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FOLIAS DE REIS As celebrações de Natal entre nós não estão ainda resenhadas. Pelas que conhecemos, no norte, no centro, no interior do país, evidencia-se este fato: temos celebrações de procedência portuguesa, mas já alteradas na fisionomia por intromissão de elementos modificadores nacionais; tais são as cheganças, o bumba-meu-boi e as janeiras no litoral nortista. Temos celebrações em que tradições africanas misturadas à européia dão uma fisionomia crioula; tais são: congos e reisados, que ainda se realizam em cidades do interior. Temos, finalmente, celebrações em que tradições indígenas misturadas à européia dão fisionomia cabocla. São elas as folias de Reis, que vão de 23 de dezembro a 6 de janeiro. Quinze dias cheios, em que o caboclo não faz outra coisa que dançar, comer, beber e correr os pousos onde se acham armados os presépios. Tem o nome de folia esse agrupamento que anda de fazenda em fazenda, a pé ou a cavalo. Verdadeiro prolongamento dos bandos de surpresas nortistas e portugueses. A folia tem organização e obedece a um chefe o alferes, que é sempre um cantador de pulso. E um itinerário previamente traçado. De dia, as folias andam no giro. À noite, recolhem-se ao pouso. Nada mais pitoresco que a chegada da folia a um pouso. Quase sempre se dá à tardezinha. Sol pondo. De repente, na virada da colina próxima, soam descargas cerradas. Logo o fazendeiro com os filhos e a peonada, que esperam a folia, puxam das garruchas, e enchem o ar de estrondos e estampidos. Os da folia replicam aproximando, e trava-se uma verdadeira e perigosa batalha, cada um querendo abafar o outro com o barulho dos estampidos. Clavinotes, ronqueiras, garruchas, todos berram doidamente. Finalmente na curva da estrada, doirada de uma réstia de luz, surge a bandeira vermelha, ladeada de dois cavaleiros. Atrás, envolta na poeira, a turma foliona. Tambores e adufes rouquejam mais próximos. Chega a cavalhada. Apeia a folia, que caminha formada até a porta da casa, onde a espera o dono da fazenda, rodeado dos filhos, compadres, etc. E então o alferes, erguendo a bandeira bem alto, canta: Ó di casa, ó di fora Qui hora tão excelente É o glorioso santo Reis Que é vem do oriente Ó de casa, ó de casa Alegra esse moradô Que o glorioso santo Reis Na sua porta chegô Aqui está santo Reis Meia-noite foras dóra Procurou vossa morada Pedino sua ismola Santo Reis e Nossa Senhora Foi passeá em Belém São José pediu esmola Santo Reis pede também A esmola que vóis dá Nois viemo arrecebê O glorioso santo Reis É quem vai agradecê Santo Reis pede esmola Não é ouro nem dinhêro Ele pede um agitoru Um alimento pros festero Sôr dono da casa Vem abri as portaria Recebê santo Reis Com sua nobre folia Sôr dono da casa Alevanta e cende a luz Vem a ver santo Reis O retrato de Jesus Paremo na sua porta Com oro na balança Aqui tamo a sua espera Da sua determinança Deus te sarve casa nobre Nos seus posto tão honrado Ande mora gente nobre Que de Deus é visitado Deus o sarve a luz do dia Deus o sarve a claridade Deus o sarve as três pessoa Da Santíssima Trindade Deus o sarve as três pessoa Com a sua santidade É três pessoa divina Aonde nasce a divindade O sinal da Santa Cruz É principo de oração É o principo desse canto Desta rica invocação Deus te sarve oratóro É coluna que Deus fez Hoje tá visitado Do glorioso santo Reis Deus te sarve oratóro Cum todo seus ornamento Deus te sarve as estampinha E as image questão dentro Deus te sarve as image As pequena e as maió Numa rica divindade Sincerra em uma só Sôr dono da casa Alegra seu coração Arreceba santo Reis Com todo seus folião Santo Reis desceu do céu Cortano vento nas asa Vei pedi um agasaio Para o dono desta casa Santo Reis e vem girano Cançadim do trabaio Procurô vossa morada Pra pedi um agasaio Santo Reis veio voano Nos are fez um remanso Procurô sua morada Pra fazê o seu descanso Sôr dono da casa Muito alegre deve está Do glorioso santo Reis Hoje vei lhe avisitá Concluímo este canto Fazeno o siná da cruz Pade, Fio, Esprito Santo Para sempre, amém Jesus Todos ouvem respeitosamente o canto sagrado. Terminado, o alferes entrega com solenidade a bandeira ao dono da casa, que a beija seguido por todos nesse ato. Depois coloca-a junto ao presépio. Uma lambada de pinga corre nos presentes, como aperitivo ao jantar. Lá