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O MACACO E O
RABO
(em duas versões recolhidas por
Sílvio Romero, a primeira em Sergipe
e a segunda em Pernambuco)
I
m macaco uma vez pensou em fazer fortuna.
Para isso foi-se colocar por onde tinha de passar um carreiro com seu carro. O macaco
estendeu o rabo pela estrada por onde deviam passar as rodeiras do carro. O carreiro,
vendo isso, disse:
- Macaco, tira teu rabo do caminho, eu quero passar.
Não tiro, - respondeu o macaco.
O carreiro tangeu os bois, e o carro passou
por cima do rabo do macaco, e cortou-o fora. O macaco, então, fez um barulho muito
grande:
- Eu quero meu rabo, ou então dê-me uma navalha
O carreiro lhe deu uma navalha, e o macaco saiu muito alegre a gritar:
- Perdi meu rabo! Ganhei uma navalha!
Tinglin, tingilin, que vou para
Angola!
Seguiu. Chegando adiante, encontrou um negro velho, fazendo cestas e cortando os cipós
com o dente.
O macaco:
- Oh, amigo velho, coitado de você! Ora, está cortando os cipós com o dente
tome
esta navalha.
O negro aceitou, e quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca
no mundo e pôs-se a gritar:
- Eu quero minha navalha, ou então me dê um cesto!
O negro velho lhe deu um cesto e ele saiu muito contente gritando:
- Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto
Tinglin,
tinglin, que vou pra Angola!
Seguiu. Chegando adiante, encontrou uma mulher fazendo pão e botando na saia.
Ora, minha sinhá, fazendo pão e botando na saia! Aqui está um cesto.
A mulher aceitou, e, quando foi botando os pães dentro, caiu o fundo do cesto. O macaco
abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:
- Eu quero o meu cesto, quero o meu cesto, senão me dê um pão!
A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito contente a dizer:
- Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto, perdi meu
cesto, ganhei um pão
Tinglin, tinglin, que vou pra Angola!
E foi comendo o pão.
II
ma ocasião
achavam-se na beira da estrada um macaco e uma cotia e vinha passando na mesma estrada um
carro de bois cantando. O macaco disse para a cotia:
- Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.
Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio
o carro e passou em riba do rabo dele e cortou. Estava um gato escondido dentro de uma
moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás,
pedindo o seu pedaço de rabo. O gato disse:
- Só te dou, se me deres leite.
Onde tiro leite? disse o macaco.
Respondeu o gato:
- Pede à vaca.
O macaco foi à vaca e disse:
- Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.
Não dou; só se me deres capim. disse a vaca.
Donde tiro capim?
- Pede à velha.
Velha, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, o leite para o
gato me dar o meu rabo.
Não dou; só se me deres uns sapatos.
Donde tiro sapatos?
- Pede ao sapateiro.
Sapateiro, dá-me sapatos, para eu dar à velha, para a velha me dar capim, para eu
dar à vaca, para a vaca me dar leite, para eu dar ao gato, para o gato me dar o meu rabo.
Não dou; só se me deres cerda.
Donde tiro cerda?
- Pede ao porco.
Porco, dá-me cerda, para eu dar ao sapateiro, para me dar sapatos, para eu dar à
velha, para me dar capim, para eu dar à vaca, para me dar leite, para eu dar ao gato,
para me dar o meu rabo.
Não dou; só se me deres chuva.
- Donde tiro chuva?
- Pede às nuvens.
Nuvens, dai-me chuva, para o porco, para dar-me cerda para o sapateiro, para dar-me
sapatos para dar à velha, para me dar capim para dar à vaca, para dar-me leite para dar
ao gato, para dar meu rabo
- Não dou; só se me deres fogo.
Donde tiro fogo?
- Pede às pedras.
Pedras, dai-me fogo, para as nuvens, para a chuva para o porco, para cerda para o
sapateiro, para sapatos para a velha, para capim para a vaca, para leite para o gato, para
me dar meu rabo.
Não dou; só se me deres rios.
Donde tiro rios?
- Pede às fontes
- Fontes, dai-me rios, os rios ser para as pedras, as pedras me dar fogo, o fogo ser para
as nuvens, as nuvens me dar chuvas, as chuvas ser para o porco, o porco me dar cerda, a
cerda ser para o sapateiro, o sapateiro fazer os sapatos, os sapatos ser para a velha, a
velha me dar capim, o capim ser para a vaca, a vaca me dar o leite, o leite ser para o
gato, o gato me dar meu rabo.
Alcançou o macaco todos os seus pedidos. O gato bebeu o leite, entregou o rabo. O macaco
não quis mais, porque o rabo estava podre.
(ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil)
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A nota de Luís da Câmara Cascudo:
São exemplos dos cumulative tales, contos acumulativos ou encadeados, comuns à
literatura oral européia, africana, asiática. Antti Aarne e Stith Thompson, The types
of the folk-tale, 211-212, Helsinki, 1928, registam alguns modelos conhecidos.
Publiquei O menino e a avó gulosa (Contos tradicionais do Brasil, 389, Rio de
Janeiro, 1946), René Basset, Contes populaires dAfrique, Guilmoto ed., nº
XXXVII e LV, 189, 266, Paris, sd. [1903], divulga duas versões, LEnfant et
loiseau, dos Temné, Guiné, perto da Serra Leoa, e Les Échanges, dos
Sukuma de Vitoria Nianza, entes repetido na Anthologie Nègre, 208, de Blaise
Cendrars, Paris, 1927. Uma variante do número 75, publicou-a Adolfo Coelho, Contos da
carochinha, O rabo do gato. IX, Lisboa, 1927, a mesma que Santana Néri
traduziu no seu Folklore Brésilien, Le singe et la mandoline. O tipo comum
europeu, Paul Sébillot, Contes des provinces de France, 317, Paris, 1920,
assemelha-se ao gênero que Basset transcreveu de Hermann. No Brasil, os contos
acumulativos são, quase totalmente, vindos de Portugal. Os elementos locais são apenas
acréscimos que denunciam a viagem pelas memórias brasileiras. O de Sílvio Romero é
conhecido na Europa e África, registado por Wesselski, Taylor, Newell. René Basset
regista variantes no Contes berbères, nº 45, Paris, 1887, e Nouveaux contes
bèrberes, nº 168, Paris, 1897. O assunto foi tratado, em plano de sistemática, por
Stith Thompson, Motif-index of folk-literature, V, 414, Bloomington, 1935, e nos
dois estudos de Martti Haavio, Kettenmarchenstudien, v. XXXI, nº 88, XXXV, nº 99,
Helsinki, 1929, 1932.
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