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JACARÉ DE ASSOMBRAÇÃO I Nas festanças do Ano Novo No reveilhão da latada Zé Viana pegou a sanfona Mané Rego pegou a rabeca Entre vivas dos dançadores E foguetinhos lá fora Tinham vindo da Terra Santa Nas terras firmes de Borba Vinham cantar as bravezas Do homem que virou bicho Porque ofendeu Nossa Senhora Moça deixou de dançar Solteiro fechou os olhos Menino gito cantou Mulher ovada chorou Vamos, seu Zé Viana Vamos, seu Mané Rego Conte os saldos do seu Amâncio No desafio da Desfeiteira!- Zé Viana mexeu as teclas Mané Rego zunhou as cordas: Contou videnças e milagres Contou a história de Zé Machado Jacaré de Assombração Que vence boto e curupira Veve no rio e no mato Veve na terra e no ar Nas terras da Terra Santa Seu Amâncio caçou no mato Viu porco e errou o tiro Viu veado e falhou de novo Panema sem saber como! Nunca errou chumbo nem bala Em araras na samaúma E em nambu na carreira Em meio do tabocal II - "Senhor Jesus, estou com fome Quero arrumar caça pra casa! Veja que sorte danada: Há fome e não tem comida Não há sede e tem água Nisto ouviu estralo e barulho Num pau caído na estrada Olhou e não viu ninguém - Se é alma que está penando, Se é homem que levou faca Se é mãe que morreu de parto Pode falar que rezo logo Na barraca tenho vela Santo forte no oratório Ramo de arruda e água-benta Banho curado e feitiço Ninho de cauré, olho de boto Vou procurar padre Bento Pra dizer missa na igreja De Santo Antônio de Borba III Olhou de novo pro tronco E Senhor Jesus o que viu? Havia luares na mata Fumo de incenso em redor E folhas pingando de estrelas Nossa Senhora sorria Com manto azul sobre os ombros Roda de fogo no cabelo E estrela de ouro na testa Nem pisava no chão E a mata se clareava Caboclo Amâncio ajoelhou Bateu no peito chorando: - "Que é que há, Nossa Senhora?" - "Venho salvar o teu povo Que sofre demais nestes anos Vai deixar de querer mal Beber, mentir, roubar moças Brigar em forrós, falar respeito Pintar unha, encrespar cabelo E usar ouro brilhante Sábado, quem quer trabalhar Só trabalhe depois da reza: Cada um pegue o rosário Vá adorar a Nossa Senhora!" - "É verdade, Nossa Senhora! É pesado o pobre viver Com imposto, peia, cadeia Só fome e falta de tudo Mas vou levar vossas ordens Às gentes do Beiradão Caboclo é irmão de caboclo Caboclo abraça caboclo Quando mulher está sofrendo Quando pagão não tem leite Quando homem não tem canoa Nem terra pra trabalhar Nem roupa pra se vestir Nem luz pra se alumiar Vida cara e perseguição Preço baixo dos produtos Coletor e delegacia Multa pro bolso e carcerage Vida boa, Nossa Senhora Só em conversa de rádio Do pessoal da cidade Fala no quentinho das salas (- alô, alô, Interior!) Bebendo vinho e cerveja Comendo carne e biscoito Enquanto o pobre do mato Come e bebe na chuva Guereré de pirara E chibé de farinha azeda Dizem que são outros tempos Mas que outros tempos são esses E quando acabam de vez Pra salvação de nós todos? Todo Madeira rezando Todo o Amazonas se danando Vai ter mudança na certa E tudo pra melhor! IV Gente foi pra Terra Santa Gente de baixo e de cima De Humaitá, Manicoré Do Machado e Jamari Gente de todos os rios Padre Bento se zangou Mas o povo quer seu Amâncio Que já viu Nossa Senhora Regatão botou prancha larga Chegou motor de bem longe Chegou botelão de canoa Chegou gente por terra Toda boca veve em reza Por noite inteira e no sábado Ninguém mais bebe cachaça Ninguém mais dança juntinho Como bananas grudadas Como apuizeiro e