Ano V - fevereiro  2003 - nº 54

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 54
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)Tauúcuri, taua-oú-curi, dabucuri, banquete indígena descrito por Ermano de Stradelli.

setaquad.gif (95 bytes)Arte culinária, por Júlia Lopes de Almeida.

setaquad.gif (95 bytes)Doces do Norte, por Valdemar Valente.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


TAUÚCURI, TAUA-OÚ-CURI, DABUCURI

Ermano de Stradelli


Banquete, festa de convite, dada de tribo a tribo em sinal de amizade e boa vizinhança. A tribo que resolveu obsequiar a outra previne-a de qualidade do Dabucuri. A obsequiada prepara as bebidas, que variam conforme as comidas que podem consistir em frutas, produtos da roça. carás, inhames, ou em caça ou peixes. Qualquer seja o Dabucuri, é geralmente constituído de uma única espécie de comida, que é trazida com as solenidades da pragmática. No dia aprazado a tribo que dá o Dabucuri chega à tardinha trazendo a comida geralmente já pronta e preparada para ser logo comida, No porto, se vêm por água, ou a uma certa distância da casa, se vêm por terra, se organiza o cortejo. Os tocadores na frente, puxando o préstito, em seguida os que trazem o Dabucuri, e atrás destes o resto do povo, se dirigem para a casa, onde deve haver a festa. Quando cala a música, rompe o canto em que se ouve sempre com estribilho voltar o nome da fruta, caça ou peixe, de que consta o Dabucuri. Quando o préstito chega a porta da casa pára, não entra em mó, mas um a um, o tuixaua em frente, depois os tocadores e o resto do povo, últimos os que trazem o Dabucuri: as mulheres dão a volta e vão à cozinha onde estão as mulheres da casa, Dentro da maloca todos os homens estão em pé estendidos em linha que vai da porta até o fundo, à esquerda de quem entra, O tuixaua, o primeiro a entrar, pára na frente do primeiro homem e troca com ele os cumprimentos do estilo, e passa adiante trocando seus cumprimentos com o segundo homem, enquanto o segundo que entrou troca os cumprimentos com o primeiro, e assim sucessivamente até que todos sejam entrados e todos tenham trocado os cumprimentos do estilo, Os recém-chegados, quando têm acabado de cumprimentar todos os homens, que se acham estendidos em linha, vêm um a um alinhar-se à direita de quem entra, de forma que, quando é acabada a cerimônia do cumprimento, se encontram em duas linhas, uma em frente da outra e os que trazem o Dabucuri vão deixá-los no chão sobre umas esteiras, ou simplesmente folhas de bananeiras, aí dispostas para esse fim. Então vêm as mulheres da casa trazendo as bebidas e, trocando com os recém-chegados também os cumprimentos de costume, logo começa o banquete. Este dura interpolado de danças enquanto há que comer e beber. A duração de um bom Dabucuri é de três dias. Acabada a festa, os que receberam o Dabucuri acompanham processionalmente os que vieram dá-lo até o porto, ou a uma certa distância, se a viagem é por terra, e aí feitas as despedidas, cada um volta a sua casa. É o que tenho visto e observado mais de uma vez nas minhas viagens ao Uaupés, tendo assistido e tomado parte em Dabucuris de todas as espécies e até em Dabucuri dado em nossa honra, isto é, do meu companheiro de jornada no Uaupés, Max. J. Roberto, e minha.



(Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed. São Paulo, Livraria Martins, 1954, v.2, p.358)

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