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Ir para a página principal OS QUINTAIS BELEMENSES

Onde se sente melhor a integração de Belém à natureza é no quintal, ponto de confluência entre o sítio (ontem, a rocinha) e a casa urbana. Parece que esta não quis se desligar, de todo, daquele ambiente de pomar, ou simplesmente de mato, das antigas propriedades rurais. O quintal tornou-se componente do paisagismo urbano belemense e até do brasileiro. Não esqueçamos a frase de certo autor nacional que atribuiu às obras de Machado de Assis uma "casa sem quintal", ou seja a quase nenhuma paisagem nos romances do criador de Capitu.

O quintal, saudavelmente rurbano, como diria mestre Gilberto Freyre, tem qualquer coisa de quinta portuguesa. Na paisagem macia da terra misturada com verde, no amolecimento e no calor e da luz dos meio-dias de sol. Ensaiando uma fuga para ir de encontro às suas origens no tempo e no espaço. Não é à toa que a palavra quintal deriva de quinta.

Os quintais belemenses possuem sentido mais humano, de utilidade caseira, do que estético. Na desarrumação, na espontaneidade das árvores sem disciplina, nos arbustos nascidos ao léu, reside o seu encanto. Ordenar esse tumulto resultaria no convencionalismo de um parque, perdendo o quintal a sua graça, o seu aspecto de meio mato e meio pomar.

Raimundo Morais, integrado na paisagem amazônica, durante toda a sua vida, escreveu este verbete, em seu Dicionário de cousas da Amazônia: "Quintal – Terreno aos fundos, ao lado ou ao redor da casa".  Baldio ou com pomar, quase todas as residências amazônicas, mesmo nas capitais, o possuem. Em geral as senhoras preferem as moradias que têm quintais. Quando escolhem casa para se mudar predomina, na preferência, o quintal. "A casa é boa, meu velho, mas não tem quintal. Onde vou criar minhas galinhas, meus perus, minhas picotas, meus xerimbados? Vamos ver outra que tenha quintal." (Modernamente, devido à atração do edifício de apartamentos, diminui, um pouco, essa preferência).

Existem muitos quintais em Belém. Grandes e pequenos. Não há fundo de casa fim-de-século que se respeite sem deixar de exibir o seu quintal, onde a família costuma fruir os recantos de sombra, em reunião com amigos. Sentados em cadeira de balanço, para conversar e até fazer refeições. Clima de piquenique.

Os sobrados coloniais, na maioria, esqueceram o quintal. Quando muito, um pátio interno, que recorda influências mouriscas. Grande parte deles só possuía salas, alcovas, quartos espaçosos. Ausência de ambientes que pusessem a família em contato com a natureza. O exemplo disto são as construções antigas da Cidade Velha, onde raro o sobrado com quintal: e se existe é porque o proprietário adquiriu, modernamente, prédio velho ou terreno baldio e transformou o espaço em quintal.

Contudo, não foi regra geral. Em casa de um só pavimento o quintal às vezes estava presente. O português, saudoso das quintas na mãe-pátria, procuraria criar no ambiente urbano de Belém algo de traços comuns. Ora, no século XVIII, certo morador reclamava contra ato do Governador Cristóvão da Costa Freire, que ocupou, em nome do estado, "suas casas e quintais" no atual largo do Carmo. "Largos quintais", frisava o reclamante.

Na rua Siqueira Mendes o turista observará o artifício de situar as casas e sobrados com fundos para o rio Guamá, que funciona no sentido de perspectiva visual como se fosse um grande quintal. Essa rua, a primeira aberta pelos portugueses com o nome de rua do Norte, é a mais típica da Cidade Velha, sendo um exemplo histórico da atsmofera urbano-social das primeiras eras de Belém.

