Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)A cidade do Rio de Janeiro e seus carrinhos de mão.

setaquad.gif (95 bytes)Apelidos, por Francisco Luiz Ribeiro.

setaquad.gif (95 bytes)Conversa de futebol, linguajar e gíria de pretos botucatuenses, por Sebastião A. Pinto.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


APELIDOS

Francisco Luiz Ribeiro


Os brasileiros são doídos por dar apelidos ao próximo; e há apelidos que pegam como chiclete cuspido em sola de cautchu.

É curioso notar-se que esse hábito de dar alcunhas, às vezes maldosas, ferinas, é mais comum nas cidades litorâneas. Santos é famosa pelo espírito satírico da sua população — dizem mesmo que ninguém passa por lá sem sair com um apelido qualquer e, a propósito, contam o seguinte fato: um caixeiro viajante, conhecendo a fama dos santistas e detestando apelidos, enfurnou-se num hotel da cidade, trancou-se no quarto e não manteve contato com ninguém. Para voltar à Capital, telefonou para um desses "expressinhos" e pediu que o fossem buscar a domicílio. Enquanto o carro não vinha, o caixeiro, meio impaciente com a demora, abriu a janela por duas vezes e espiou lá embaixo. Foi a conta. Quando saía do hotel, um gaiato levou dois dedos à aba do chapéu e cumprimentou, muito sério:

- Alô, cuco...

Havia em Santos um empregadinho de banco, muito pálido e com o rosto todo marcado de bexigas. Era o Areia Mijada. Um jornalista que nunca ninguém viu sem um livro ou maçaroca de jornais debaixo do braço era o Sovaco Ilustrado. Uma senhora enorme, cujo busto inflado crescia desmedidamente para fora do decote, era Madame Fleischmann — com iniludíveis alusões ao fermento.

Os apelidos evoluem de acordo com os progressos dos apelidados. Uma jovem viúva, bonita e rica, tendo resistido galhardamente ao assédio dos gabirus, mantendo-se inexpugnável, ganhou o justo cognome de Stalingrado; um dia porém, embeiçou-se por um alemão e rendeu-se sem resistência. Ganhou novo apelido — Linha Maginot. Outra vítima, uma respeitável matrona que conseguira armazenar toda a adiposidade do seu corpanzil logo abaixo da cintura, ostentando dois hemisférios protuberantes, só era conhecida pelo carinhoso apelido de Mapa Mundi.

O apelido não respeita nada, nem os defeitos físicos, as deformidades, os cacoetes, nada! Conheci um coitado que sofria de uma lesão na espinha — andava com a cabeça para trás, o peito para a frente, o pumpum para trás, as pernas para a frente. Chamaram-lhe Gogó-da-Ema. Um aleijado que arrastava uma das pernas paralisadas, que caminhava desengonçadamente Pneu Furado. Um pequenininho, garçom de bar, era o Amostra Grátis. Outro, que tinha um braço mais curto, era o Fevereiro. Um sujeito de ventas colossais, sempre arreganhadas, era o Chove Dentro. E um pobre desdentado que falava assobiando e distribuía perdigotos sem a menor cerimônia, Pistola Hidraúlica.

O melhor é não se ligar para as alcunhas. Os que se irritam com apelidos nunca mais se veêm livres deles, aí é que todo o mundo faz questão de os chamar assim. Um engenheiro, meu conhecido, que chiava ao falar, ganhou a alcunha de Rato. Rato prá cá, Rato pra lá, ficou sendo Rato mesmo. Um dia, numa reunião social, um amigo meu foi apresentado à mulher do engenheiro, que já conhecia de vista; inclinou-se, beijou-lhe a mão solenemente e murmurou:

- Madame Rato... Muito prazer.

– Meu nome é Faria, cavalheiro!

- Ah! madame Faria Rato... Encantado!

A irreverência dos brasileiros não respeita nem farda, nem batina, nem títulos e cargos importantes. Meu velho professor de cartografia, um beneditino inteiramente calvo, foi apelidado de Dom Ovo. Recebi, certa feita, uma carta dele, em que se assinava "Dom Paulo" e, entre parênteses, "seu antigo mestre Dom Ovo"... Juro-lhes, se não fossem os parênteses eu não o reconheceria. Tio Pita, Seu Mé, Chuchu e Nonô foram presidentes da República!

Quando fui prefeito de Santos deram-me um apelido. Ainda sou conhecido por lá, menos pelo nome que pelo cognome. Não vou poder revelá-lo porque o meu horóscopo de hoje recomenda "Cuidado nas minhas relações sociais". Talvez outro dia...



(Ribeiro, Francisco Luiz. "Apelidos". Diário de São Paulo. São Paulo, 14 de julho de 1961)

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