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Destaladeiras de fumo de Arapiraca

Com a expansão da cultura de fumo em Arapiraca, a partir da década de 1920, cresceu, também a necessidade de mão de obra e assim convergiram para Arapiraca trabalhadores de várias regiões do Nordeste, que foram trazendo em suas bagagens, costumes, folguedos, crendices, seitas, cantos, os quais foram se adaptando à primitiva cultura já existente e assim se concentrou um sem número de cantigas que há mais de meio século são cantadas na época da colheita de fumo pelas mulheres que retiram os talos de folhas de fumo as conhecidas destaladeiras de fumo.

Estando o município de Arapiraca, situado no Agreste alagoano, entre a Zona da Mata e a do Sertão, essas regiões muito contribuíram e exerceram grande influência na formação dessas cantigas utilizadas nas colheitas. Na Mata temos o coco, a cantiga de roda, o reisado. No sertão, o aboio, a toada, a cantoria de viola, a cantiga de eito. Todas essas manifestações folclóricas influíram decisivamente na formação das cantigas de salão de fumo que as mulheres entoam, sentadas no chão, afastando o sono enquanto destalam folhas e que, com o passar do tempo, foram adquirindo características próprias, constituindo uma manifestação do povo da região fumageira...

... Entoando essas cantigas, muitas cantadeiras marcaram época nos salões onde cantavam, tirando os versos: Maria de Lima Araújo, Rosa Leite, Detinha, no bairro de Cacimbas. Maria Julieta, Maria Neuza, Amália, Luzia, Rosa Macário, no bairro de Baixa Grande; Joana, Regina, Nina Vital, no Alto do Cruzeiro; Júlia, Rosália, Maria de Lourdes, Angelita, no sítio Mangabeira; Alice Alves, na Lagoa de Pedra; Lourdes Zacarias, Zeza, na Fazenda Pernambucana. Essa cantigas em forma de trovas, (rimas ABCD), sem acompanhamentos musicais, são entoadas em várias vozes, formando um só coro harmonioso no estribilho, com uma só voz no improviso dos versos geralmente tirado pelas líderes do salão. Se o refrão da cantiga agrada em cheio, elas cantam até durante horas; mas, normalmente, as destaladeiras mudam a cantiga para não esfriar o entusiasmo:

Essa cantiga já tá veia
Tá boa de remendá
Com taquinho de pano novo
Uma agúia e um dedá.

E assim elas estimulam cada vez mais, mantém o salão em permanente alegria, evitando o tédio ou o sono, usando sátiras, ironias, chistes, gracejos espirituosos que são mais das vezes interrompidos por uma algazarra geral:

Eu agora vou casá
Se eu casá eu vivo bem
Se eu ficá no caritó
Não é da conta de ninguém

E principalmente versos românticos impregnados de lirísmo, reminiscências puras do romantismo do século passado que o sertão nordestino conservou talvez como nenhuma outra região brasileira e que são geralmente dedicados pelas destaladeiras aos rapazes solteiros – bem amados:

Eu tranquei na mão um riso
De tua boca mimosa
Quando eu fui abrir a mão
Tava toda cor de rosa

Existe ainda os versos que as destaladeiras empregam para chamar alguém, fazer interrupções, pedidos, insinuações, juntos aos proprietários como observamos nessa estrofe:

Feche a porta e abra a porta
Sem bulir na fechadura
Se eu fosse o dono do fumo
Oferecia rapadura

Muitos usados também eram os chamados versos de maltratar que as destaladeiras cantam quando querem xingar alguém que não mais desejam:

Quem quisé comprá eu vendo
Um amor que já foi meu
Uma banda tá inteira
E a outra a barata roeu

Como acontece com várias manifestações folclóricas, as destaladeiras também gostam de render homenagens, fazer louvações a lugares, a proprietários, algum visitante, em versos improvisados nos salões de fumo.

Oh, que estrela tão bonita
Do lado de Murici
Só comparo aquela estrela
Com uma pessoa d’aqui

Nas cantigas das destaladeiras observamos os mais variados temas: do lírico ao sarcástico, do satírico ao irreverente, do espirituoso ao chamado verso de roedeira, que também é conhecido como paixão recolhida.

Quem me dera eu vê hoje
Quem tá em meu pensamento
Meu coração toma um susto
Meu corpo toma um alento

Um fato curioso no entanto, nos chama a atenção nessa pesquisa: não conseguimos registrar um só verso contendo reclamações ou desprezo pelo trabalho, não há lamentações nas cantigas da colheita de fumo, daí concluímos que existe um grande contentamento no ambiente onde elas executam a tarefa.

O galo cantou, cantou moreninha
O dia manheceu, manheceu
Hoje aqui neste salão, moreninha
Quem canta mió é eu

Os temas empregados no apogeu dessas cantigas, nas décadas de 1940 e 1950, retratavam o meio ecológico da época: árvores, frutas, flores, pássaros, açudes, que ainda não tinham sido devastados pelo homem , para dar lugar a cultura de fumo.

Catingueira ramaiúda
Descanso dos passarinhos
Quem me dera eu descansá
Nos teus braços um bucadinho

... também convém ressaltar que muitas dessa cantigas de salão de fumo já foram publicadas, plagiadas e até gravadas com modificação da letra, da música e do ritmo. Mas, essas cantigas são anônimas, produtos da invenção do povo simples da roça.

E assim, as mulheres trabalham melhor durante horas à fio, na destalagem e seleção das folhas para formar o rolo, em salas, salões ou armazéns utilizados para a tarefa. Essas "cantigas de salão de fumo" como são conhecidas em Arapiraca, sempre constituíram uma grande atração na época da colheita, quando um imensa alegria tomava conta dos salões e ouvia-se a longa distância, a cantilena das destaladeiras. É pena que essas cantigas, autênticas manifestações, tão apreciadas pelo povo, não continuem com a mesma freqüência do passado, vítimas que foram à evolução tecnológica implantada na região nos últimos anos da década de 1950, quando em Arapiraca se instalaram importantes firmas internacionais que passaram a explorar o comércio de folhas de fumo, proibindo as destaladeiras de cantar no trabalho de seleção das folhas, alegando que, além de fazerem barulho, diminuíam a produção diária dos armazéns. Hoje, elas trabalham caladas nos armazéns, sem conversar ou fazer qualquer ruído.

As cantigas tiveram seu período áureo nas décadas de 1940 e 1950; até o ano de 1959 as "destaladeiras" cantavam muito nos salões de fumo e se deleitavam, cantando versos de amor o dia inteiro, numa alegria contagiante e que atingia o seu ponto máximo no chamado derradeiro dia de fumo, quando era encerrada a destalação da safra e o patrão oferecia uma buchada de um carneiro gordo, bem como um forró acompanhado ao som de harmônica e muita bebida para comemorar o encerramento da colheita. Foram dias memoráveis os derradeiros dias de fumos nos salões da fazenda Seridó, fazenda Ouro Preto, fazenda Pernambucana. Eram verdadeiras festas, com os salões enfeitados e as destaladeiras bem inspiradas com o vinho, cantando versos de despedida:

Rapaziada adeus, adeus
Adeus, adeus que já me vou
Eu levo pena e saudade
Do moreno que ficou

Adeus Cajueiro
Adeus Cajuí
Adeus que eu vou-me imbora
Para o ano eu volto aqui

Despedida meu bem despedida
A nossa função se acabou
Vamos deixá para o ano
Se nós todos vivo for

 



Veja também:

- Uma seleção de cantos das destaladeiras de fumo.

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