Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)Carnaval antigo em Alagoas, por Félix Lima Júnior.

setaquad.gif (95 bytes)O culto do mar praticado pelos pescadores do Rio de Janeiro em começos do século XX, descrito por João do Rio.

setaquad.gif (95 bytes)A Festa de Iemanjá na enseada do Rio Vermelho da Baía de Todos os Santos, por José de Souza

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


CARNAVAL ANTIGO

Félix Lima Júnior


Nas duas semanas anteriores ao domingo gordo aumentava extraordinariamente o movimento na rua do Hospital. Foliões dos mais destacados procuravam a casa do "seu" Ludgero — velho marceneiro que, em seu modesto estabelecimento comercial, além de comprar e vender móveis, alugava clarins, caixas, bombos, pratos, cometas, de que possuía bom estoque, aos organizadores dos afamados Zé-pereiras de carroça.

Um mês antes dos dias consagrados ao deus Momo, o Antônio Gerbase, súdito italiano, Alfredo Fiock Pinto, Chico da Teca, José Cardoso e Dão, em suas casas comerciais, expunham as primeiras máscaras. E com as máscaras, línguas de sogra, gaitas, apitos, bisnagas-relógios, além de outras de níquel e de vidro, de borracha, de zinco; chapéus de papel; cavanhaque; barbas postiças, borboletas e outros enfeites que se prendiam às roupas com alfinetes ou carrapichos; serpentinas, confétis de várias cores, trombetas de papelão, o diabo! Não tinham ainda aparecido lanças-perfume.

No Chapéu Chinês, de Simões & Irmão, na rua do Comércio — estabelecimento que só abria as portas no carnaval e pelo São João — colocavam, nas portas, manequins. com roupas de frade, arlequim, palhaço, diabo, etc. Alugavam fantasias de pierrot, pierrette, zuavo, colombina, apache, apachinete, gigolô, índio, velho, matuto, morcego, e nem sei mais o que. Vendiam máscaras de todos os tipos. e a todos os preços: Guilherme II, Disraelli, Gambeta, Bismarck, pachá, turco, chinês, além das de setim, de pano, de cera, artigos finos e caros, importados diretamente de Paris para os granfinos que se divertiam nos bailes da Fênix Alagoana.

Nas esquinas apareciam, então, mulheres com fogareiros feitos com latas vazias de querosene, trazendo os ingredientes necessários à fabricação das "cabacinhas" ou "limões de cheiro". Punha-se cera a derreter numa panela, misturava-se anilina, mergulhando-se, então, nessa mistura, uma especie de bilro de madeira, partido ao meio. Esfriava-se numa vasilha cheia dágua. Estava pronta a metade da "cabacinha". Ligavam-se duas delas com cera quente, aplicada com uma pena de galinha ou de peru. Enchiam-nas d’água perfumada e dentro de pouco tempo o taboleiro ao lado estava repleto dessas armas tão apreciadas para combate entre os foliões.

Começava o tormento das pobres mães de família importunadas pelos filhos que pediam dinheiro para comprar "cabacinhas" à sinha Luiza, com taboleiro na calçada da padaria de seu Alexandre Freitas; ou à sinha Totônia do beco, conhecida vendedora na Pajussara, cujo "estabelecimento" fora montado na esquina da rua do Araçá.

Às 9 da noite do sábado gordo de 1903, em bondes especiais, surgiu o tradicional e muito aplaudido Zé Pereira, da Fênix Alagoana, depois de anunciado a toques de clarim. Em primeiro lugar vinha a luzida guarda de honra, composta de sócios, vestidos de branco uns, fantasiados outros, todos montados a cavalo, conduzindo fogos de bengala.

No primeiro carro um enorme avestruz, de asas abertas carregava gentil garotinha, ricamente vestida, ladeada por fenianos fantasiados. No segundo carro via-se bem arranjada gôndola, tripulada por formosas senhoritas, vestidas de pierrettes, e quatro gondoleiros, a caráter, remo em punho, relembrando a velha cidade italiana dos Doges, o grande canal, o Palácio da Senhoria, a ponte dos suspiros. O terceiro era uma crítica ao jogo do bicho, invenção recente do barão de Drumond: enorme roda da fortuna, cercada de bicheiros, com um título sugestivo — Nova Indústria... O último carro conduzia diretores, sócios e músicos.

No domingo, à tarde, apareciam na praça dos Martírios, em frente ao Palácio do Governo, onde paravam e faziam a tradicional "meia lua", os clubes e grupos carnavalescos: Morcegos, Vassourinhas, Vulcão, Tromba d’Água, Cara dura, Botafora, Ciganinhas do Major, Dobradiça, Fechadura, Lenhadores, Garças, Ciganas, Abanadores, Cambinda de Ouro, Ciscadores, Estrela d’Alva, Cavalheiros dos Montes, com o rás Gonguila à frente, Mosquitinhos, Maracatu do Dão, etc.

