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Ir para a página principal LOAS DE NATAL E REIS
(Norte do Brasil)

I

Ô! De casa, nobre gente
Escutai e ouvireis
Lá das bandas do Oriente
São chegados os três Reis

Gaspar, Melchior, Baltazar
Vieram lá do Oriente
Adorar o Deus Menino
A Jesus onipotente

O primeiro trouxe ouro
Para o seu trono dourar
O segundo trouxe incenso
Para o Menino incensar
O terceiro trouxe mirra
Por saber que era imortal

Abri a porta
Se quereis abrir
Que somos de longe
Queremos nos ir

II

Acordai, se estais dormindo
Deste sono em que estais
Pois em noite tão ditosa
É bom que vós não durmais

Esta casa é mui bem feita
Por dentro, por fora não
Por dentro cravos e rosas
Por fora manjericão

Oh, senhor dono da casa
Ramo de alecrim
A sua sombra nos cobre
Quer chova, quer faça sol

Oh, senhor dono da casa
Foi o homem que Deus pintou
Meta a mão nas algibeiras
Pague já quem o louvou

Ora dêem
Se tem o que dar
Que somos de longe
Queremos andar

III

Bendito, louvado seja
O Menino Deus nascido
Que no ventre de Maria
’steve por nós escondido

Há três dias que eu ando
Procurando sem achar
Mas fui dar com ele em Roma
Vestidinho num altar

Abram a porta
Se têm de abrir
Que somos de longe
Queremos nos ir

IV

Do letargo em que caistes
Despertai, nobres senhores
Vinde ouvir notícias belas
Que vos trazem os pastores

Senhora dona de casa
Bote azeite na candeia
Que eu não tenho a confiança
De mandar na casa alheia

Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho de lenha
À espera da resposta
Que de vossa boca venha

Dois de cá
Dois de lá
Mariquinhas no meio
Não pode sambá

V

Vinde abrir a vossa porta
Se quereis ouvir cantar
Acordai, se estais dormindo
Vos viemos festejar

Sabei que é nascido um Deus
Soberano e onipotente
Adorado das nações
E da mais bravia gente

Os três Reis, de longes terras
Vieram ver o Messias
desejado há tanto tempo
De todas as profecias

Tenho sede
Não quero pedi
Pois tenho vergonha
Da gente daqui

VI

Os três Reis, com grande gosto
Seguidos de muita gente
Se humilharam abatidos
A um Deus onipotente

Lhe trazem sua oferta
Com um amor filial
Aplaudem todos contentes
O seu tão lindo Natal

Incenso, mirra e ouro
É o que vêm ofertar
Despem cetros e coroas
Com prazer mui singular

Mortais, não fieis na sorte
Vinde ao Menino aplaudir
O seu virtuoso exemplo
Deveis contente seguir

Se há vir
Que venha já
Garrafas de vinho
Doce de araçá

VII

A grandeza, a opulência
Detestai-as sem receio
Vede como o deus Menino
A dar-vos exemplo

Oh, senhor dono da casa
Com ampla satisfação
Abra já a sua porta
Pois tem grande coração

Hoje é dia de festejo
E de um prazer sem segundo
Pois é nascido o Menino
Salvador de todo o mundo

O senhor dono da casa
Deve já aqui estar
Pois sabemos quanto gosta
Com prazer também brincar

Há tanto tempo
Que nós já chegamos
Que é de as galinhas
Que nós já ganhamos?

VIII

Somos gente de bom gosto
Gostamos de conviver
Também queremos que todos
Mostrem contento e prazer

Na Lapinha de Belém
É nascido o Deus Menino
Entre as turbas dos pastores
Sendo um Senhor tão Divino

Abra a porta
Também a janela
Que eu quero gozar
A cor de canela

IX

Abri já a vossa porta
Pois temos muito que andar
Antes que o dia amanheça
Queremos a Belém chegar

Queremos hoje brincar
Com contento e com prazer
Pois para nossa ventura
Veio o Menino nascer

Na Lapinha de Belém
Adorado dos pastores
Nasceu um Deus Menino
Sendo Senhor dos senhores

Festejemos ao Menino
Nascidinho em Belém
Pois é a vossa ventura
É o nosso Sumo Bem

Tenho vontade
De uma cousa pedi
Mas tenho vergonha
Das gentes daqui

X

Somos gentes muito boas
Sabemos bem conviver
Bebemos bem aguardente
Com alegria e prazer

O nosso bom Deus amante
Quis o mundo resgatar
Nascendo em um presepe
Para todos nos salvar

Abra a porta
Bem devagarinho
Que eu quero dizer
Adeus, meu benzinho

XI

Senhora dona Maria
Espelho de relação
Quem fala nesa senhora
Dobra o joelho no chão

O senhor dono da casa
É uma folha de papel
Inda espero o ver na praça
Com bastão de coronel

Os pequenos desta casa
Não se dêem por agravados
Ficaram por derradeiros
Por serem mais estimados

Senhora dona da casa
Olhos de pedra redonda
Daquela pedra mais fina
Em que o mar combate a onda

O telhado desta casa
É telhado de virtude
Eu passei aqui doente
Hoje de boa saúde

Se eu soubesse
Que havia função
Trazia mulatas
Do meu coração

XII

Esta noite tão ditosa
É bom que vós não durmais
Porque tão alta ventura
Não é justo que percais

