Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Três benzimentos para quebranto, por Regina Lacerda.

setaquad.gif (95 bytes)Saruá, o mal que alguém pode produzir, por Ermano de Stradelli.

setaquad.gif (95 bytes)Soluço vai, soluço vem..., por Guilherme Santos Neves.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


SARUÁ

Ermano de Stradelli

 

O mal que alguém pode produzir, mesmo de longe, e que é esperado como conseqüência natural e necessária de um ato qualquer, voluntário ou não, em dano das pessoas da própria família ou alheias, mas às quais é ligado de algum modo, ou sobre as quais pode ter uma influência qualquer, por possuir alguma cousa que lhes pertenceu. É a influência que pode exercer o pai sobre os próprios filhos logo depois de concebidos e durante toda a meninice, comendo, bebendo ou fazendo alguma cousa que por isso mesmo lhe é defendida. Daí vem o resguardo do marido pelo parto da mulher, ficando ele em descanso, como se fora a parturiente, o cuidado de não comer certas caças ou certos peixes, especialmente de pele, durante a gravidez da mulher e a meninice dos filhos. É a influência que afirmam exercer a mulher grávida sobre as coisas que a cercam, tornando-se capaz de tudo estragar com o simples olhar, podendo muitas até afrontar impunemente as cobras mais perigosas, que pelo contrário podem morrer, se olhadas ou tocadas por ela. É o que faz que, se na maloca onde ela se acha deve ser moqueada alguma caça ou pesca, ou a mulher sai ou o moquém se arma fora, longe de sua vista. Mas não é só a mulher grávida que é saruá; — saruá são todas as fêmeas grávidas, pelo que é obrigação estrita do caçador, que as encontrar, deixá-las ir em paz sob pena de se tornar panema e nunca mais voltar a ser caçador afortunado. Os estranhos também podem fazer saruá, e é um dos poderes do pajé, embora haja pessoas que o podem fazer sem sê-lo. Em qualquer caso, porém, precisam de ter em seu poder alguma coisa que pertença ou tenha pertencido à pessoa contra quem se quer dirigir o saruá; e se é suficiente um cabelo, um pedaço de unha, um pouco de raspagem da pele, qualquer "sujo" que venha do sujeito, sem tê-lo nada podem fazer. Isto posto, a saruá, se tem alguma cousa do quebranto e da jetatura e de outras superstições européias, tem caracteres próprios que o tornam original.



(Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed. São Paulo, Livraria Martins, 1954, v.2, p.358)

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