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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
O diabo chegou um dia ao pé de um
pastor que estava a jantar e disse-lhe:
Eu te salvendo (em vez de "Deus te salve").
Não é agora, que estou comendo respondeu o pastor.
Que estás tu comendo? perguntou-lhe o diabo.
Chicarões, aqui a saltar.
Dás-me deles?
Eu não, que te podes escaldar.
Mas eu assopro.
Só pra mór disso não tos hei-de eu dar.
Sabes que a tua mulher foi à cabrada?
É porque sabia onde ela estava.
Ela levou-te um chibou.
É porque ela na cabrada o achou.
Ela fez um jantar bom e dele te não guardou.
É porque ela de mim se não lembrou.
Entretanto o pastor acabou de jantar e foi-se a lavar. Mas as fontes estavam secas
porque o diabo as tinha secado todas. Na falta de água, urinou nas mãos e lavou-se.
O diabo, então, muito admirado e irritado, disse:
Eu tarrenego, bicho do monte, que ao pé do c... tens a fonte! Já que és
tão esperto, diz-me lá, se és capaz, as doze verdades. Diz-me a uma.
O pastor, que estava armado com o sinal da cruz, respondeu com prontidão:
Digo-te a uma:
Pro dedo se fez a unha.
Diz-me as duas.
Pras mãos se fizeram as luvas.
Diz-me as três.
Do pau de pinho se fez o pez.
Diz-me as quatro.
Pro pé se fez o sapato.
Diz-me as cinco.
Pra cintura se fez o cinto.
Diz-me as seis.
Bom vinho bebem os reis.
Diz-me as sete.
E mais dura a serpente que o cerne.
Diz-me as oito.
Do bom trigo é que se faz o bom biscoito.
Diz-me as nove.
Não há cabrinha sem bode.
Diz-me as dez.
Não há carneiro sem pés.
Diz-me as onze.
Não há metal mais duro có bronze.
Diz-me as doze.
As doze não tas digo. Sete raios leva o sol, outros tantos leva a lua, arrebenta
diabo, que esta alma não é tua.
O diabo deu um berro e desapareceu.
(Em Brandão, Téo. Seis contos populares do Brasil. Rio de
Janeiro, Instituto Nacional do Folclore; Maceió, Universidade Federal de Alagoas, 1982,
p.15-16) |
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