ouricuri Sem forgo nem sustança Que morrem velhos e fracos Ou quebram na trovoada Caindo no rio ou no chão Todo moço deixou de ser Galo piroca no terreiro Macaco prego se coçando Em castanheira de inverno Mulher não engana marido Marido não engana mulher Companheiro com a companheira Vão logo casar na igreja Ou não prestam mais pra nada Nunca mais podem ter filhos São ordens vindas de cima Segundo diz voz do povo Nas terras da Terra Santa Nas terras-firmes de Borba Tudo bem. Mas seu Zé Machado Hi quando ouviu essas estórias Pensou nos seus prejuízos Nos dominguinhos de sábado Deu risada, cuspiu pro lado Seringueiro sem cortar Mais quatro dias por mês Comprando mercadorias Fiando, comendo, fumando - "Isso é invenção de vadio É broca de vagabundo É esperteza do seu Amâncio Quer viver sem trabalhar Já vem mais um dia santo O dominguinho de sábado! Desafio Nossa Senhora De quem faço bom juízo Se é verdade, que eu vire bicho Jacaré de lago ou de rio guariba, trigue, barrigudo Pra longe, caboclo Amâncio Com tanta vadiação Com tanta mentira fresca " VI Nem acabou de falar Nem valeu ter dinheiro Ser dono de castanhal Ser do governo e marreteiro Nem acabou de falar Trovão estralou no mato Mato estralou no chão Barranco caiu nas águas Sino dobrou nas nuvens A caboclada se benzeu Mulher se pôs de joelhos Criança de peito falou Cachorro ladrou miando Gato miou ladrando VII Que foi que houve, minha gente? Dona Delaide pediu castigo Dona Reimunda pediu perdão Seu Izidro também pediu (Eu sei que eles faziam O que compadres não fazem Mas não devo dizer E quem quiser que adivinhe) Que foi que houve, minha gente? Zé Machado pulou no chão Rasgou a roupa, ficou biruta Mexeu os quartos Sujou as pernas Melou-se todo na lama Catingando que nem mucura . Zé Machado virou bicho Jacaré cheio de lago, cheio de limo Com rabo grande, com doze metros E fugiu pras águas Cadê, cadê jacaré? Foi pras águas, mergulhou Foi pro fundo, nunca mais Foi pras nuvens e sumiu! VIII Mas Zé Machado se arrependeu No Jacaré de Assombração Só usa o bem contra o mal Defende o bom e a pobreza Anda no escuro, na lua cheia Nas canaranas, no igapó Dá sobroço a muita gente E mete medo a muitos homens Vê lavadeiras nos cedros Cunhãs pulando no rio Sem roupas, como nasceram Por miséria, por maldade Só pra ver as bichinhas nuas? Não! Pra encobrir, pra proteger Das olhadas dos macharocos Escondidos nas ingazeiras Fica boiando entre os paus Vogando à toa nos remansos E vem de novo, de repente Com rabo de ferro Dentes de faca Olhos de vidro Jacaré de Assombração! (De assombração, de verdade Porque há jacaré pelo mundo Que urram dentro do mato E só tem coragem de longe) Jacaré da Terra Santa! Corre no rio, como motor Voa no ar, como avião Deita no céu, dorme nas nuvens Mete medo, mas não faz mal Passa calado noites inteiras Dá rebolada, dá rebojada Quando vê crime ou traição Urra danado, vira canoa Corta cabos de banheiros Alaga ubás de mandioca - Quem foi, quem foi, minha gente? Jacaré de Assombração! IX Quem é doido de pecar Beber cachaça nos forrós forrós quando hai e com licença! Deixar de rezar o rosário De obedecer Nossa Senhora Depois de ouvir seu o Amâncio lá nas terras da Terra Santa? Quem é doido de pecar Bater de mau e malvado Nos curumins do seringal Ou vomitar os nomes feios E o nome feio do diabo? Quem é doido de pecar? Pega logo ramo-de-ar empacho duro e passamento Não vê santos no sol Nem São João dentro da lua Só usando colírio fino Das águas da Terra Santa E das mãos do seu Amâncio X Uma vez, lá