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Eduardo Laemmert
          Henrich Laemmert

IRMÃOS LAEMMERT
Os precursores da edição de livros no Brasil

Em busca de novos mercados, alguns livreiros-editores se transferiram para o Brasil na primeira metade do XIX.

A primeira a chegar foi a Livraria Universal. fundada em 1833 por Eduard Laemmert - a quem, cinco anos mais tarde, juntou-se o irmão Heinrich -, ela foi tão bem sucedida que logo abandonou o perfil exclusivo de loja para se tornar também editora. Em 1837 Eduard comprou três impressoras, viajou a Paris para aprender tipografia e em 2 de janeiro de 1838 inaugurou a Tipografia Universal. O negócio progrediu a tal ponto que o faturamento cresceu trinta e uma vezes em apenas vinte anos.

Num enorme casarão da rua dos Inválidos trabalhavam, em 1859, cento e vinte pessoas, que imprimiam mil folhas por dia. Na oficina de encadernação, outros cinquenta homens produziam cinco mil livros encadernados por mês, além de quatorze mil brochuras. Elogiada pelos operários e com os méritos reconhecidos pelo próprio imperador (que em 1862, fes uma visita oficial à casa), a Tipografia Universal baseou muito do seu êxito no Almanaque Laemmert - no me pelo qual ficou conhecido o Almanaque administrativo, mercantil e industrial da corte e província do Rio de Janeiro. Nascido como uma despretenciosa folhinha literária em 1839, bem mais completo que os concorrentes, não demorou a cobrir notícias de todo o Império, e em 1875 saiu com nada menos do que 1700 páginas.

Embora o Almanaque tenha sido o carro chefe da editora, outros livros contribuíram para o êxito da Universal. A maioria eram guias de bolso que ostentavam títulos de grande apelo popular, como Dicionário de medicina doméstica, Sucintos conselhos às jovens mães para o tratamento racional de seus filhos (ambos de Theodore Langgaard, médico dinamarquês radicado no Brasil), Coleção completa de máximas, pensamentos e reflexões, do marquês de Maricá, e Seleções de poesias dos melhores poetas brasileiros desde o descobrimento do Brasil. Obras técnicas e acadêmicas também tinham vez, como Navegação interior do Brasil e Estudos de literatura contemporânea.

Folinha de medicina popular, 1874, do médico dinamarquês Theodore LangaardOs Laemmert publicavam ainda livros traduzidos do francês, mas seu forte foram os originais alemães. Editaram Goethe (Amorosas paixões do jovem Werther) e foram pioneiros na literatura infantil, com As viagens de Gulliver, Contos seletos das mil e uma noites e Aventuras pasmosas do celebérrimo Barão de Münchausen, alguns traduzidos por nomes famosos como Capistrano de Abreu e Olavo Bilac. Outro campo no qual a Universal se aventurou, embora pouco, foi o dos livros didáticos Por que me ufano do meu país, de Afonso Celso, escrito para celebrar os quatrocentos anos do descobrimento do Brasil, teve a primeira edição esgotada em alguns meses e tornou-se leitura obrigatória nas escolas secundárias.

A livraria Universal fechou suas portas em 1909, logo depois do incêndio que lhe destruiu a biblioteca e os arquivos. Em 1910, os direitos de publicação dos livros foram negociados com a Francisco Alves, e o almanaque acabou sendo vendido ao português Manuel José da Silva. Em 1942, outro incêndio pôs um ponto final na trajetória do Almanaque. A tipografia, com o nome de Gráfica Laemmert, continuou funcionando e voltou a editar em 1970. Mas, dos Laemmert, só guardou o nome.

(Momentos do livro no Brasil)

 

O Almanaque administrativo, mercantil e industrial do Rio de Janeiro para o ano de 1845, indicava a existência dos seguintes gabinetes de leitura e tipografias:
Gabinetes de leitura:
Português, Inglês, Francês de Mlle Edet na rua do Ouvidor, Francês e português de Mongie, na rua do Ouvidor, Francês e Português de Crémiére, na rua da Alfandega e Sociedade Germania com sala de leitura e biblioteca, na rua Fresca, 13.

