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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
Os brasileiros são doídos por dar apelidos ao próximo; e há apelidos que pegam
como chiclete cuspido em sola de cautchu.
É curioso notar-se que esse hábito de dar alcunhas, às vezes maldosas, ferinas, é mais
comum nas cidades litorâneas. Santos é famosa pelo espírito satírico da sua
população dizem mesmo que ninguém passa por lá sem sair com um apelido qualquer
e, a propósito, contam o seguinte fato: um caixeiro viajante, conhecendo a fama dos
santistas e detestando apelidos, enfurnou-se num hotel da cidade, trancou-se no quarto e
não manteve contato com ninguém. Para voltar à Capital, telefonou para um desses
"expressinhos" e pediu que o fossem buscar a domicílio. Enquanto o carro não
vinha, o caixeiro, meio impaciente com a demora, abriu a janela por duas vezes e espiou
lá embaixo. Foi a conta. Quando saía do hotel, um gaiato levou dois dedos à aba do
chapéu e cumprimentou, muito sério:
- Alô, cuco...
Havia em Santos um empregadinho de banco, muito pálido e com o rosto todo marcado de
bexigas. Era o Areia Mijada. Um jornalista que nunca ninguém viu sem um livro ou
maçaroca de jornais debaixo do braço era o Sovaco Ilustrado. Uma senhora enorme, cujo
busto inflado crescia desmedidamente para fora do decote, era Madame Fleischmann
com iniludíveis alusões ao fermento.
Os apelidos evoluem de acordo com os progressos dos apelidados. Uma jovem viúva, bonita e
rica, tendo resistido galhardamente ao assédio dos gabirus, mantendo-se inexpugnável,
ganhou o justo cognome de Stalingrado; um dia porém, embeiçou-se por um alemão e
rendeu-se sem resistência. Ganhou novo apelido Linha Maginot. Outra vítima, uma
respeitável matrona que conseguira armazenar toda a adiposidade do seu corpanzil logo
abaixo da cintura, ostentando dois hemisférios protuberantes, só era conhecida pelo
carinhoso apelido de Mapa Mundi.
O apelido não respeita nada, nem os defeitos físicos, as deformidades, os cacoetes,
nada! Conheci um coitado que sofria de uma lesão na espinha andava com a cabeça
para trás, o peito para a frente, o pumpum para trás, as pernas para a frente.
Chamaram-lhe Gogó-da-Ema. Um aleijado que arrastava uma das pernas paralisadas, que
caminhava desengonçadamente Pneu Furado. Um pequenininho, garçom de bar, era o Amostra
Grátis. Outro, que tinha um braço mais curto, era o Fevereiro. Um sujeito de ventas
colossais, sempre arreganhadas, era o Chove Dentro. E um pobre desdentado que falava
assobiando e distribuía perdigotos sem a menor cerimônia, Pistola Hidraúlica.
O melhor é não se ligar para as alcunhas. Os que se irritam com apelidos nunca mais se
veêm livres deles, aí é que todo o mundo faz questão de os chamar assim. Um
engenheiro, meu conhecido, que chiava ao falar, ganhou a alcunha de Rato. Rato prá cá,
Rato pra lá, ficou sendo Rato mesmo. Um dia, numa reunião social, um amigo meu foi
apresentado à mulher do engenheiro, que já conhecia de vista; inclinou-se, beijou-lhe a
mão solenemente e murmurou:
- Madame Rato... Muito prazer.
Meu nome é Faria, cavalheiro!
- Ah! madame Faria Rato... Encantado!
A irreverência dos brasileiros não respeita nem farda, nem batina, nem títulos e cargos
importantes. Meu velho professor de cartografia, um beneditino inteiramente calvo, foi
apelidado de Dom Ovo. Recebi, certa feita, uma carta dele, em que se assinava "Dom
Paulo" e, entre parênteses, "seu antigo mestre Dom Ovo"... Juro-lhes, se
não fossem os parênteses eu não o reconheceria. Tio Pita, Seu Mé, Chuchu e Nonô foram
presidentes da República!
Quando fui prefeito de Santos deram-me um apelido. Ainda sou conhecido por lá, menos pelo
nome que pelo cognome. Não vou poder revelá-lo porque o meu horóscopo de hoje recomenda
"Cuidado nas minhas relações sociais". Talvez outro dia...
(Ribeiro, Francisco Luiz. "Apelidos". Diário de São Paulo. São Paulo, 14 de
julho de 1961) |
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