reais, dedos mesmerizadores, é indiscutível. Estabelece-se o fato de que uma fé forte, no caso de doenças ligadas a certos temperamentos, pode curar tudo o que pode ser curado através da imaginação. A virtude do toque do rei Pirro residia no dedo máximo de seu pé direito. Plínio e Plutarco reportam-se a suas curas. Sua natureza era tão divina que nem a morte teve poder sobre ela, tanto que foi depois da morte que seu dono conservado no templo e os doentes continuaram recorrendo a ele. Bentinhos Suponho que dificilmente pode-se encontrar uma mulher católica no Brasil, da imperatriz até a uma negra, que não se defenda contra inimigos invisíveis, usando, em contato com sua pessoa, um par ddestas diminutas couraças. Um amigo conseguiu-me um par da mais estimável das fábricas do convento de Santa Teresa. Duas almofadinhas bordadas, retangulares, de quatro centímetros de lado, unidas por um fio duplo de seda. Numa delas está Nossa Senhora do Carmo e o menino e na outra uma figura de flor. Passando os fios pela nuca, uma delas fica sobre o peito e a outra nas costas, assim protegendo quem a leva, de frente e por trás. Grande número delas são importadas de Roma. [1846] (EWBANK, Thomas. A vida no Brasil) |
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