Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Os fazedores de balaio, por A. Seixas Neto.

setaquad.gif (95 bytes)Cocadas para quem quiser, por Rose Cass e Antônio Carlos Pereira.

setaquad.gif (95 bytes)O amazonense tranquilo, um texto de Esdras Passaes sobre o regatão da Amazônia.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

O AMAZONENSE TRANQÜILO

Esdras Passaes


— Vai ovos, madama?
— Olha o tucunaré fresquinho.
— Fazendas de chita pra acabar.
— Quer tucupi, beleza?
— Cheiro de cabelo, quem quer?

O regatão da Amazônia, quase sempre, é um mau caráter. Um fabuloso mau caráter, que vende fogão elétrico no Rio Negro (onde a eletricidade é manga de colete), e rádio a pilha no alto Solimões (com garantia de dois anos!). Corre o rio de canoa, armada com toldo de palha, cujas paredes são guarnecidas de prateleiras. Não contando a mercadoria pesada, que o camelô fluvial transporta da Boca do Acre à baía de Marajó, pacientemente, à vela ou motor de centro, o grosso do comércio resume-se em negócios com peixe quelônios, peças ordinárias de fazenda, perfumes made in Belém do Pará, tesouras, navalhas, carretéis de linha, facas, lampiões, oleogravuras de santos, bíblias, baralhos, rifles, miçangas, tabaco, carne-seca, cachaça, açaí e uma infinidade de coisas.

Como os casebres e malocas são erguidos na margem do Amazonas, o regatão vai repassando o trajeto o ano inteiro, apanhando mercadoria aqui para vender ali. É ágil no remo, um gigante na vela, porém, os mais organizados têm motor de centro e uma buzina. Para anunciar a sua presença (alto Rio Negro), sopram num chifre dotado de cigarra, cortando o silêncio da tarde e atraindo nas janelas dos casebres dezenas de caboclos, mestiços e índios.

O regatão é um sujeito genial, conhece todos e tudo, sabe o que serve e o que não serve, dá notícias da cidade grande, examina crianças, como médico experimentado, fala de política com a freguesia, distribui santinhos e, no fim das contas, vende um par de óculos de grau por um conto de réis, afirmando que é a última moda em Manaus. Ou troca um Velho testamento por duas tartarugas criadas, sabendo que o cliente é analfabeto.

Durante uma viagem que fizemos a bordo do Lobo d’Almada, de Manaus a Belém, dezenas de regatões esperavam o navio em cada porto do Amazonas, desde Cocal a Marajó, para exibir sua mercadoria. Cada embarcação tem uma especialidade: o refresqueiro (sorvetes e refrescos), o vendedor de frutas, o frangueiro, o peixeiro, o santeiro, o armeiro.

Quando o navio atraca, eles cercam a linha dágua, fazendo negócios (bons) com os passageiros da terceira classe, geralmente arigós, caboclos mudando com a família e os eternos desconhecidos da Amazônia, que vivem zanzando nas gaiolas o ano inteiro. É um coro só:

— Aqui é mais barato.
— Tracajás?
— Olha o jabá. É quase de graça.
— Sorvetes, sorvetes.
— Preço bom é com o Nonô.

O capitão espera com paciência de Jó. Mas quando apita pela terceira vez os regatões sempre velozes, afastam-se em direçoes diversas. Ninguém sabe para onde vão. Daqui a pouco são pontinhos perdidos entre os paranás, os furos e os igarapés. Mesmo vendendo refresco o camelô do rio é um bamba: o produto dele sempre é melhor, o melhor da região. Às vezes, se acontece de o navio fazer muita onda, na saída, eles ficam com o dinheiro do freguês na mão, fingindo que a canoa descontrolou-se:

- Desculpe, madama. Dou o troca noutra vez. Obrigado, hein?

Com as leis modernas o regatão tem sofrido modificações no sistema, obrigado à matrícula na Capitania dos Portos e, embora ande se queixando da carestia, ganha muito com seu negócio, transportando tudo, inclusive açúcar, sal, feijão, café, combustível para os voadores (barcos a motor) e calçados.

Ao subir o Solimões deixa a mercadoria pedida ou não aos fregueses certos, geralmente pequenos comerciantes estabelecidos nos flutuantes — casas armadas sobre tronco de açacu, na água. Na volta recebe o equivalente em borracha e castanha, se quiser. Geralmente pede dinheiro mesmo, com um sorriso maroto de regatão. Os mais graúdos transacionam com o Banco de Crédito da Amazônia (os tais que vendem até fogão elétrico nos confins do rio), e os miúdos contentam-se com lucros menores, não vendem por atacado.

Antigamente o comércio era retido pelos portugueses, que o inauguraram na bacia. Mais tarde, na República, entraram na concorrência sírios, armênios, marroquinos e turcos, porém, os últimos estrangeiros desapareceram da Amazônia em 1940, ficando os arigós, grande números de mestiços, ciganos e descendentes de lusos, os donos da camelagem, também nos afluentes, Tapajós, Madeira, Tocantins, Purus.

Para se ter uma idéia desse comércio: os gramofones são o fim da picada, o que existe de mais chique. Um regatão que nos fez sinal em Santarém, estava vendendo um velho gramofone, por 15 contos de réis. E Santarém é uma cidade civilizada. Tocando a manivela, rodava discos bem antigos: rato / rato / rato / por que motivo tu roeste o meu baú!

Os regatões solitários, para fugir do tédio, vivem cantando. Ao passar pelas gaiolas fazem sinais e logo ficam atrás, ao sabor das ondas, sentados, com o remo na mão, talvez à espera de outro contato humano. No fundo, com todas as suas artimanhas e falta de ética comercial (que não pode haver na Amazônia), o camelô fluvial é um herói. Um herói tranqüilo como o castanheiro do Tocantins. Nunca espera vender nada e seu bolso anda cheio de pelegas de quinhentos.



(Passaes, Esdras. "O amazonense tranqüilo". Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1963)

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