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NOSSO SENHOR DOS NAVEGANTES

está uma festa popular baiana que o tempo não alterou e o progresso não arrefeceu: a procissão marítimia de Nosso Senhor dos Navegantes, na manhã do primeiro dia do ano. Não pode haver espetáculo mais belo do que esse desfile de centenas de barcos através da baía de Todos os Santos, acompanhando a galeota do protetor dos navegantes, saindo do porto, indo até a entrada da barra e regressando à praia da Boa Viagem, em Monteserrate. Há dez anos que assistimos a essa procissão: jamais o tempo deixou de estar límpido, a luz radiosa tremendo no ar, o azul do céu harmonizando-se com o azul do lago mediterrâneo em que se transforma a grande enseada. É neste cenário que barcos, lanchas, saveiros, jangadas, pequenos navios navegam na mais bela procissão que jamais nos foi dado assistir. Das muradas da cidade alta, do cais, das praias, a população vai ver o cortejo do santo protetor dos navegantes. Que nenhum visitante, nenhum turista que esteja na Bahia no primeiro dia do ano perca a cena soberba: jamais esquecerá.

Às vésperas do ano novo, à tarde, a imagem do santo é trazida da igrejinha de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Monteserrate. É um pequeno templo onde estão excelentes azulejos representando cenas de salvamento em naufrágios: são autênticos ex-votos, talvez os únicos do Brasil neste gênero. A igrejinha tem uma bela fachada e é do século XVII. Dali vem o santo e é trazido até a Rampa do Mercado e levado em pequena procissão para a igreja da Conceição da Praia. A bela imagem da Conceição vem receber o Senhor dos Navegantes que pernoita na suntuosa igreja da cidade baixa. Silva Campos acentua que, antigamente, a chegada da imagem do Senhor dos Navegantes se dava à noite e debaixo de grandes folguedos: "O povoléu desbragava-se em cenas de inominável desrespeito, sob uma capa de falsa devoção". Não somente no embarque na praia da Boa Viagem, como, também, no desembarque no antigo cais de Santa Bárbara. "Fervilhava a multidão fusca. Batuques. Sambas. Rodas de capoeiragem. Ouviam-se pandeiros, cavaquinhos, violas, harmônicas, berimbaus, e palmas cadenciadas. Um pandemônio. Vozerio confuso. Ditos e gestos licenciosos. Exclamações neumáticas de ébrios. O álcool desenfreara a massa deseducada, de instintos primitivos. Um odor azedo de cachaça, de bodum, de suor, de frutas sazonadas, entontecia. Era em meio de tal garabulha, prolongada até o dia seguinte, com o sol já alto, que chegava à terra a imagem do Senhor dos Navegantes, cerca de vinte e uma horas, quando a orgia estrondava."

Hoje, não. A saída da Boa Viagem, como a chegada do santo, no cais da Alfândega, se processa na maior ordem e com freqüência regular, mas sem os excessos de que fala o cronista. Tudo na maior ordem. Recolhida a imagem, no dia seguinte tem lugar a procissão. Rezada a missa solene na Conceição da Praia, demanda a imagem até o cais da Alfândega, com acompanhamento, inclusive das autoridades. A presença do prefeito da Capital já constitui uma praxe. Vai a imagem na sua galeota construída em 1891, por carpinteiros que a presentearam ao santo. É que, com a separação da igreja do estado, não foi mais permitida a imagem ser conduzida, em batel pertencente ao governo. É graciosa a galeota, com o seu anjo na proa, toda pintada de branco, orgulhosa de conduzir o guardião de todos os navegantes. Está no cais, cercada de centenas de embarcações e milhares de pessoas disputam lugares, grupos, batucadas, rodas de sambas formadas, belas morenas conduzindo melancias, mangas, cajus, todo o esplendor da música popular baiana ali arrebenta num louvor ao santo. Chegando a imagem, é conduzida para a galeota e esta puxada por uma lancha a motor. Começa a mover-se a procissão, velas brancas, azuis, vermelhas se levantam para o céu e aos poucos o cortejo toma forma e se conduz para os lados da Barra, singrando serenamente o lago azul em que está transformada a baía de Todos os Santos. Em cada barco, levantam-se os cânticos, o samba assume a sua maior grandeza e ninguém sente diminuição ou desrespeito ao santo, ele que abriga os navegadores das tempestades, os pescadores das iras de Iemanjá, que nos dias sinistros conduz a todos os que foram pegos desprevenidos ao porto de salvação. Deus deu alegria ao homem para expressar o seu agradecimento pela satisfação de viver. E o povo faz chegar o seu agradecimento a Deus pela sua música, pelas suas canções e pela sua alegria.