dentro, dão-se os últimos arranjos à mesa lauta. Leitoa assada, frango frito, tutu, arroz e molho. E a turma foliona se regala à vontade. No meio à refeição um lá reclama ao cantador: - Diga um verso, seu alferes. É a portage de mesa. Clássica. Não pode ser esquecida. O alferes se levanta grave, ajeita-se e recita convencido: Sô um poeta que falo de hora em hora Que enquanto as coisa melhora E as moça me namora Um dois e três Vamo tudo dá um viva No glorioso santo Reis Sô um poeta Falo noite e dia Acompanhano santo Reis Com prazer e alegria Vamo tudo dá um viva No dono da casa Com sua nobre famíla Eu vim do sertão Tocano meu violão Trazeno sodade Deixano paixão Vamo tudo dá um viva Nessa rica união Sô um poeta Falo contente Louvo quem tá osente I louvo quem tá presente Viva as boa cunzinheira I tamém os bom servente Finda a portage, aplausos coroam o poeta, que não regateia olhares às roxas acotoveladas nas portas da sala de janta. Terminada a mesa, vem o agradecimento. Sobraçando a viola, levanta-se de novo o alferes. Arranca notas da toada e solta forte no silêncio pasmado dos roceiros: Deus vos pague a bela janta Deus será sua defesa O divino Esprito Santo Abençoa a sua mesa Bendito lôvado seja E as três palavra de Deus Pade, Fio, Esprito Santo Seja pelo amô de Deus Oferecemo este bendito Pro Sinhô que está na cruz Intenção das cinco chaga Pra sempre, amém Jesus A viola ainda repinica algumas notas, que se perdem no ruído dos que agora se levantam e no vozerio que se estabelece. E a caboclada, barriga cheia, se espraia pelo terreiro, sala e mais dependências. Lá fora, já é o escuro da noite cortado pelos pitos num acende-ancende de pirilampos. Cá dentro, na sala, deitando pra um lado e pra outro, a chamazinha da candeia de azeite ou da lamparina de banha de porco. Após longo intervalo começa um afinado de violas que dura até meia hora e mais. A caboclada vai reunindo. A sala enchendo. atuchando de morenas dobradas e de roxas. Vai começar a fonção. Tão tão tatão tão - tão Tão tão tatão tão - tão É o catira, ora doridamente molengo, ora convulsivamente sapateado e palmeado. Uma moda, outra, sustentado pela cachaça, pelas broas de fubá e biscoitos de ovos e polvilho. Algumas vezes, nos intervalos, ouve-se o cháchá, scháchá da dancinha das roxas dengosas com os mocinhos desajeitados e tesos das fazendas. "U bále" vara a noite toda. E encerra com o abrir da pálpebra do dia pela aurora. No dia seginte, a mesma coisa, a mesma cerimônia religiosa, a mesma janta com recitativos e "fonção" de catira. Mas noutro pouso. Ia me esquecendo de referir. Vezes há em que a folia chega já à noite à fazenda. Nove ou dez horas. É a surpresa. Ao pressenti-la, o fazendeiro fecha a casa toda. Apaga as luzes, e tudo fica mergulhado na escuridão e no silêncio. É de praxe. Só a canzoada ladra furiosa olhando a estrada. A bandeira chega no maior silêncio, apeia e dirige-se à porta principal. Então o alferes canta. Terminado o cântico, acendem-se as luzes, abrem-se as janelas e portas, de uma só vez, e a folia entra na sala grande onde estão todos a postos, os de casa e convidados. Eis aí um traço que as identifica ainda mais com a tradição nortista e portuguesa. A feição nossa dessas festa está mais nos detalhes e nos elementos, como as salvas de ronqueiras e garruchas, a letra dos cânticos de Reis, as toadas e danças que constituem a festa. Nas folias, o catira é seu elemento essencial e seu traço indígena. [1940] (TEIXEIRA, José Aparecido. Folclore goiano; cancioneiro, lendas, superstições) |
O catira goiano se aproxima mais do cateretê
registrado por Oneida Alvarenga no sul de Minas Gerais. Assisti a dezenas de catiras, nas
várias regiões que visitei, e pude observar o seguinte: os catireiros formam
inicialmente duas fileiras, em cuja "cabeceira" ficam os violeiros, cantadores
de moda, em número de dois. Estes, ambos podem ter violas ou um só, segundo verifiquei.
No último caso diz o caboclo que o segundo vai para a "orela", significando que
vai ajudar o canto fazendo só segunda voz. Cantam ambos a moda, a que assistem os demais,
firmes em seus postos. Após cada estrofe, quando grande, ou grupos de estrofes, quando de
poucos versos, segue-se o sapateado e palmeado alternados: tão-tão tá-tão, tão
tão pá-pá pá-pá pá-pá. Veja também: |
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