foi para o Baixo Jacaré de Assombração Foi laçado, foi rastado Foi encostado no vapor Tinha de ir vivo, bem vivo Para ficar no museu Gente de bordo, pegando ganchos Com caras de lobisomens Botou dentro de um tanque Que veio pronto do Pará Jacaré de Assombração Vocês pensam que amunhecou Vocês pensam que ele foi preso? O olho do bicho, como tocha Só de longe, só de raiva Derreteu ferro, quebrou tudo Jacaré de Assombração Caiu nágua, foi embora Mas o vapor trepou nas pedras Veio o verão, ficou furado E deu febre nos tripulantes XI Quando o Madeira está de enchente Todo gordo cada manhã Mandando paus lá pro Amazonas Comendo roças nos beiradões Temperadas com escumas Jacaré de Assombração Vigia gente pelas ilhas Contra arraias, contra cobras Homem que só trata de si Fala grosseiro com os pobres Sujeito mau que se apresenta Com fumaceiras de graúdo Olhando o povo sem falar Sem dar passagens nem reboques Esse sujeito vá embora Esse sujeito se endireite Coração de homem sovina É nem que leme enjambrado Que paga capim na tapagem E bota o motor pra trás Mulher de olhos de bacaba de quero, quero e quero mais Braços bons de puraquês Quartos bons de lontras nágua tropeçando, farejando Morando aqui e acolá Mulher doidinha vá embora Mulher andeja se endireite XII Ninguém ria do seu Amâncio Ninguém ria da Terra Santa! Um padre riu e ficou cego Caiu de joelho e viu de novo Regatão fumou na reza Mas ficou de queixo aberto Pulando que nem jumento Rinchando que nem cavalo Menino novo de peito Falou logo, rezou bem alto Olhou pro lado e morreu rindo Cortaram tiras e linhas Do tamanho do corpo dele É melhor do que remédio Pra curar coisa ruim Pra curar coisa sem cura Mulher prenha tem logo filho Bicho de pé cai pelo chão Dor de cabeça vai-se embora Velho rendido fica forte XIII Zé Machado Jacaré de Assombração Vem subindo no Madeira Vai descer pelo Madeira - "Êta! Joga porquinho no rio Laça capado e joga nágua!" Cabocla treme na rede Fazendo voto e promessa Seringueiro foge da estrada Batendo nas sapopemas Pescador se esconde todo Soprando mão a buzina Valentão fica sem fala E diz que não é valente XIV Por que? Ninguém vê, ninguém vê Jacaré de Assombração Ninguém tem queixa dele Toda gente gosta dele Porque vem, porque vem Proteger a gente pobre E arranjar tempo pra gente Pra melhor, sempre melhor Povo de lago e beiradão Caboclo é irmão de caboclo! Povo de ilha e terra firme Caboclo abraça caboclo Não é irmão de caboclo Quem persegue caboclo! Jacaré de Assombração Irmão de santo e cobra-grande Veve dentro da gente Dando força, dando coragem Jacaré de Assombração Comanda a tribo pro bem Pra virar tudo Terra Santa E tudo ouvir Nossa Senhora! XV Na manhã do Ano Novo Tudo e tudo ficou quieto O pagode virou igreja As mulheres sentaram todas Tiraram flor dos cabelos Brincos de ouro das orelhas Passaram lenço nos beiços Ajoelharam, rezaram Pelos doentes, pelos pobre Pelos tempos já prometidos Nas terras da Terra Santa Zé Viana parou as teclas Mané Rego parou as cordas Da sanfona e da rabeca E rezaram de novo todos Virando os olhos pra cima "Nossa Senhora, tem pena De tantos pobres que sofrem! Salve-Rainha, Ave-Maria Eu Pecador, Padre Nosso Pelos que estão neste mundo Pagando o que não fizeram E também o que os outros fizeram! Salve-Rainha, Ave-Maria Amém, Senhora dos pobres!" (Álvaro Maia. Jacaré de assombração. Manaus, Sérgio Cardoso e Companhia, Editores, 1958. In MELLO, Anísio (org.). Estórias e lendas da Amazônia) |
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