Tipografias:
- Jornal do Commercio
- Diário do Rio
- Do Mercantil
- Imparcial
- Americana
- Francesa
- Austral
- Brasileira
- Do Gratis
- De João Joaquim Barroso e C.
- De João do Espírito Santo Cabral
- De Bintot
- De Inocêncio Francisco Torres
- José Rodrigues da Costa
- De Berthe e Haring
(total: 15)

Cinco anos mais tarde, o Almanaque de 1850, trazia:

Mercadores de livros:O Almanaque Laemmert de 1875, edição com cerca de 1.700 páginas.
- Agostinho de Freitas Guimarães e C., rua do Sabão, 26
- Albino Jordão, vende, compra e troca livros e toma a comissão de obras novas, rua do Ouvidor
- Crémiére, rua da Alfândega
- Désiré Dujardin, livraria belga-francesa, - rua do Ouvidor
- Eduardo & Henrique Laemmert, Livraria Universal, rua da Quitanda
- Firmin Didot Irmãos, rua da Quitanda
- Garnier Irmãos, rua do Ouvidor
- Gerard e de Chirten, rua da Quitanda
- Junius Villeneuve, rua do Ouvidor
- Luís Ernesto Martin, Livraria Portuguesa, rua dos Ourives
- Mongier, rua do Ouvidor
- Serafim Gonçalves neves, rua da Quitanda
- Soares e C., rua da Alfandega
- Souza e c. , rua dos Latoeiros.

Tipografias:
- Do Diário do Rio de Nicolao Lobo Vianna
- Do Correio Mercantil, rua da Quitanda
- Universal
- Imparcial de Francisco de Paula Brito
- Americana de Inácio Pereira da Costa
- Do Brasil de Justiniano José da Rocha
- Brasileira de Crémiére
- Carioca de J. I. da Silva e C.
- Clássica de Fortunato Antônio de Almeida
- Francesa de J. S. Saint Amant
- Filantrópica
- Nacional
- Parisiense
- De Agostinho de Freitas Guimarães
- De Inocêncio Francisco Torres
- De Luiz Antonio Ferreira de Menezes
- De Manoel Afonso da Silva Lima
- De Manoel Gaspar de Siqueira Rego
- De Manoel José Cardoso e c.
- De Paula Brito de Rosário e Melo
- De Soares e c.

• Ainda no Almanaque de 1850, era anunciado:

Publicações Modernas a venda na casa de Eduardo & Henrique Laemmert

- Diccionario geographico, historico, politico e litterario do reino de Portugal e seus dominios
- Novo toucador das senhoras ou colleção elegante das ultimas modas em Paris
- Contos e historietas de instrucção e recreio dedicados a infancia de ambos os sexos (leituras adequadas)
- Colleção completa de máximas, pensamentos e reflexões do marques de Maricá
- Novo manual epistolar ou secretario de cartas familiares.

Horóscopos e prognósticos para 1865,
da Folhinha Laemmert
Por Pafúncio Semicúpio Pechincha
[pseudônimo de Eduardo Laemmert]

JANEIRO

Para assegurar a tranquilidade pública, o chefe de polícia ordenará que cada casa possuindo um piano sustente um policial, agente da autoridade, para impedir que se toque de tal maneira capaz de fazer desesperar os vizinhos.

Os anúncios crescerão de tal modo que as duas últimas páginas dos jornais serão insuficientes para inseri-los.

Em princípios deste mês será sufocado um confeiteiro na sua loja, e se tratará então de suprimir as festas para evitar a reprodução de desgraças semelhantes.

FEVEREIRO

Grandíssima falta de água nos chafarizes do Rio de Janeiro; os vendilhões se servirão do seu vinho em vez de água.

Os fluminenses, ordinariamente tão sérios e comedidos, só trairão sua amável folia armados de um nariz postiço e de uma máscara-lobo.

MARÇO

Visto a grande mortandade de homens na guerra da América do Norte, trinta e tantas mil moças louras americanas, informadas das felicidades obtidas por outras estrangeiras, chegarão ao Rio de Janeiro à procura de maridos. Alguns homens requererão que se permita a bigamia, outros a trigamia; porém, tão poderosas serão certas influências que será rejeitada essa idéia imoral.

Uma jovem, indignadamente abandonada por seu noivo, chorará todas as lágrimas do seu corpo.

