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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Rose Cass e Antônio
Carlos Pereira |
Eu sou o sheik de Cocadi quero sempre lhe agradar estarei sempre a sorrir quando V.
S. vier comprar.
Mary! Kenny! Eu! Eu! e a voz grave de baixo profundo vai gritando o pregão,
enquanto mulheres, homens, moças e crianças rodeiam Valdir da Conceição o sheik
de Cocadi e seu tabuleiro de cocadas, com o qual vai a pé do Flamengo ao Posto
6.
Vai querer uma pretinha? A de amendoim está muito boa, freguesa ou essa bem
branca? interroga, entremeando frases inteiras em inglês, enquanto brinca com as
crianças ou diz algo espirituoso para as senhoras e moças. Quando o cocadeiro não vem,
faz falta, e as crianças perguntam: Onde está o Mary, mamãe?
Televisão para que?
Parodiando a canção de Gutemberg Guarariba, a Margarida, Valdir já fez de tudo.
Foi pedreiro, carpinteiro, padeiro e tecelão, antes de ser dono do seu destino, e só
não é cantor porque não quer, pois convite para aparecer na televisão é o que não
falta.
Mas na televisão a gente só ganha cachê e eu não posso perder dinheiro, pois
tenho muita gente para sustentar esclarece. Valdir, além dos quatro filhos,
Georgina (12 anos), Rinalda (10), Solange (8) e Jorge (4) ajuda também a família da
mãe.
Até que está bom. Sou livre que nem um passarinho diz, com um sorriso
simpático, admitindo que sua condição de viúvo tornou mais difícil criar os filhos,
mas que pessoalmente, é ótimo ser livre outra vez.
As cocadas
Trabalhar pra patrão é bom, mas o melhor mesmo é a gente trabalhar pra si. A
senhora entende, nem todos os patrões são compreensivos. Pagam pouco, e tudo fica bem
enquanto a gente tem saúde. Mas, quando adoecemos, jogam fora conta Valdir,
explicando porque quis transformar-se em empresário de si mesmo.
Acordo às 4 da madrugada, e com meu primo, preparo o material do dia. A receita é
da minha mãe, que é uma doceira fabulosa. Fazemos cerca de 400 cocadas por dia, mas esta
quantidade pode aumentar ou diminuir conforme as encomendas que recebemos.
Valdir diz que ganha o suficiente para viver: Tiro apenas NCR$ 180,00 para minhas
despesas pessoais e o resto fica para minha família e para ajudar os meus.
Filósofo
Quem conhece Valdir, sua roupa toda branca de linho, com o albornáz também branco e uma
toalha branca amarrada na cabeça, troca sempre um pouco de conversa com ele, para ouvir
estórias interessantes sobre as coisas e pessoas. Quando o verão, principalmente, na
praia vende cocadas do Leme ao Posto 6. Tem que parar de poucos em poucos metros para
bater papo com alguns fregueses habituais. Até convites para deixar o Brasil já recebeu,
depois de conversar com turistas norte-americanos:
Mas, não estou interessado não. Não pretendo ficar rico, jamais. O dinheiro tem
duas faces, a cara e a coroa. Se é bom de um lado, também traz muitas surpresas.
Foi o próprio Valdir quem inventou o traje que usa, como também foi sua a determinação
de estudar inglês: Acredito que um vendedor deve ter classe e gabarito, seja qual
for a mercadoria que vende. Explica, acrescentando que é indispensável poder
comunicar-se também com os estrangeiros.
Hoje, pregado no seu tabuleiro, o "Sheik de Cocadi" traz uma licença de
funcionamento, autorizada pela Administração Regional da Zona Sul, que o considera um
"tipo turistíco" dado o seu uniforme e a absoluta limpeza do produto que vende:
Mas muitas vezes, antigamente, o rapa levava tudo, e a vaca ia pro brejo
recorda, brincando. Diz em seguida: Bem, aí eu tinha que recomeçar tudo, não é?
Quanto ao futuro, Valdir é fatalista: Quando chegar minha hora, chegou. Até lá,
quero ver esse mundo pela frente, vender muitas cocadas e lidar com o público, o que me
agrada muito. Não vou dizer que não tenho problemas, mas posso garantir que sou feliz.
(Cass, Rose; Pereira, Antônio Carlos. "Cocadas
para quem quiser". O Jornal. Rio de Janeiro, 31 de maio de
1968, primeiro caderno) |
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