Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
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PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)A cidade do Rio de Janeiro e seus carrinhos de mão.

setaquad.gif (95 bytes)Apelidos, por Francisco Luiz Ribeiro.

setaquad.gif (95 bytes)Conversa de futebol, linguajar e gíria de pretos botucatuenses, por Sebastião A. Pinto.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


CONVERSA DE FUTEBOL
Linguajar e gíria de pretos botucatuenses

Sebastião A. Pinto


— Bonifácio, vamo ali no "Urtimo gole".

— Vamo. Gosto deste buteco. Tem uma Pacóla com sambuca...

— Entremo. Sentemo. E me diga como foi o jogo do "São Gerardo".

— Ói Bastião. Nosso quadro abafô. Jogô pra burro. Só que num ganhô. Parecia coisa feita. A linha costurava à defesa fazia visage. Pé de ferro dava cada tijolada.

Rebolo salameava inté a sombra. Martelete... nem é bom falá. Mas barbanteá, que é bom neca. Perdemo um jogo que já tava no papo.

– Mas os negros pregaro? Amolecero o garrão?

— Não foi isso. Eles picaro o côro direitinho. Mas num ganharo. Por azá. E por causa do juiz. O paiaço fez falseta. Num é a toa que o pessoar da gêra estrilô. Dito Peróva, o Clidião, o Amerco, garraram a gritá, queriam enchê o sujo, fazê a fistula do tal. Mas a poliça garantiu o guampudo.

– Me diga véio, como tava o onze?

- Tinindo. Os craque tavam firme. Veja só a escal:

Onça, Tunga, Cachimbo, Cozinheiro, Martelete, Chico Diabo, Rebolo, Tijolo, Pé de Ferro, Bode, Rabi. (Reserva — Carabina e Tapijara).

Êta jogo duro. Marreteado. Ataque p’ra cá. Escapada p’ra lá. Mécha no gor de Onça. Bombardeio no inimigo. Ninguém era dono da melancia. Os hóme num era galinha morta. Era espeto. Ocê sabe que Bóde é liso. Que nem quiabo. Num cavô nada. E ainda acertaro ele. Aplicaro uma chapuletada, que ele rolô na poêra. Então Chico Diabo, que não é rolinha, meteu os peito. Tacô a sóla no vazio do centrofor contrário. Eta fuá!

— Saiu butinada?

— Saiu. O juiz quis mandá e Chico p’ra cerca. Os granfa das numerada dero vaia.

Chico Diabo perdeu a cabeça. Deu banana pra tudo. E encheu o bule do juiz. Foi expulso. Fiquemo só em déis. Tijolo que chuta cos dois cano, ficô de harfo esquerdo. Mas o pior...

— Que foi véio?

— O poaia do juiz mandô dá tiro livre. Pronto. Um a zero.

Demo a saída. Martelete adiantô p’ro extrema. E se perdeu a melancia. A linha inimiga deu a carga. Tunga cortô num carrinho. Esticô pra Rebolo. O motorzinho escapô e centrô lindo. Pé de Ferro escorô no picumã. E de cocô balanceô a rede, 1 a 1 no pracarde.

Depois, foi as veis dos home. Um pontero veio salameando. Deu um comeno Cozinheiro. Tonteô Martelete. O Tunga durmiu. E o serolépe, de bico atochô no cantinho. Onça nem cherô. Dois a um.

— E a turma, num dero a virada?

— Acabô o primeiro tempo. O presidente (nóis num tem téco), num deu conseio pros craque. Mandô dá umas pinga. Num foi cum porva, como andaro dizeno. Foi pinga só. E disse: — Pessoar. No jogo que vale é bexiga na rede. Por isso, fé no pai João e o pé no próximo.

Quando começô o segundo tempo, foi uma coisa lôca. Era um tal de aplicá gorpe, que não acabava mais. Nas bola arta, quando o negro pulava, era cama de gato. Escapava, carrinho. Carçada e butinada, nem tinha conta. Quem não tivesse santo forte, num guentava. E o juiz dando fau, fau, só contra nóis.

De repente, espirrô um balão pro Rabi. Ele gritô: — Largue que eu petéco. Meteu a canhota. Encheu uma sem pulo. A bexiga zuniu que nem bala. E derruô o golero. Menino, tivero que levá o home para São Paulo, p’ra tira manmangava do ouvido. Mas a pelota num entrô...

— Cumo é que terminô o combate?

— Dominemo, aluguemo meio campo, bombardemo, mas tento não saía. Os home davam recurso. Faziam cera. Os poste defendia pelotaço de Pé de Ferro, mas a pelota não enfurnava. A gente já tava cos bofe de fora, de tanta oflição. Imagine os jogadô? Não acertavam mais. Cachimbo, começô a furá. E no fim fumemo mais um gor. Feito de chalera. De chalera, home. Por deboche.

Com treis no picuá, quebraro o bico. Onça viro penêra.

— Foi mandiga. Botaro despacho na sede. Precisamo vê o pai de santo. E mandá fazê defumação treis dias. Enquanto isso...

— Outra pinga!



(Pinto, Sebastião A. Conversa de futebol; Linguajar e gíria de pretos botucatuenses)

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