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CASAS DE PASTO
Existem três ou quatro casas de pasto no
Rio de Janeiro. Peço perdão ao leitor por tê-lo cansado tanto sem convidá-lo a entrar
numa delas. Aqui está uma frequentada por negociantes, ourives e lojistas. Passamos
através de um pequeno aposento na frente, com outro atrás, bastante escuro e de tamanho
médio. Após arrastarmos cadeiras para uma mesa desocupada, é colocado à nossa frente
um cardápio com os preços.
Os preços são reduzidos: por 98 cents duas pessoas podem tomar sua refeição de sopa,
bife, língua cozida, um ensopado, pudim e uma garrafa de vinho. Recusei qualquer
relação com o ensopado, recordando-me como Santillana tomou certa vez um deles numa
ceia. Acreditei não haver motivos para temer encontrar ingredientes tais como sucedeu a
Santillana, mas não era possível eliminar certas impressões onde tantas coisas
relembravam as aventuras do afilhado de Gil Perez. Além disso, havia a consciência de um
lusitano que servia gato ao invés de lebre e que, sem possuir uma cabra,
conseguia vender cabritos. Ademais, tudo o que tem vida e substância é apanhado e
cozinhado junto no interior do Brasil, se não nas cidades, não se dando a menor
atenção às distinções levíticas entre o limpo e o sujo.
Depois da mesa ter sido limpa, iniciamos conversação com dois cavalheiros que se haviam
juntado a nós. Uma caixa de rapé foi passada ao redor e um do grupo espirrou, diante do
que outro exclamou: "Dominus tecum" saudações comum em tais casos e sempre agradecida com uma delicada inclinação de cabeça. Um padre
entrou e sentou-se perto de nós. Estava à paisana. Não o reconheci como padre senão
quando tirou o chapéu e expôs a tonsura. Embora fosse quaresma, não limitou o repasto à alimentação quaresmal.
Os padres são aqui considerados bons vivedores. Quase todos têm família e quando são
vistos deixando a residência de suas esposas em rigor amantes
invariavelmente falam a seu respeito como sobrinhas ou irmãs, confirmando um antigo dito
peninsular: "Ida y venida por casa de my tia" estive em casa de
minha tia.
Jovens de cor entraram e sentaram-se sem hesitação na mesma mesa dos brancos, tomando
parte na conversação em perfeito pé de igualdade.
Traço característico do regime alimentar aqui é o enorme consumo de carne de porco. É
usada diariamente pelas classes mais altas e mais baixas. E que carne de porco! É tudo
gordura; pelo menos a carne magra que aparece não é senão uma película, uma tira de
mata-borrão cor-de-rosa perdida em meio a um grande livro. É surpreendente verificar os
motivos da proibição da carne de porco nos climas quentes do oriente, com tanto êxito reduzidos a nada aqui e sobre o próprio Equador. Os médicos europeus que se
encontram há muito tempo no Brasil admitem que a carne de porco é tão sadia aqui quanto
em outra parte da terra. Os brasileiros constituem um povo de pessoas gordas e lustrosas
e, apesar das influências enervantes do clima e da lassidão que o mesmo causa,
impedindo-os de perder pelo trabalho a carne supérflua, como acontece a nossos
agricultores e outros consumidores de carne de porco, sua saúde geral e a avançada idade
a que chegam muitos, corroboram as opiniões dos
médicos.
O ativo porco nativo, o caititu, produz pouca gordura.
A carne de porco foi sempre estimada na Europa, particularmente entre os espanhóis e
portugueses. Entre eles e outros povos era costume iniciar a festa de Páscoa em
comemoração ao fim da Quaresma, não com lombo ou carne de vaca, mas com toucinho
defumado prato frequentemente seguido por uma ligeira representação em massa, da
alimentação da quaresma e seu fim: um arenque seco montado sobre um cavalo à galope. O
grande prato espanhol é a olla, constituído de aves domésticas, carneiro, vaca e
outros ingredientes. O mesmo acontece entre os portugueses e os brasileiros. Um jantar sem
toucinho quase não é jantar. Feijão com toucinho é o prato nacional do Brasil.