Vinde ouvir simples cantatas
De grosseiros camponeses
Das aldeias conduzindo
Cordeiros e mansas redes

As serranas enfeitadas
Em prazeres vão saltando
Os mancebos, os velhinhos
Todos, todos vão chegando

Vossas ofertas, senhores
Trazei, que as conduziremos
E com toda a companhia
Iguais as repartiremos

Somos meninas
Da casa mestra
Viemos fugidas
Promode a tarefa

XIII

Frangos, galinhas, perus
Doce, queijo e requeijão
Tudo nós aceitaremos
Vindo de bom coração

Nada de flores queremos
Porque cheiro sem sabor
Suaviza um só sentido
Não refrigera o calor

Melancias, ananazes
Belas mangas, magabinhas
Até servem nesta noite
Uns pombinhos e pombinhas

Ora dêem
Se tem de dar!
Que somos de longe
Queremos andar

XIV

Venham ovos, venham uvas
Limões doces e cajus
E então sim, seremos gratos
Para sempre, amém Jesus

Para que tão lauta ceia
Mal não nos possa fazer
Em cima da fruta e doce
Mandai-nos dar que beber

Se quiser
Que eu seja daí
Você dá pipocas
Eu dou mundubi

XV

Vinho do Porto e do Duque
Bordeaux, moscatel, champanha
E tudo que é licor fino
Fabricado em terra estranha

Esta vai por despedida
Por cima destes telhados
As pessoas que nos ouvem
Tenham os dentes quebrados

A dona de casa
É boa de dá
Garrafas de vinho
Doce de araçá

(ROMERO, Sílvio. Cantos populares do Brasil)

 

A nota de Luís da Câmara Cascudo:

Cantigas da véspera e dia de Natal e Reis são muito populares em qualquer país europeu de tradição cristã. Na coleção de Sílvio Romero a maioria é pronunciadamente portuguesa. Algumas quadras são típicas de Portugal:  - Ó de casa, nobre gente / Escutai e ouvireis! / Já das partes do Oriente / São chegados os três Reis; Afonso Duarte, O ciclo do Natal na literatura oral portuguesa, 111, Bracelos, 1937. No Brasil o costume tornou-se hábito na véspera de Reis, tirar o Reis, não a representação das Reisadas portuguesas mas o rancho, o grupo festivo, cantando diante da casa fechada, pedindo
vênia, fazendo a louvação, o salva e depois a entrada com cânticos. Nuno Marques Pereira, no Compêndio narrativo do peregrino da América, II, 45, Rio de Janeiro, 1939, escrevendo antes de 1728, descrevia os Reis na cidade do Salvador: "…uma noite dos Santos Reis, sairam estes (homens) com vários instrumentos pelas portas dos moradores de uma vila, cantando para lhes darem os Reis, em prêmio do que uns lhes davam dinheiro, e outros doces, frutas, etc…" Melo Moraes Filho. Festas e tradições populares do Brasil, A véspera de Reis, 79, Rio de Janeiro, Ed. Briguiet, 1946, evoca perfeitamente essas cenas desaparecidas do costume geral. Loa, para o povo, é qualquer verso louvativo. Outrora era uma represenação. Teófilo Braga, História do teatro português, II, 108, Porto, 1871, escreve que loa "… é um resto conservado do tempo em que o povo tomava parte na liturgia, cantando alternadamente nos Lundus da Natividade". Neste século ainda (século XVIII) a loa é a forma única do teatro popular, usada em todas as províncias do reino. Do de 1778 temos à vista uma loa para se representar na noite de Reis. Mas o sentido popular é dominante. Nuno Nisceno Sutil, Musa jocosa (reunião de entremezes), Lisboa, 1709, cita a Loa do silêncio onde o amo diz: - Venho deitar uma loa / Que andei até agora estudando / … Não falo em Broa, parvo, / Senão em Loa que é louvor, cit. 138-139, IIIº.

No Auto da Ave Maria, Antônio Prestes, 1530, cita as janeiras e os Reis populares: - Quebrai-me os pandeiros, / Fazei-vos agora por mim janeirinhos / … Na ambição se esconde, cortesia: / Vós dai-lhe Reis todavia…

Nas loas que Sílvio Romero coligiu são interessantes os pedidos de entrada, pedidos de Reis, os agradecimentos, alusões ao bastão de coronel, frutas e doces brasileiros.

Sobre o aspecto atual das festas de Reis, Alceu Maynard Araújo, Folia de Reis de Cunha, Separata da Revista do Museu Paulista, III, São Paulo, 1949; José A. Teixeira, Folclore goiano, 51, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1941.

SANTOS REIS
(recolhido e adaptado por Ely Camargo)

O galo cantou no oriente
Surgiu a estrela da guia
Anunciando à humanidade
Que o menino Deus nascia
Em uma estrebaria

Vinte e cinco de dezembro
Não se dorme no colchão
Deus menino teve a cama
Das folhas secas no chão
Pra nossa salvação

Senhora dona da casa
Óia a chuva no teiado
Venha ver o Deus menino
Como está todo moiado
Com os treis Reis ao lado

Deus lhe pague a bela oferta
Que vóis deu com alegria
Os divinos Santos Reis
São José e Santa Maria
Há de ser a vossa guia



Ouça a música Santos Reis em Violas e Canções, de Xavantinho e Pena Branca, da gravadora Velas

• Veja também:

- Uma descrição das Folias de Reis em Goiás.

 


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