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O MACACO E O RABO
(em duas versões recolhidas por
Sílvio Romero, a primeira em Sergipe
e a segunda em Pernambuco)

I

captux.gif (1654 bytes)m macaco uma vez pensou em fazer fortuna. Para isso foi-se colocar por onde tinha de passar um carreiro com seu carro. O macaco estendeu o rabo pela estrada por onde deviam passar as rodeiras do carro. O carreiro, vendo isso, disse:

- Macaco, tira teu rabo do caminho, eu quero passar.

Não tiro, - respondeu o macaco.

O carreiro tangeu os bois, e o carro passou por cima do rabo do macaco, e cortou-o fora. O macaco, então, fez um barulho muito grande:

- Eu quero meu rabo, ou então dê-me uma navalha…

O carreiro lhe deu uma navalha, e o macaco saiu muito alegre a gritar:

- Perdi meu rabo! Ganhei uma navalha!… Tinglin, tingilin, que vou para Angola!…

Seguiu. Chegando adiante, encontrou um negro velho, fazendo cestas e cortando os cipós com o dente.

O macaco:

- Oh, amigo velho, coitado de você! Ora, está cortando os cipós com o dente… tome esta navalha.

O negro aceitou, e quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

- Eu quero minha navalha, ou então me dê um cesto!

O negro velho lhe deu um cesto e ele saiu muito contente gritando:

- Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

Seguiu. Chegando adiante, encontrou uma mulher fazendo pão e botando na saia.

– Ora, minha sinhá, fazendo pão e botando na saia! Aqui está um cesto.

A mulher aceitou, e, quando foi botando os pães dentro, caiu o fundo do cesto. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:

- Eu quero o meu cesto, quero o meu cesto, senão me dê um pão!

A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito contente a dizer:

- Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto, perdi meu cesto, ganhei um pão… Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!

E foi comendo o pão.

II

ma ocasião achavam-se na beira da estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia:

- Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.

Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse:

- Só te dou, se me deres leite.

– Onde tiro leite? – disse o macaco.

Respondeu o gato:

- Pede à vaca.

O macaco foi à vaca e disse:

- Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.

– Não dou; só se me deres capim. – disse a vaca.

– Donde tiro capim?

- Pede à velha.

– Velha, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o gato me dar o meu rabo.

– Não dou; só se me deres uns sapatos.

– Donde tiro sapatos?

- Pede ao sapateiro.

– Sapateiro, dá-me sapatos, para eu dar à velha, para a velha me dar capim, para eu dar à vaca, para a vaca me dar leite, para eu dar ao gato, para o gato me dar o meu rabo.

– Não dou; só se me deres cerda.

– Donde tiro cerda?

- Pede ao porco.

– Porco, dá-me cerda, para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos, para eu dar à velha, para me dar capim, para eu dar à vaca, para me dar leite, para eu dar ao gato, para me dar o meu rabo.

– Não dou; só se me deres chuva.

- Donde tiro chuva?

- Pede às nuvens.

– Nuvens, dai-me chuva, para o porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar ao gato, para dar meu rabo…

- Não dou; só se me deres fogo.

– Donde tiro fogo?

- Pede às pedras.

– Pedras, dai-me fogo, para as nuvens, para a chuva para o porco, para cerda para o sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para me dar meu rabo.

– Não dou; só se me deres rios.

– Donde tiro rios?

- Pede às fontes

- Fontes, dai-me rios, os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar cerda, a cerda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o gato, o gato me dar meu rabo.

Alcançou o macaco todos os seus pedidos. O gato bebeu o leite, entregou o rabo. O macaco não quis mais, porque o rabo estava podre.

(ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil)

 

Ilustração de Santa Rosa, in ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil



A nota de Luís da Câmara Cascudo:

São exemplos dos cumulative tales, contos acumulativos ou encadeados, comuns à literatura oral européia, africana, asiática. Antti Aarne e Stith Thompson, The types of the folk-tale, 211-212, Helsinki, 1928, registam alguns modelos conhecidos. Publiquei O menino e a avó gulosa (Contos tradicionais do Brasil, 389, Rio de Janeiro, 1946), René Basset, Contes populaires d’Afrique, Guilmoto ed., nº XXXVII e LV, 189, 266, Paris, sd. [1903], divulga duas versões, L’Enfant et l’oiseau, dos Temné, Guiné, perto da Serra Leoa, e Les Échanges, dos Sukuma de Vitoria Nianza, entes repetido na Anthologie Nègre, 208, de Blaise Cendrars, Paris, 1927. Uma variante do número 75, publicou-a Adolfo Coelho, Contos da carochinha, O rabo do gato. IX, Lisboa, 1927, a mesma que Santana Néri traduziu no seu Folklore Brésilien, Le singe et la mandoline. O tipo comum europeu, Paul Sébillot, Contes des provinces de France, 317, Paris, 1920, assemelha-se ao gênero que Basset transcreveu de Hermann. No Brasil, os contos acumulativos são, quase totalmente, vindos de Portugal. Os elementos locais são apenas acréscimos que denunciam a viagem pelas memórias brasileiras. O de Sílvio Romero é conhecido na Europa e África, registado por Wesselski, Taylor, Newell. René Basset regista variantes no Contes berbères, nº 45, Paris, 1887, e Nouveaux contes bèrberes, nº 168, Paris, 1897. O assunto foi tratado, em plano de sistemática, por Stith Thompson, Motif-index of folk-literature, V, 414, Bloomington, 1935, e nos dois estudos de Martti Haavio, Kettenmarchenstudien, v. XXXI, nº 88, XXXV, nº 99, Helsinki, 1929, 1932.

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