O Clube das Feras, que se exibiu num dos primeiros anos deste século, foi organizado pelo major João Lobo, administrador da Casa de Detenção. Conduzindo enorme dragão exibiu-se Chico Barbeiro, tipo popular estimadíssimo; no outro ano apareceu com um sapo monstruoso, repulsivo, preso por uma corrente e guardado por dois legionários romanos armados de lanças.

Cada clube tinha porta-estandarte bem fantasiado, que marchava à frente, fazendo passos e requebros; morcegos com asas enormes e apitos ruidosos; dois balisas, com bastões, pulando, gingando, fazendo piruetas incríveis; quatro ou cinco "tocheiros" conduzindo enormes "mexeriqueiros" de folhas de flandres, cheios de querosene, enfiados em pontas de varas, os quais eram acesos nos arrabaldes distantes, em ruas não iluminadas; dois cordões de homens e mulheres, em fila indiana, e diversas figuras, inclusive o Fúria. Fechava o cortejo ou cordão a orquestra, com maior ou menor número de músicos, dependendo da importância que fora apurada no comércio e entre os sócios, admiradores, partidários e amigos da folia.

Alguns clubes, além do estandarte do ano, exibiam os dos períodos anteriores, todos ou quase todos de finíssimo tecido, seda ou gorgurão, bordados a ouro e a lantejoulas.

No domingo, à tarde, depois das 3 horas, iam aparecendo, no Comércio, os mascarados avulsos: o urso, preso por uma corda, com uma argola no beiço, acompanhado do domador, sujeito alto, de grandes bigodes, casaca preta, calças brancas, botas altas de cavalaria, cartola, empunhando um chicote; mateus de reisado, com o rosto pintado de preto, chapéu de papelão, afunilado, cheio de fitas e de espelhos, pés descalços, trazendo preso ao punho esquerdo um entrançado de cebolas para bater nos moleques, quando o aperreavam; a morte, enfiada num camisolão branco, máscara de caveira, conduzindo sobre o ombro direito enorme foice de papelão prateado, badalando furiosamente uma sineta; diabos e diabinhos, vestidos de vermelho, com grandes chifres, cauda e um ferro pontudo, espécie de tridente, na mão direita; o doutor, o estudante, o professor, com cabeça de burro, de casaca cartola ou bacurinha, carregado de livros; índios, corpos besuntados de ocre ou vermelhão, com tanga, perneiras e braçadeiras feitas de penas de galinhas e de peru, cocares, além do arco e da flecha; o boi, imitação dos do reisado, isto é, um indivíduo metido debaixo de uma armação de madeira e de pano, com formato do animal, conduzido por seis ou oito "camaradas" vestidos de vaqueiros, roupas e chapéus de couro, alpercatas e ferrão ao ombro, uns a pés, outros a cavalo. Paravam na porta das casas dos ricos e remediados, onde pediam uns cobres para comprar bebidas, "pois o boi estava com sede e queria molhar a goela"...

E outros mais: a professora. em geral um tipo magro, alto, feio, de pernas finas e compridas, com um vestido curto, seios de pano, cabeleira postiça, chapéu espalhafatoso cheio de fitas e flores velhas, aparecia rodeada de alunos — um grupo de marmanjos de calças curtas, pernas cabeludas, sapatos rasgados ou tamancos, com lousas, livros e cadernos, além da régua e da palmatória, gritando como desesperados: b-a, bá; b-e, bé; b-i, bi; b-o, bó; b-u, bu. Para escandalizar a pudica população iam surgindo as primeiras mulheres suspeitas vestidas de calças, enraivecendo velhas beatas que se benziam à passagem dessas emissárias de Satanás, o que fazia rir e rir à vontade o Hegecipo Caldas, na praça dos Martírios...

Nas segundas e terças-feiras, pela manhã, iam aparecendo os bobos mais bem vestidos, os mais distintos e espirituosos. Nos quatro cantos, um cidadão de máscara preta, mãos e pés pintados de negro, enfiado numa roupa velha de casemira cinza, chapéu de palha de ouricuri, furado, uma bolsa na mão esquerda e um cacete na direita, era alvo de atenção geral. De baixa estatura, meio corcunda, tipo legítimo do preto velho africano, pedia aos que passavam: benção, sinhô; benção, sinhá! Era o doutor Luiz Mesquita, que poucos reconheciam sob o disfarce de Pai João, alcançando sucesso extraordinário.