Expandindo-se o aglomerado humano, nos mil setecentos e mil oitocentos, para o bairro Campina, a urbs absorveu as rocinhas da estrada de Nazaré, e a população se apegou às plantas e às árvores frutíferas, ao bom costume de se associar à natureza. A vida assim corre mais amena e mais sadia. As crianças ganham espaço e inúmeras sugestões para os seus divertimentos: é o bate-bola, é a brincadeira de roda, é o jogo da "macaca", além das traquinagens no galho das árvores. Colhendo frutos, espiando o vizinho, judiando com a criação.

O inglês Bates, falando da rocinha em que se hospedara (no local onde mais ou menos hoje está a Rádio e TV Marajoara), recordou os "luxuriantes jardins emsombrados" que formavam "o quintal recentemente roubado à floresta, plantado de árvores frutíferas e de pequenos trechos de roças de café e mandioca". Aí está a evolução do paisagismo belemense: a floresta em rocinha, esta, de condição rural, passando para o meio urbano, diminuindo de área, até se tornar casa de cidade com apêndice de campo: o quintal.

No fim dos oitocentos e começo dos novecentos foi construído elevado número de casas com quintas. Na avenida São Jerônimo, na avenida Nazaré, no bairro do Umarizal, no de Batista Campos, no Marco da Légua, no Souza, e em outros pontos. Casas de que já vos falei no capítulo Arquitetura fim-de-século. Raras, entre elas, as que não apresentam quintais.

Não há menino belemense, de passado relativamente recente, que vivesse os seus dias infenso aos atrativos do quintal. Mesmo os meninos de agora, apesar das novas modalidades de habitação introduzidas pelo arranha-céu. E como é agradável a gente ainda poder ver as mangueiras, as bananeiras, as caneleiras, os coqueiros, as caramboleiras, os cajueiros, transpirando seiva e odores, oferecendo flores, frutos, expondo seus passarinhos coloridos e cantantes! Se até o carioca Vinicius de Moraes, saudoso de sua vida de menino na Ilha do Governador, achou jeito de encaixar naquele poema em que pergunta uma série de coisas ao milionário norte-americano Mister Buster: "O senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?"

A escritora belemense Eneida situa bons momentos de alegria e espontaneidade infantil no grande quintal de sua residência, à rua Benjamin Constant: "começamos a trazer para o nosso quintal todos os garotos da redondeza. Foi instalado um futebol". E aí a menina Eneida e os companheiros de travessuras instalaram o seu feudo (a expressão é da escritora).

E descreve o doce ambiente: "Ao fundo aquela senhora vegetal tão gorda que só ela marcava uma enorme área de sombra no quintal imenso: a mangueira. As outras – abieiros, cajueiros, goiabeiras e caramboleiras, todas as outras eram irmãs e companheiras de travessuras, compartilhavam de nossas ingênuas descobertas".

Existem, como já vos disse, gostosos e amplos quintais em Belém, a exemplo daquele em casa na avenida São Jerônimo, entre a travessa Piedade e a Passagem Bolonha, que além de possuir esplêndida representação vegetal, oferece o atrativo tão próprio ao clima, ou antes, à ecologia tropical: uma piscina, sem requintes de luxo, quase rústica, envolvida pelo verde.

Muita gente conserva o hábito de dormir sesta, aos domingos, debaixo das árvores do quintal,

A rede entre duas mangueiras
Balançando num mundo profundo

como na imagem do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Meninos jogam futebol e fazem as mesmas proezas que a escritora Eneida recriou em seu livro Aruanda. Brinca-se nos quintais, na noite de São João e São Pedro: a fogueira, as sortes, os foguetinhos, as danças de quadrilha, os fogos pirotécnicos, as comidas e bebidas. Tudo é regalo para a vista, espírito, olfato, paladar, nesses amáveis redutos de verde, luz e sombra: os quintais belemenses.

[1963]
(TOCANTINS, Leandro. Santa Maria do Belém do Grão Pará)
 

Ilustração de Percy Lau, in TOCANTINS, Leandro. Santa Maria do Belém do Grão Pará

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