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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
| O mal que alguém pode produzir, mesmo
de longe, e que é esperado como conseqüência natural e necessária de um ato qualquer,
voluntário ou não, em dano das pessoas da própria família ou alheias, mas às quais é
ligado de algum modo, ou sobre as quais pode ter uma influência qualquer, por possuir
alguma cousa que lhes pertenceu. É a influência que pode exercer o pai sobre os
próprios filhos logo depois de concebidos e durante toda a meninice, comendo, bebendo ou
fazendo alguma cousa que por isso mesmo lhe é defendida. Daí vem o resguardo do marido
pelo parto da mulher, ficando ele em descanso, como se fora a parturiente, o cuidado de
não comer certas caças ou certos peixes, especialmente de pele, durante a gravidez da
mulher e a meninice dos filhos. É a influência que afirmam exercer a mulher grávida
sobre as coisas que a cercam, tornando-se capaz de tudo estragar com o simples olhar,
podendo muitas até afrontar impunemente as cobras mais perigosas, que pelo contrário
podem morrer, se olhadas ou tocadas por ela. É o que faz que, se na maloca onde ela se
acha deve ser moqueada alguma caça ou pesca, ou a mulher sai ou o moquém se arma fora,
longe de sua vista. Mas não é só a mulher grávida que é saruá; saruá são
todas as fêmeas grávidas, pelo que é obrigação estrita do caçador, que as encontrar,
deixá-las ir em paz sob pena de se tornar panema e nunca mais voltar a ser caçador
afortunado. Os estranhos também podem fazer saruá, e é um dos poderes do pajé, embora
haja pessoas que o podem fazer sem sê-lo. Em qualquer caso, porém, precisam de ter em
seu poder alguma coisa que pertença ou tenha pertencido à pessoa contra quem se quer
dirigir o saruá; e se é suficiente um cabelo, um pedaço de unha, um pouco de raspagem
da pele, qualquer "sujo" que venha do sujeito, sem tê-lo nada podem fazer. Isto
posto, a saruá, se tem alguma cousa do quebranto e da jetatura e de outras superstições
européias, tem caracteres próprios que o tornam original.
(Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed.
São Paulo, Livraria Martins, 1954, v.2, p.358) |
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