ABRIL

Um homem abastado querendo fazer à sua mulher uma mangação de primeiro de abril, empreenderá uma viagem à Buenos Aires, fazendo correr o boato que o navio se submergiu com todo o bicho vivo durante a viagem. Viúva rica, casada fica. Na volta, achando sua mulher de luto aliviado tratando de segundas núpcias, jurou de nunca mais pregar mangações de primeiro de abril.

Os norte-americanos em guerra perpétua, seus mares e rios coalhados de navios mortíferos, inventarão um vestuário apropriado para sem perigo tomarem-se banho de mar.

MAIO

Quem nasceu debaixo desse signo gostará de viajar e de correr menos nas gôndolas novas, que foram construídas sem dúvida para transportar tísicos ou ama-secas.

Um fotógrafo, que se ocupa em tirar vistas pitorescas, reproduzirá o restaurante no hotel da Bela Vista no alto de São Domingos, no que nada há a estranhar. Mas em um dos caramanchões jantará um homem com uma andorinha novamente chegada. No momento de o fotógrafo tirar a vista, estará o terno par aos beijos. O artista exporá à venda a mesma vista; uma senhora que as costuma colecionar, compra um exemplar, e avista no caramanchão… um infiel!

JUNHO

Continuação da crise algodoeira. As senhoras, não podendo já obter algodão, recorrerão, além do balão, a outros enchimentos; na autópsia de um colete se encontrarão dois pares de meias, uma dúzia de pavios de lamparina, uma trança de cabelo postiço, um número do Jornal do Commercio e mais algumas bagatelas.

Chegada de um inglês, inventor de um novo, econômico e seguro modo de viajar, intitulado New patent self-acting screw-propeller, para amadores da pesca, dos banhos e das viagens em climas tropicais.

JULHO

É escusado dizer que os que nascem debaixo deste signo serão soberbos, atrevidos, animosos e cobiçosos da glória militar. Na Guarda Nacional farão proezas e não descansarão senão sendo nomeados oficiais.

Da mesma maneira, como os vendilhões fazem vinho sem uvas e vinagre sem vinho, inventar-se-á a de fazer caldo sem carne de vaca, visto a magreza de gados, graças às eternas e desinteressadas disputas sobre este gênero de primeira necessidade.

Muitos lojistas descobrirão o meio de fazer fortuna vendendo por menos do custo; mas não acontecerá o mesmo com os negociantes de grosso trato que lhes tiverem fiado as fazendas.

Sumidas todas as baratas que infestavam a cidade, ver-se-á no Rio de Janeiro o último tipo de tempos passados.

AGOSTO

Uma das habitantes da rua do Hospício e de São Jorge pedirá licença para no próximo carnaval poder figurar como sinal em uma representação do zodíaco.

A grande escassez de capim dará idéia aos nossos leiteiros de aumentarem a quantidade e a qualidade do leite.

SETEMBRO

Feliz lembrança de um especulador, que, visto achar-se proibido o tráfico de africanos, armará navios e mandará buscar circassianas.

OUTUBRO

Desconfiai dos nascidos debaixo desta constelação, não há qualidade de malícia e mangação que eles não empreguem contra os seus amigos mesmo na ocasião de papar-lhes o jantar. São escorpiões com apetite de jacaré.

NOVEMBRO

Em um baile aristocrático se achará uma grande trança de cabelo postiço, e ninguém irá reclamá-la; um cavalheiro, para tirar uma senhora do embaraço, irá apanhar a trança, dizendo que lhe pertence.

DEZEMBRO

Serão principalmente as baratas e os ratos que trabalharão nas diferentes bibliotecas públicas da corte.

Uma senhora ciumenta, tendo de ausentar-se por algum tempo do domicílio conjugal, receando as andorinhas e sem grande confiança nos juramentos do seu marido, fará espalhar que um cão danado o mordera… Este meio novo de defesa terá o mais completo êxito.

Desesperados do calor e da pouca freqüência, os diretores dos teatros pedirão licença para transformar suas salas em casas de café e de refrescos.

Este fim do ano será notável pela final abertura de um escritório de casamentos, principiando por uma espantosa inscrição de moços milionários em esperanças, e de moças esperando herdar de tios tísicos, paralíticos, caquéticos, apopléticos.

(BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso)

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