Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

setaquad.gif (95 bytes)O lobisomem, um conto de Raimundo Magalhães.

setaquad.gif (95 bytes)Assombramento, um conto de Afonso Arinos.

setaquad.gif (95 bytes)As doze verdades, folheto de José da Rocha.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

AS DOZE VERDADES

José da Rocha


Ilustração de Marcos JardimO diabo chegou um dia ao pé de um pastor que estava a jantar e disse-lhe:

— Eu te salvendo (em vez de "Deus te salve").

— Não é agora, que estou comendo — respondeu o pastor.

— Que estás tu comendo? — perguntou-lhe o diabo.

— Chicarões, aqui a saltar.

— Dás-me deles?

— Eu não, que te podes escaldar.

— Mas eu assopro.

— Só p’ra mór disso não tos hei-de eu dar.

— Sabes que a tua mulher foi à cabrada?

— É porque sabia onde ela estava.

— Ela levou-te um chibou.

— É porque ela na cabrada o achou.

— Ela fez um jantar bom e dele te não guardou.

— É porque ela de mim se não lembrou.

Entretanto o pastor acabou de jantar e foi-se a lavar. Mas as fontes estavam secas porque o diabo as tinha secado todas. Na falta de água, urinou nas mãos e lavou-se.

O diabo, então, muito admirado e irritado, disse:

— Eu t’arrenego, bicho do monte, que ao pé do c... tens a fonte! Já que és tão esperto, diz-me lá, se és capaz, as doze verdades. Diz-me a uma.

O pastor, que estava armado com o sinal da cruz, respondeu com prontidão:

— Digo-te a uma:

— Pro dedo se fez a unha.

— Diz-me as duas.

— Pras mãos se fizeram as luvas.

— Diz-me as três.

— Do pau de pinho se fez o pez.

— Diz-me as quatro.

— Pro pé se fez o sapato.

— Diz-me as cinco.

— Pra cintura se fez o cinto.

— Diz-me as seis.

— Bom vinho bebem os reis.

— Diz-me as sete.

— E mais dura a serpente que o cerne.

— Diz-me as oito.

— Do bom trigo é que se faz o bom biscoito.

— Diz-me as nove.

— Não há cabrinha sem bode.

— Diz-me as dez.

— Não há carneiro sem pés.

— Diz-me as onze.

— Não há metal mais duro có bronze.

— Diz-me as doze.

— As doze não tas digo. Sete raios leva o sol, outros tantos leva a lua, arrebenta diabo, que esta alma não é tua.

O diabo deu um berro e desapareceu.



(Em Brandão, Téo. Seis contos populares do Brasil. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Folclore; Maceió, Universidade Federal de Alagoas, 1982, p.15-16)

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