Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Três benzimentos para quebranto, por Regina Lacerda.

setaquad.gif (95 bytes)Saruá, o mal que alguém pode produzir, por Ermano de Stradelli.

setaquad.gif (95 bytes)Soluço vai, soluço vem..., por Guilherme Santos Neves.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


SOLUÇO VAI, SOLUÇO VEM...

Guilherme Santos Neves


O povo, na sua proverbial ingenuidade e simpleza, acredita piamente na eficácia dos remédios caseiros, dos ensalmos, conjuros e orações forçosas, das simpatias — mezinhas de que se vale amiúde para o tratamento de males de toda sorte.

Por esses meios singelos ou complicados, onde entra de tudo: palavras e expressões ditas com verdadeira unção, gestos, trejeitos e benzimentos, ervas de toda espécie, tição, brasas cinza, gravetos, agulha, alfinete e linha, chaves, chocalhos, a saliva e outros excretos que sei eu?! — todo um arsenal estranho e vário — por essa terapêutica extravagante e assombrosa, cura o povo as mil e uma doenças e quebranto que tantas vezes se conluiam com a sua indigência e miséria, para lhe tornarem a vida mais triste, mais dolorosa, mais difícil de ser vivida.

De todos esses incômodos, o soluço — parece — é o mais inocente, o menos molesto, o que não impede, entretanto, que, para estancá-lo, também se utilize o povo, de certas simpatias, orações ou palavras, comprovadamente eficazes...

Por exemplo:

Creio que corre todo o Brasil aquele processo curativo do soluço, e que consiste no uso de um fiapo de algodão, de linha ou de cobertor, ou de um pedacito de papel que se cola a "cuspo", na testinha do recém-nascido. Com isso — tão simples e pouco higiênico — o soluço do nenê lá se vai, instantaneamente.

Também faz parar o soluço, colocar-se atrás da orelha da criança ou do marmanjo, um graveto, um palito, fósforo ou carvão. (Crendice de Manguinhos e de outros lugares).

Igualmente aconselham, para o mesmo efeito, que se beba água pelo bordo oposto do copo, o que se pode conseguir colocando-se este sobre a mesa, completamente cheio, e se inclinando o corpo, até sorver alguns goles, o queixo quase metido no copo.

A ginástica é mais ou menos complicada, mas a posição estranha que o doente assume, só por si basta para tirar-lhe do sentido os incômodos soluços.

A água, aliás, — como se sabe — é santo remédio contra o soluço. Segundo crendice generalizada aqui no Espírito Santo, alguns goles dágua (mesmo sem a referida curvatura sobre o copo) podem curar o doente, contanto que este a beberique em três goles, compassadamente. (Cachoeiro do Itapemirim e Serra).

Esses goles poderão ser alternados com a seguinte oração:

Que bebo?
(gole)
– Água de Cristo
(gole)
Que é bom
(gole)
Para isto.
(último gole)

Tal processo também é usado lá no Norte e no Nordeste, segundo o testemunho de Sílvio Romero que o registrou em seus Cantos populares do Brasil (Livraria Francisco Alves, 1897, p.357), confirmado por João Alfredo de Freitas, do Piauí (apud Câmara Cascudo, Antologia do folklore brasileiro, Livraria Martins, 1943, p.351).

Outra oração que se diz com o mesmo fito de estancar o soluço é a que Afrânio Peixoto divulgou no seu copioso repositório de "superstições populares relativas à saúde, doença e morte" (Miçangas, Companhia Editora Nacional, 1931, p.36): "Soluço – para-se, dizendo, enquanto se bebe água aos goles: Soluço vai / soluço vem / soluço vai / para quem te quer bem".

Esse processo é corrente — creio em todo o país. Registrou o Guilherme Studart, ao localizar os "usos e superstições cearenses". (apud, Câmara Cascudo, Antologia, p.312.) Também Osvaldo Orico, em seu interessante Vocábulário de crendices amazônicas" (Companhia Editora Nacional, 1937, p.224), onde se lê: "Há por todo este Brasil uma larga cópia de receitas no sentido de "estancar o soluço". Quando se trata de criança, basta grudar um papelzinho na testa do inocente. Daí a pouco o soluço pára. Os adultos usam muito contar pelos dedos afim de se verem livres do mal-estar. Ou então recorrem ao copo d’água, rezando no intervalo dos goles, com a mão a rodar sobre a cabeça:

Soluço vai, soluço vem,
pega na ponta do lenço
de quem me quer bem"

Ora, a mesma simpatia, as mesmas ou quase as mesmas palavras vamos deparar em terras capixabas.

De Cachoeiro de Santa Leopoldina pude anotar a reza:

Soluço vai,
Soluço vem,
Soluço me vai
para quem me quer bem

Do velho Leonídio Ataíde — tipo do homem-folclore, infelizmente perdido para sempre, pois lá se foi ele deste mundo — do velho Leonídio, de Camboapina, tive ocasião de recolher a mesma oração, na seguinte variante próxima:

Saluço me vai,
Saluço me vem,
Vai-me saluço
Pra quem me quer bem

Qual a ligação que pode ter esta reza com a nossa velha e querida cantiga de roda: "Penedo vai / Penedo vem / Penedo é terra / De quem quer bem"?

Ignoro se a medicina receita alguma coisa para estancar os soluços; o que sei é que a gente ingênua e simples de nossa terra prefere, para fazê-lo parar, o graveto na orelha, o fiapinho na testa, o susto bem pregado, a "água de Cristo" e as santas palavras da citada simpatia. E isto é aqui e em toda a parte.

"Simpatia!... Palabras!... Mistério impenetrable! Lo que no alcanzan las ciencias médicas, los cálculos mejor concertados, lás más sabias providencias, las precauciones más poderosa, lá autoridad más ciegamente obedecida, fácil y prestamente lo consiguen la simpatia y las palabras. Son una mano invisible y omnipotente que, movida por la voluntad del ser privilegiado que la conoce y sabe gobernar, hace y deshace, ata y desata, cura y enferma, armoniza o transtorna los elementos; pues asi sirve para el bien como para el mal. Simpatia!... Palabras!... Libremos Dios del perverso que com simpatia o com palabras quiera y pueda hacernos mal". (Daniel Granada, Supersticiones del Rio de La Plata. Ed. G. Kraft, Buenos Aires, 1947, p.221).



(Neves, Guilherme Santos. "Soluço vai, soluço vem". Vida Capixaba)

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