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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
SOLUÇO VAI, SOLUÇO VEM... |
O povo, na sua proverbial ingenuidade e simpleza, acredita piamente na eficácia dos
remédios caseiros, dos ensalmos, conjuros e orações forçosas, das simpatias
mezinhas de que se vale amiúde para o tratamento de males de toda sorte.
Por esses meios singelos ou complicados, onde entra de tudo: palavras e expressões ditas
com verdadeira unção, gestos, trejeitos e benzimentos, ervas de toda espécie, tição,
brasas cinza, gravetos, agulha, alfinete e linha, chaves, chocalhos, a saliva e outros
excretos que sei eu?! todo um arsenal estranho e vário por essa
terapêutica extravagante e assombrosa, cura o povo as mil e uma doenças e
quebranto que tantas vezes se conluiam com a sua indigência e miséria, para lhe tornarem
a vida mais triste, mais dolorosa, mais difícil de ser vivida.
De todos esses incômodos, o soluço parece é o mais inocente, o menos
molesto, o que não impede, entretanto, que, para estancá-lo, também se utilize o povo,
de certas simpatias, orações ou palavras, comprovadamente eficazes...
Por exemplo:
Creio que corre todo o Brasil aquele processo curativo do soluço, e que consiste no uso
de um fiapo de algodão, de linha ou de cobertor, ou de um pedacito de papel que se cola a
"cuspo", na testinha do recém-nascido. Com isso tão simples e pouco
higiênico o soluço do nenê lá se vai, instantaneamente.
Também faz parar o soluço, colocar-se atrás da orelha da criança ou do marmanjo, um
graveto, um palito, fósforo ou carvão. (Crendice de Manguinhos e de outros lugares).
Igualmente aconselham, para o mesmo efeito, que se beba água pelo bordo oposto do copo, o
que se pode conseguir colocando-se este sobre a mesa, completamente cheio, e se inclinando
o corpo, até sorver alguns goles, o queixo quase metido no copo.
A ginástica é mais ou menos complicada, mas a posição estranha que o doente
assume, só por si basta para tirar-lhe do sentido os incômodos soluços.
A água, aliás, como se sabe é santo remédio contra o soluço. Segundo
crendice generalizada aqui no Espírito Santo, alguns goles dágua (mesmo sem a referida
curvatura sobre o copo) podem curar o doente, contanto que este a beberique em três
goles, compassadamente. (Cachoeiro do Itapemirim e Serra).
Esses goles poderão ser alternados com a seguinte oração:
Que bebo?
(gole)
Água de Cristo
(gole)
Que é bom
(gole)
Para isto.
(último gole)
Tal processo também é usado lá no Norte e no Nordeste, segundo o testemunho de Sílvio
Romero que o registrou em seus Cantos populares do Brasil (Livraria Francisco
Alves, 1897, p.357), confirmado por João Alfredo de Freitas, do Piauí (apud
Câmara Cascudo, Antologia do folklore brasileiro, Livraria Martins, 1943, p.351).
Outra oração que se diz com o mesmo fito de estancar o soluço é a que Afrânio
Peixoto divulgou no seu copioso repositório de "superstições populares relativas
à saúde, doença e morte" (Miçangas, Companhia Editora Nacional, 1931,
p.36): "Soluço para-se, dizendo, enquanto se bebe água aos goles: Soluço
vai / soluço vem / soluço vai / para quem te quer bem".
Esse processo é corrente creio em todo o país. Registrou o Guilherme Studart, ao
localizar os "usos e superstições cearenses". (apud, Câmara Cascudo, Antologia,
p.312.) Também Osvaldo Orico, em seu interessante Vocábulário de crendices
amazônicas" (Companhia Editora Nacional, 1937, p.224), onde se lê: "Há
por todo este Brasil uma larga cópia de receitas no sentido de "estancar o
soluço". Quando se trata de criança, basta grudar um papelzinho na testa do
inocente. Daí a pouco o soluço pára. Os adultos usam muito contar pelos dedos afim de
se verem livres do mal-estar. Ou então recorrem ao copo dágua, rezando no
intervalo dos goles, com a mão a rodar sobre a cabeça:
Soluço vai, soluço vem,
pega na ponta do lenço
de quem me quer bem"
Ora, a mesma simpatia, as mesmas ou quase as mesmas palavras vamos deparar em
terras capixabas.
De Cachoeiro de Santa Leopoldina pude anotar a reza:
Soluço vai,
Soluço vem,
Soluço me vai
para quem me quer bem
Do velho Leonídio Ataíde tipo do homem-folclore, infelizmente perdido para
sempre, pois lá se foi ele deste mundo do velho Leonídio, de Camboapina, tive
ocasião de recolher a mesma oração, na seguinte variante próxima:
Saluço me vai,
Saluço me vem,
Vai-me saluço
Pra quem me quer bem
Qual a ligação que pode ter esta reza com a nossa velha e querida cantiga de roda:
"Penedo vai / Penedo vem / Penedo é terra / De quem quer bem"?
Ignoro se a medicina receita alguma coisa para estancar os soluços; o que sei é que a
gente ingênua e simples de nossa terra prefere, para fazê-lo parar, o graveto na orelha,
o fiapinho na testa, o susto bem pregado, a "água de Cristo" e as santas
palavras da citada simpatia. E isto é aqui e em toda a parte.
"Simpatia!... Palabras!... Mistério impenetrable! Lo que no alcanzan las
ciencias médicas, los cálculos mejor concertados, lás más sabias providencias, las
precauciones más poderosa, lá autoridad más ciegamente obedecida, fácil y prestamente
lo consiguen la simpatia y las palabras. Son una mano invisible y omnipotente que, movida
por la voluntad del ser privilegiado que la conoce y sabe gobernar, hace y deshace, ata y
desata, cura y enferma, armoniza o transtorna los elementos; pues asi sirve para el bien
como para el mal. Simpatia!... Palabras!... Libremos Dios del perverso que com simpatia o
com palabras quiera y pueda hacernos mal". (Daniel Granada, Supersticiones del
Rio de La Plata. Ed. G. Kraft, Buenos Aires, 1947, p.221).
(Neves, Guilherme Santos. "Soluço vai, soluço
vem". Vida Capixaba) |
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