|
|
| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Vai ovos, madama?
Olha o tucunaré fresquinho.
Fazendas de chita pra acabar.
Quer tucupi, beleza?
Cheiro de cabelo, quem quer?
O regatão da Amazônia, quase sempre, é um mau caráter. Um fabuloso mau caráter, que
vende fogão elétrico no Rio Negro (onde a eletricidade é manga de colete), e rádio a
pilha no alto Solimões (com garantia de dois anos!). Corre o rio de canoa, armada com
toldo de palha, cujas paredes são guarnecidas de prateleiras. Não contando a mercadoria
pesada, que o camelô fluvial transporta da Boca do Acre à baía de Marajó,
pacientemente, à vela ou motor de centro, o grosso do comércio resume-se em negócios
com peixe quelônios, peças ordinárias de fazenda, perfumes made in Belém do
Pará, tesouras, navalhas, carretéis de linha, facas, lampiões, oleogravuras de santos,
bíblias, baralhos, rifles, miçangas, tabaco, carne-seca, cachaça, açaí e uma
infinidade de coisas.
Como os casebres e malocas são erguidos na margem do Amazonas, o regatão vai repassando
o trajeto o ano inteiro, apanhando mercadoria aqui para vender ali. É ágil no remo, um
gigante na vela, porém, os mais organizados têm motor de centro e uma buzina. Para
anunciar a sua presença (alto Rio Negro), sopram num chifre dotado de cigarra, cortando o
silêncio da tarde e atraindo nas janelas dos casebres dezenas de caboclos, mestiços e
índios.
O regatão é um sujeito genial, conhece todos e tudo, sabe o que serve e o que não
serve, dá notícias da cidade grande, examina crianças, como médico experimentado, fala
de política com a freguesia, distribui santinhos e, no fim das contas, vende um par de
óculos de grau por um conto de réis, afirmando que é a última moda em Manaus. Ou troca
um Velho testamento por duas tartarugas criadas, sabendo que o cliente é
analfabeto.
Durante uma viagem que fizemos a bordo do Lobo dAlmada, de Manaus a Belém,
dezenas de regatões esperavam o navio em cada porto do Amazonas, desde Cocal a Marajó,
para exibir sua mercadoria. Cada embarcação tem uma especialidade: o refresqueiro
(sorvetes e refrescos), o vendedor de frutas, o frangueiro, o peixeiro, o santeiro, o
armeiro.
Quando o navio atraca, eles cercam a linha dágua, fazendo negócios (bons) com os
passageiros da terceira classe, geralmente arigós, caboclos mudando com a família e os
eternos desconhecidos da Amazônia, que vivem zanzando nas gaiolas o ano inteiro. É um
coro só:
Aqui é mais barato.
Tracajás?
Olha o jabá. É quase de graça.
Sorvetes, sorvetes.
Preço bom é com o Nonô.
O capitão espera com paciência de Jó. Mas quando apita pela terceira vez os regatões
sempre velozes, afastam-se em direçoes diversas. Ninguém sabe para onde vão. Daqui a
pouco são pontinhos perdidos entre os paranás, os furos e os igarapés. Mesmo vendendo
refresco o camelô do rio é um bamba: o produto dele sempre é melhor, o melhor da
região. Às vezes, se acontece de o navio fazer muita onda, na saída, eles ficam com o
dinheiro do freguês na mão, fingindo que a canoa descontrolou-se:
- Desculpe, madama. Dou o troca noutra vez. Obrigado, hein?
Com as leis modernas o regatão tem sofrido modificações no sistema, obrigado à
matrícula na Capitania dos Portos e, embora ande se queixando da carestia, ganha muito
com seu negócio, transportando tudo, inclusive açúcar, sal, feijão, café,
combustível para os voadores (barcos a motor) e calçados.
Ao subir o Solimões deixa a mercadoria pedida ou não aos fregueses certos, geralmente
pequenos comerciantes estabelecidos nos flutuantes casas armadas sobre tronco de
açacu, na água. Na volta recebe o equivalente em borracha e castanha, se quiser.
Geralmente pede dinheiro mesmo, com um sorriso maroto de regatão. Os mais graúdos
transacionam com o Banco de Crédito da Amazônia (os tais que vendem até fogão
elétrico nos confins do rio), e os miúdos contentam-se com lucros menores, não vendem
por atacado.
Antigamente o comércio era retido pelos portugueses, que o inauguraram na bacia. Mais
tarde, na República, entraram na concorrência sírios, armênios, marroquinos e turcos,
porém, os últimos estrangeiros desapareceram da Amazônia em 1940, ficando os arigós,
grande números de mestiços, ciganos e descendentes de lusos, os donos da camelagem,
também nos afluentes, Tapajós, Madeira, Tocantins, Purus.
Para se ter uma idéia desse comércio: os gramofones são o fim da picada, o que existe
de mais chique. Um regatão que nos fez sinal em Santarém, estava vendendo um velho
gramofone, por 15 contos de réis. E Santarém é uma cidade civilizada. Tocando a
manivela, rodava discos bem antigos: rato / rato / rato / por que motivo tu roeste o
meu baú!
Os regatões solitários, para fugir do tédio, vivem cantando. Ao passar pelas gaiolas
fazem sinais e logo ficam atrás, ao sabor das ondas, sentados, com o remo na mão, talvez
à espera de outro contato humano. No fundo, com todas as suas artimanhas e falta de
ética comercial (que não pode haver na Amazônia), o camelô fluvial é um herói. Um
herói tranqüilo como o castanheiro do Tocantins. Nunca espera vender nada e seu bolso
anda cheio de pelegas de quinhentos.
(Passaes, Esdras. "O amazonense
tranqüilo". Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 de
dezembro de 1963) |
|