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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
TAUÚCURI, TAUA-OÚ-CURI, DABUCURI |
Banquete, festa de convite, dada de tribo a tribo em sinal de amizade e boa vizinhança. A
tribo que resolveu obsequiar a outra previne-a de qualidade do Dabucuri. A obsequiada
prepara as bebidas, que variam conforme as comidas que podem consistir em frutas, produtos
da roça. carás, inhames, ou em caça ou peixes. Qualquer seja o Dabucuri, é geralmente
constituído de uma única espécie de comida, que é trazida com as solenidades da
pragmática. No dia aprazado a tribo que dá o Dabucuri chega à tardinha trazendo a
comida geralmente já pronta e preparada para ser logo comida, No porto, se vêm por
água, ou a uma certa distância da casa, se vêm por terra, se organiza o cortejo. Os
tocadores na frente, puxando o préstito, em seguida os que trazem o Dabucuri, e atrás
destes o resto do povo, se dirigem para a casa, onde deve haver a festa. Quando cala a
música, rompe o canto em que se ouve sempre com estribilho voltar o nome da fruta, caça
ou peixe, de que consta o Dabucuri. Quando o préstito chega a porta da casa pára, não
entra em mó, mas um a um, o tuixaua em frente, depois os tocadores e o resto do
povo, últimos os que trazem o Dabucuri: as mulheres dão a volta e vão à cozinha onde
estão as mulheres da casa, Dentro da maloca todos os homens estão em pé estendidos em
linha que vai da porta até o fundo, à esquerda de quem entra, O tuixaua, o
primeiro a entrar, pára na frente do primeiro homem e troca com ele os cumprimentos do
estilo, e passa adiante trocando seus cumprimentos com o segundo homem, enquanto o segundo
que entrou troca os cumprimentos com o primeiro, e assim sucessivamente até que todos
sejam entrados e todos tenham trocado os cumprimentos do estilo, Os recém-chegados,
quando têm acabado de cumprimentar todos os homens, que se acham estendidos em linha,
vêm um a um alinhar-se à direita de quem entra, de forma que, quando é acabada a
cerimônia do cumprimento, se encontram em duas linhas, uma em frente da outra e os que
trazem o Dabucuri vão deixá-los no chão sobre umas esteiras, ou simplesmente folhas de
bananeiras, aí dispostas para esse fim. Então vêm as mulheres da casa trazendo as
bebidas e, trocando com os recém-chegados também os cumprimentos de costume, logo
começa o banquete. Este dura interpolado de danças enquanto há que comer e beber. A
duração de um bom Dabucuri é de três dias. Acabada a festa, os que receberam o
Dabucuri acompanham processionalmente os que vieram dá-lo até o porto, ou a uma certa
distância, se a viagem é por terra, e aí feitas as despedidas, cada um volta a sua
casa. É o que tenho visto e observado mais de uma vez nas minhas viagens ao Uaupés,
tendo assistido e tomado parte em Dabucuris de todas as espécies e até em Dabucuri dado
em nossa honra, isto é, do meu companheiro de jornada no Uaupés, Max. J. Roberto, e
minha.
(Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed.
São Paulo, Livraria Martins, 1954, v.2, p.358) |
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