Vale a pena tomar um saveiro qualquer e acompanhar a procissão, participando destes grupos; ouvir os seus cantos pelo mar afora e Deus comandando o seu povo, a quem proteje e resguarda. São quase onze horas e a procissão já chegou à entrada da Barra, lá fazendo a volta e retornando ao porto para seguir direta, serena e devagar para a praia da Boa Viagem. Diz Silva Campos que "no tempo da monarquia, as fortalezas e os navios de guerra nacionais, embandeirados em arco, salvavam o momento em que a procissão singrava as águas da baía". Hoje, as fortalezas, os velhos fortes já não têm artilharia para salvar, mas os navios fazem soar suas sirenas à passagem da procissão.

Enquanto isso, defronte da igreja da Boa Viagem, na península de Itapagipe, a multidão é enorme, domina todo o pátio, alastra-se pelas ruas perto e a praia não comporta mais nenhum banhista. O povo aguarda o santo e a procissão se avista, bela e imponente mar afora. Grande parte da multidão está em trajes de banho, com seu calção, com seu short, pois a festa é do mar, o santo é do mar e, no mar, desfila sua procissão. E é nas águas do mar, nas areias da praia do mar que se aguarda o Senhor dos Navegantes. E quando a galeota vai se aproximando, a multidão avança pelas águas, disputa aos gritos o privilégio de tocar na embarcação do Senhor, de tocar na sua imagem, de participar da retirada do seu andor. É indescritível este momento. São centenas de pessoas, ameaçando sossobrar o barco, os seus condutores tentando deter os que vêm nadando para disputar a honra excelsa. Nada os detém. Já milhares estão na praia, expondo seus dorsos fortes e nus, brancos, morenos e escuros queimados pelo sol forte e pela luz baiana. E quando a imagem é entregue ao povo, a multidão inteira a disputa. Nem a comissão, nem o prefeito, nem os sacerdotes que a acompanham podem manter a ordem desejada. As exclamações sobem de toda parte, os gritos são de todos e a exaltação ao protetor dos homens do mar chega ao auge. Bloco imenso de músculos retesos, a clamar por um escultor, conduz a imagem sagrada à igreja da Boa Viagem a uns duzentos metros da praia. E do meio do caminho, vem recebê-la a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem.

É preciso ver e sentir o entusiasmo, a fé pura e criadora do povo baiano nesse momento soberbo. Não a fé doentia e mórbida das procissões ibéricas, de uma Sexta-feira da Paixão em Sevilha, por exemplo. Mas a fé cheia de vitalidade e pureza do povo moreno da Bahia. Este magnífico espetáculo da religião de um povo se expressando, com tanto vigor e tanta saúde na sua fé, deixa pensar na contribuição poderosa do sangue africano. O ibérico tende para o trágico: o africano trouxe ao povo baiano a vitalidade e alegria que assistimos, um povo receber, como a um líder, o Senhor dos Navegantes. Pode-se falar em falta de respeito quando a fé estua em manifestações como essa? Deve-se sim, invocar ausência de formalismo e de preconceitos que o povo afasta para receber o seu santo como a um amigo de todas as horas, ao protetor que não falta nas ocasiões necessárias, como ao chefe, ao santo, a Deus.

Colocada a imagem na igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, fica o Senhor dos Navegantes no seu santuário todo o ano, e volta o povo à disputa, para tirar das águas e trazer até sua garagem, ao lado da igreja, a galeota. Como pesa, quantos esforços são feitos, cabos fortes são puxados por centenas até que a embarcação cede e é colocada nos trilhos! E tudo se faz com cânticos, e tudo se faz com danças, com o samba forte e estuante, não o samba importado em discos, mas o samba puro e legítimo dos morros baianos, nascido das legítimas batucadas dos seus negros e mulatos.

E a festa prossegue no largo da Boa Viagem. E não faltam a fabulosa cozinha baiana, as suas frutas, as melancias, as mangas, os abacaxis, não faltam as barracas de prendas e os que amam, os que se divertem, os que se banham nas águas da baía de Todos os Santos, na prainha das areias brancas e das águas límpidas.

É tarde já, o sol está inclemente, mas pouco importa. "A saúde que Deus concedeu ao povo foi para se divertir", diz-nos uma preta formosa, rainha de seu grupo, delírio dos sambistas, batendo os seus pés ligeiros, acompanhando a batucada forte. E a tarde e a noite conhecerão, também, a alegria do povo de Deus, livre, liberto de preconceitos, vindo todos os anos render graças àquele que o protege das tempestades, das águas más, dos maus ventos.

Passam-se os anos, modificam-se tradições, mas o povo baiano, em sua plenitude, conhece o primeiro dia de cada ano exaltando ao seu Deus, que em tudo manda e rege, como também rege e manda nas águas do mar: o Nosso Senhor dos Navegantes.

[1951]
(TAVARES, Odorico. Bahia; imagens da terra e do povo)
 

Veja na Web:

- MARCEL GAUTHEROT (1910-1996)
Fotógrafo francês que viajou pelo Brasil entre 1940 e 1983, fotografando diferentes aspectos da vida brasileira, dentre os quais, a festa de Nosso Senhor dos Navegantes em Salvador.

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