Para informação das senhoras e de alguma futura Mrs. Glass são dados a seguir os nomes
de algumas produções populares, de pastelaria e confeitaria nativas. Os que estavam
incluídos no cardápio despertavam curiosidade, como, era natural: fatias-do-céu, pão
fino molhado em leite e embebido em um composto quente de açúcar, canela e gemas de ovo;
bolo-de-mãe-benta, um manjar angélico inventado por uma antiga freira do convento da
Ajuda, os ingredientes são farinha de arroz, manteiga, açúcar, coco ralado e água de
laranja; viúvas, uma massa macia, fina como papel, colocada em camadas até a altura de
dois e meio centímetros e cozidas ao forno. Existem também suspiros, mentiras,
cabelo-de-anjo, fios-de-ovos, pé-de-moleque e baba de moça. Os rosários são anéis ou
cordões de rosário de vinte a vinte e cinco centímetros, nos quais o credo pode ser
adquirido através de amêndoas incrustadas e as Ave-Marias contadas com balas de massa de
jujuba.
Falta uma referência ao toucinho do céu uma espécie de pudim composto de
massa de amêndoas, ovos, açúcar, manteiga e uma ou duas colheradas de farinha. Seu nome
transporta-nos para velhos tempos. A glorificação do toucinho data de há muito, surgiu
em parte da inimizade existente contra os judeus, mas frequentemente em vista da estima em
que o próprio toucinho era tido. Sendo o mais popular e estimado dos alimentos animais,
era dado como recompensa às virtudes rurais e particularmente às virtudes conjugais.
"El tocino del Paraiso el casado no arrepiso" toucinho do paraíso
para o casado que não se arrepende é um provérbio medieval.
(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil)
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Decidindo viajar, a fim de, "no
movimentado panorama de uma cidade brasileira", encontrar "uma série de
novidades que lhe" fornecessem "assunto em abundância, para seu lápis
de desenhista e sua pena de escritor", Thomas Ewbank deixou Nova Iorque no dia 2
de dezembro de 1845.
Viajou de trem até Richmond, de onde partiu para o Brasil. Lamenta que fosse impossível
ao turista vir ao Brasil, como de resto a qualquer parte da América do Sul, sem
passaporte, pois prevaleciam aqui "os costumes bárbaros que, no Velho Mundo,
impedem o homem de percorrer a terra e comunicar-se à vontade com seus semelhantes".
Pelo Natal o barco já atingira latitudes com predomínio de temperaturas mais elevadas.
No dia 14 de janeiro de 1846, Ewbank passou a maior parte do dia observando grupos de 50 a
100 peixes-voadores, que já avistara, em raros exemplares, dias antes. "Era
difícil convencer-se que não se tratava de pássaros".
No dia 22 de janeiro passa pela ilha de Fernando de Noronha; no dia 28 avizinha-se
Abrolhos, e vê o Cabo Frio no dia 31, às quatro horas da tarde.
Às três horas da madrugada de primeiro de fevereiro são levantadas as velas e se inicia
a aproximação da terra, mas foi necessário "ancorar antes de atingir o Pão de
Açúcar".
Começa Ewbank, então, a relatar tudo o que vê, ouve e lê, no Rio de Janeiro. E o faz
de modo agradável, tornando fácil a leitura de seu livro
(Apresentação de Mário Guimarães Filho, para a edição de A vida no Brasil, 1976)
- Veja outro
texto de Thomas Ewbank em Panacéia
A RECEITA
DO TOUCINHO DO CÉU
1 kg de açúcar
250g de amêndoas moídas
250g de manteiga
250g de farinha de trigo
12 gemas
Faça uma calda em ponto de pasta, junte a manteiga e deixe esfriar, para poder juntar as
gemas e os outros ingredientes, deixando por último a farinha. Despeje tudo em uma
assadeira e leve ao forno não muito quente para corar. Corte depois em losangos e passe
um pouco no açúcar de confeiteiro.
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