“...era um vaqueiro ambulante,
misteriosamente aparecendo por fazendas em ocasiões de difíceis vaquejadas em
que pintava proezas admiráveis. Nos sertões do norte mineiro dele se fala ainda
com essa crença supersticiosa cheia de infância e desalinho, marcando datas,
lugares, perigos inimagináveis, quase impossíveis, salvando gerações, vivendo de
todos e por toda a parte, sempre o mesmo, inextinguível. Franzino, mulato de
mediana estatura, pouco idoso, falando pouco e muito descansado, sempre vestido
de perneira e gibão, cavalgando eternamente uma égua muito feia e magra
ocultando a larga fronte, olhar expressivo e barba espessa e comprida sob um
grande e desabado chapéu de couro — tal a figura simpática do Borges. Quase
nunca era procurado porque, boêmio dos campos, sua residência certa
ignorava-se.”
(Manuel Ambrósio. Brasil interior)
* * *
Ele aparece de repente nas fazendas ou em regiões pastoris. Não se sabe ao certo de onde veio ou onde nasceu . Tem vários nomes e, algumas vezes, nome nenhum. Sua montaria é um cavalo velho ou uma égua de aparência cansada, imprestáveis. Está sempre vestido humildemente, com um gibão de couro surrado e chapéu de vaqueiro, encobrindo o seu olhar misterioso.
Aparece nas ocasiões onde há vaquejadas ou apanha de gado novo, ferra ou batida para campear. Devido à sua aparência, torna-se alvo de zombaria dos demais vaqueiros e campeadores. Contudo, vence a todos os outros. É o mais ágil, mais destro, mais afoito deles. O sabedor de segredos infalíveis, o melhor, o herói. É aclamado pela multidão, desejado pelas mulheres, o convidado de honra do fazendeiro. Ele, porém, recusa todas as honrarias e desaparece da mesma forma que surgiu. Ninguém sabe como e nem para onde foi.
É mito de origem lusitana, com variações locais, que ocorre em todas as regiões de pastorício no Brasil: Nordeste, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Bahia. Para Luís da Câmara Cascudo, "moralmente, é um símbolo da velha profissão heróica, sem registros e sem prêmios, contando-se as vitórias anônimas superiores às derrotas assistidas pelas serras, grotões e várzeas, testemunhas que nunca prestarão depoimento para esclarecer o fim terrível daqueles que vivem correndo atrás da morte."
Para saber mais sobre o vaqueiro misterioso:
Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Editora, 2002, p.346-250
Ambrósio, Manuel. "A onça Borges". Brasil interior; palestras populares, folclore das margens do São Francisco: Januária, Minas Gerais, 1912. v.1, São Paulo, Nelson Benjamin Monção, 1934, p.30-50
Cavalcanti, Kerginaldo. "Manuel Bruto". Contos do Agreste. Natal, Tip. do Instituto, 1914, p.77
Melo, Manuel Rodrigues. "Preto ruivo". Várzea do Açu. São Paulo, Ed. dos Cadernos, 1940, p.99
Barroso, Gustavo. Coração de menino. Rio de Janeiro, Getúlio M. Costa Editor, 1939, p.119-120