Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Os fazedores de balaio, por A. Seixas Neto.

setaquad.gif (95 bytes)Cocadas para quem quiser, por Rose Cass e Antônio Carlos Pereira.

setaquad.gif (95 bytes)O amazonense tranquilo, um texto de Esdras Passaes sobre o regatão da Amazônia.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

COCADAS PARA QUEM QUISER

Rose Cass e Antônio Carlos Pereira


Eu sou o sheik de Cocadi quero sempre lhe agradar estarei sempre a sorrir quando V. S. vier comprar.

Mary! Kenny! Eu! Eu! — e a voz grave de baixo profundo vai gritando o pregão, enquanto mulheres, homens, moças e crianças rodeiam Valdir da Conceição — o sheik de Cocadi – e seu tabuleiro de cocadas, com o qual vai a pé do Flamengo ao Posto 6.

— Vai querer uma pretinha? A de amendoim está muito boa, freguesa ou essa bem branca? — interroga, entremeando frases inteiras em inglês, enquanto brinca com as crianças ou diz algo espirituoso para as senhoras e moças. Quando o cocadeiro não vem, faz falta, e as crianças perguntam: — Onde está o Mary, mamãe?

Televisão para que?

Parodiando a canção de Gutemberg Guarariba, a Margarida, Valdir já fez de tudo. Foi pedreiro, carpinteiro, padeiro e tecelão, antes de ser dono do seu destino, e só não é cantor porque não quer, pois convite para aparecer na televisão é o que não falta.

— Mas na televisão a gente só ganha cachê e eu não posso perder dinheiro, pois tenho muita gente para sustentar — esclarece. Valdir, além dos quatro filhos, Georgina (12 anos), Rinalda (10), Solange (8) e Jorge (4) ajuda também a família da mãe.

— Até que está bom. Sou livre que nem um passarinho — diz, com um sorriso simpático, admitindo que sua condição de viúvo tornou mais difícil criar os filhos, mas que pessoalmente, é ótimo ser livre outra vez.

As cocadas

— Trabalhar pra patrão é bom, mas o melhor mesmo é a gente trabalhar pra si. A senhora entende, nem todos os patrões são compreensivos. Pagam pouco, e tudo fica bem enquanto a gente tem saúde. Mas, quando adoecemos, jogam fora — conta Valdir, explicando porque quis transformar-se em empresário de si mesmo.

— Acordo às 4 da madrugada, e com meu primo, preparo o material do dia. A receita é da minha mãe, que é uma doceira fabulosa. Fazemos cerca de 400 cocadas por dia, mas esta quantidade pode aumentar ou diminuir conforme as encomendas que recebemos.

Valdir diz que ganha o suficiente para viver: — Tiro apenas NCR$ 180,00 para minhas despesas pessoais e o resto fica para minha família e para ajudar os meus.

Filósofo

Quem conhece Valdir, sua roupa toda branca de linho, com o albornáz também branco e uma toalha branca amarrada na cabeça, troca sempre um pouco de conversa com ele, para ouvir estórias interessantes sobre as coisas e pessoas. Quando o verão, principalmente, na praia vende cocadas do Leme ao Posto 6. Tem que parar de poucos em poucos metros para bater papo com alguns fregueses habituais. Até convites para deixar o Brasil já recebeu, depois de conversar com turistas norte-americanos:

— Mas, não estou interessado não. Não pretendo ficar rico, jamais. O dinheiro tem duas faces, a cara e a coroa. Se é bom de um lado, também traz muitas surpresas.

Foi o próprio Valdir quem inventou o traje que usa, como também foi sua a determinação de estudar inglês: — Acredito que um vendedor deve ter classe e gabarito, seja qual for a mercadoria que vende. Explica, acrescentando que é indispensável poder comunicar-se também com os estrangeiros.

Hoje, pregado no seu tabuleiro, o "Sheik de Cocadi" traz uma licença de funcionamento, autorizada pela Administração Regional da Zona Sul, que o considera um "tipo turistíco" dado o seu uniforme e a absoluta limpeza do produto que vende:

— Mas muitas vezes, antigamente, o rapa levava tudo, e a vaca ia pro brejo — recorda, brincando. Diz em seguida: — Bem, aí eu tinha que recomeçar tudo, não é?

Quanto ao futuro, Valdir é fatalista: — Quando chegar minha hora, chegou. Até lá, quero ver esse mundo pela frente, vender muitas cocadas e lidar com o público, o que me agrada muito. Não vou dizer que não tenho problemas, mas posso garantir que sou feliz.



(Cass, Rose; Pereira, Antônio Carlos. "Cocadas para quem quiser". O Jornal. Rio de Janeiro, 31 de maio de 1968, primeiro caderno)

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