Na calçada do Bar Colombo, de Américo Maia, na rua do Comércio, em frente à Porta do Sol, estava sentado um mascarado bulindo com quem passava. Quem reconheceria nele o coronel Jacinto Paes Pinto da Silva, respeitável figura da alta sociedade e inspetor do Tesouro do Estado?

Antídio Vieira só aparecia à noite, miudinho, fantasiado de mulher, com uma mantilha preta, lunetas escorregando pelo nariz, um leque chinês, duas ou três anáguas bem engomadas, cabeleira postiça, com enorme treça-moleque de tartaruga.

Floriano Peixoto Tavares de Figueiredo, que morreria tão moço, fazia sucesso fantasiado de Barão de Vandesmet, todo de branco, barba a Pedro II, apoiando-se numa bengala e arrastando a perna direita. Vandesmet, francês de nascença, foi quem montou, em Atalaia, como se sabe, a usina Brasileiro.

Um policeman inglês, trajando quentíssima roupa de casemira azul marinho, chapéu tipo colonial, máscara larga de britânico apreciador de uísque, passeava na calçada da Livraria Fonseca: era Arsênio de Araújo.

Vestido de almocreve, montado num burro cor de rato, com grandes caçuás, atravessava o Comércio, pilheriando com os negociantes, parando no beco da Moeda para ligeiro descanso, na terça-feira pela manhã, certo cidadão que, embora mascarado era reconhecido por todos como o respeitável professor Agnelo Marques Barbosa, diretor do Colégio 15 de Março. Ainda em 1929, já de idade avançada, escandalizaria ele o governador àlvaro Paes exibindo-se vestido de índio, num banho de mar à fantasia, na avenida da Paz...

Animando essa gente toda passava à frente de um ruidoso esquenta-mulher o inesquecível major Bonifácio Silveira, conduzindo o chapéu de palha na ponta da bengala...

Depois de exibir sua elegância pela rua do Capim, do Livramento e praça da Cadeia passeava, no Comércio, o Olímpio Passos, fantasiado de viúva, com o mesmo vestido preto, o mesmo leque, as mesmas luvas, a mesma sombrinha e o mesmo sapato velho com que apareceu no carnaval anterior...

O doutor Eraldo Passos todos os anos aparecia disfarçado de maneira diferente e sempre com invulgar sucesso.

Exibia-se depois o pai do mato, velho matutão das brenhas, um tipo alto, enfiado numa roupa ordinária de brim de listras, calçando botinas reúnas, rangideiras, de soldado de Polícia, cabelo grande, barba enorme e mal tratada, um cacete de jucá debaixo do braço, espantado com a capitã, olhando os bondes e raros automóveis, indagando, aflito, a quem encontrava: Vosmecê sabe me informá adonde é que fica o quarté da Guarda Nacioná?

Muito admirado e aplaudido pelas melindrosas da época desfilava um grupo de marinheiros britânicos, de cabeleira sarará, falando inglês d’água doce, fumando cachimbo. Vestidos de branco, com sapatos da mesma cor, gola azul, laços pretos, traziam nas fitas dos gorros, em letras douradas, nomes de vasos de guerra de Sua Majestade: Hood, Invencible, Liverpool, Good Hope, Tubbulent. Era a jeunesse dorée de Jaraguá e Pajussara.

Apareciam os primeiros cowboys, mal arranjados, com pistolas de pau, largos sombreiros mexicanos, de feltro, botas, ou perneiras de couro, blusas de cores vivas, querendo imitar Tom Mix e William Farnum.

Quarta-feira de cinzas, com as ruas quase desertas, foliões retardatários voltavam à casa com gosto de cabo de guarda chuva na boca...

Algumas senhoras, de mantilha preta, dirigiam-se à catedral, ao Rosário, aos Martírios, ao Livramento, para orar e ouvir do sacerdote: Memento homo quia pulvis est...

Francisco Alves, o rei da voz, tragicamente desaparecido, se vivesse, poderia repetir parte do Carnaval de minha vida, inspirada composição de Benedito Lacerda e Aldo Cabral:

Quarta-feira de Cinzas amanhece
Na cidade há um silêncio que parece
Que o próprio mundo se despovoou
Um toque de clarim, além, distante
Vai levando consigo, agonizante
O som do Carnaval que já passou!
Repete-se a cena de costume:
— Cacos dispersos de lança-perfume,
Serpentina e confete pelo chão
E a máscara que a Vida jogou fora,
Mostrando que a alegria foi-se embora
Nos rastros da passagem da ilusão



(Lima Júnior, Félix. Festejos populares em Maceió de outrora. Rio de Janeiro, Associação Atlética Banco do Brasil, 1956. Cadernos AABB, 13)

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